Shane Lavalette/The New York Times
Shane Lavalette/The New York Times

Ator autista interpreta personagem que sofre do mesmo transtorno em peça

Mickey Rowe vive Christopher Boone em remontagem de obra que estreou na Broadway em 2014

Laura Collins-Hughes, The New York Times

11 Novembro 2017 | 16h00

SIRACUSA – Na manhã de quinta-feira, no café do outro lado da rua do Syracuse Stage, um ator chamado Mickey Rowe procurava se abrigar da chuva gelada quando o barista abriu a porta. Interpretando Christopher Boone em The Curious Incidente of the Dog in the Night-Times, de Simon Stephens, ele tinha uma apresentação dentro de poucas horas, mas antes teria de conceder uma entrevista.

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Na Broadway, a peça foi um sucesso, contemplada com um Tony, e encenada oito vezes na semana, com dois atores se alternando no difícil papel de Christopher, um jovem de 15 anos com autismo decidido a solucionar um mistério. Em Siracusa,  Rowe,  - o primeiro ator autista de fato a interpretar o papel – se apresenta no palco nove vezes por semana.

Para ele, esse trabalho árduo é motivo de orgulho: a prova de que um ator com transtorno de desenvolvimento é capaz. Confiante no seu desempenho a ponto de enviar um tuíte para uma jornalista do The New York Times pedindo a ela para assistir a peça (que funcionou) ele queria mostrar o que é possível quando companhias dão uma chance a atores como ele – e por extensão, o que é possível no âmbito cultural geral, quando empresas e patrões também oferecem essa oportunidade.

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Ele não argumenta que papéis como o de Christopher têm de ser interpretados por pessoas com autismo, apenas que a oportunidade deve ser dada a atores com o transtorno.

“Acho que a função do teatro é mudar o mundo”, disse ele durante o café. “Acho que ele tem muito mais poder do que imagina. E esse poder envolve uma grande responsabilidade”.

Difícil dizer se Rowe é o primeiro ator autista a fazer o papel de Christopher, diante as inúmeras produções de Curious Incident em todo o mundo. Mesmo Stephens, o dramaturgo, diz que embora ele seja o primeiro do qual ouviu falar, não tem certeza de que é o único.

A escolha de Rowe para o papel foi o resultado de um esforço deliberado de dois teatros profissionais regionais, o Syracuse Stage e o Indiana Repertory Theater, para realizar testes com atores com e sem autismo para o papel. Numa época em que os teatros discutem temas como diversidade, há uma pressão mais intensa para admitir atores com deficiências.

Uncommon Sense” uma nova peça off-Broadway do Tectonic Theater Project que trata de pessoas com autismo e suas famílias,  tem um ator autista, Andrew Duff, no elenco.

Para Robert Hupp, diretor artístico do Syracuse Stage,  buscar atores com autismo “tem um sentido lógico e irrefutável” no caso de Curious Incident.

“Para qualquer pessoa que tinha dúvidas ou preocupações, ou se perguntava se um ator com autismo conseguiria interpretar este papel, se ele seria oprimido pela produção, a resposta é não”, afirmou. “Não, se você é Mickey Rowe”.

Rowe, formado em arte dramática na universidade de Washington, descobriu quando já era adulto que tinha autismo. Quase cego, ele tem dificuldade para ler palavras com letras com tamanho menor do que 18 (ele usa lentes de contato no palco e óculos no seu dia a dia) e frequentou uma escola especial na infância – e não tinha amigos, vivia obcecado por truques de mágica e práticas circenses, como andar com pernas de pau, fazer malabarismos ou andar de monociclo.

Ele também fez terapia ocupacional e fonoaudiologia.  E suspeita que seus pais sabiam que ele era autista, mas não queriam que fosse rotulado assim. Mas não os questionou; disse que eles não têm esse tipo de relacionamento.

Foi sua namorada – hoje sua mulher e mãe de seus dois filhos – que insistiu para ele buscar ajuda. Na Adult Autism Clinic da universidade, seu diagnóstico foi “um grande alívio porque você sabe o resto da vida que alguma coisa é diferente. Você não sabe a razão e nem do que se trata, tampouco se você é uma pessoa estúpida ou, enfim, o que está sucedendo”.

Mas ele não falava para as pessoas sobre seu autismo. Portanto foi perturbador quando, em um curso de interpretação que fazia na época, a peça Curious Incident estreou na Broadway, em 2014, e o seu professor lhe entregou um dos discursos do personagem Christopher e disse “você tem de fazer este monólogo. Este é você”.

“Lembro-me de ter pensado depois: ‘será que ela sabe que sou autista? As pessoas sabem?’”,  disse.

Ele não é Christopher, porém, e os dois ocupam posições diferentes no espectro do autismo. Mesmo assim ele reconheceu aspectos do seu problema naquele monólogo, foi para casa, e ouviu o romance gravado em áudio que Stephens adaptou para o teatro.

 Não demorou muito, na luta para conseguir trabalho, para Rowe  desistir de ocultar seu transtorno. Em um ensaio no website HowlRound, ele escreveu sobre o que é ser um ator com autismo, observando a “tensão entre tudo o que sou e tudo o que é normal para um ator”. Esperava que essa revelação mudasse a maneira como as pessoas o olhavam e conseguisse uma chance.

Com esse artigo Rowe entrou do radar dos que procuravam um ator com autismo, mas na prática nada mudou. Em busca de papéis, os obstáculos surgiram: os bate-papos informais, o contato visual, a conexão instantânea que se espera entre um ator e o diretor.

“A maneira como você entra na sala e aperta a mão da pessoa com quem vai se reunir pela primeira vez é importante na hora  do teste e autistas não são muito bons nisto”, disse ele.

Assim seu currículo era comparativamente fraco quando a produção do Syracuse Theater o chamou. Logo a diretora do programa na Califórnia, Risa Brainin, foi até Seattle para ver se ele tinha as qualidades necessárias. Caso contrário,  não se comprometeriam.

“Era um papel muito importante e difícil. O que quisemos foi dar uma oportunidade”.

Interessados em trabalhar com Rowe, Hupp e Brainin discutiram futuros projetos e que papéis se ajustariam a ele.

O que Rowe aspira é uma vida no teatro americano, provavelmente com um período de estudos no caminho. Ele se vê como líder de um teatro regional e não teme a socialização que isso exigirá. Relacionar-se com pessoas talvez ainda não seja um dos seus talentos, mas entende que o diretor artístico simplesmente interpreta um papel. Sabendo disto o medo desaparece. /Tradução de Terezinha Martino

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