Amanda Voisard/The Washington Post
Amanda Voisard/The Washington Post

Autobiografia de Gloria Steinem revela bastidores de sua luta feminista

Jornalista e militante conta episódios de preconceito em 'Minha Vida na Estrada'

Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2017 | 16h00

Em um táxi na Manhattan de 1964, Gloria Steinem se sentia uma repórter de sorte. Ela tinha talento e experiência, mas não é todo dia que se está ao lado do dito pai do jornalismo literário, Gay Talese, e do romancista Saul Bellow. E mais: eram os únicos a acompanhar um dia inteiro na campanha de Bobby Kennedy ao Senado, pouco depois do assassinato de seu irmão, John. Entre os dois escritores no banco de trás do táxi, a jovem Gloria ia fazer um comentário, quando foi interrompida por Talese, que se inclinou e disse para Bellow: “Você sabe como todo ano tem uma garota bonita que vem para Nova York e finge ser escritora? Então, a garota bonita este ano é a Gloria.” E depois começaram a discutir o trânsito nova-iorquino, sem nada mais. Como se ela não estivesse ali. Pela primeira vez, Gloria ficou sem palavras.

O episódio é narrado na autobiografia de Steinem, Minha Vida na Estrada, lançada em 2015, mas que só chegou no Brasil no final de setembro. As dificuldades que encontrou na vida e na carreira pelo simples fato de ser mulher fizeram-na sensibilizar-se para o que Talese ou Bellow jamais entenderiam. E foi assim que se consagrou como uma das maiores feministas de seu tempo – o livro reúne todos esses momentos históricos e anônimos.

+++ Leia o primeiro texto feminista da história, de Marie le Jars de Gournay, escrito em 1622

Minha Vida na Estrada é, antes de tudo, um registro histórico – não à toa, Gloria tem 83 anos. Quando o escreveu, ela não sabia que seu caminho cruzaria em 2017 um mesmo cenário que nos anos 1960. À época, como uma jovem jornalista freelancer, ela acompanhou uma multidão apaixonada se amassar nas ruas de Washington para ouvir o famoso discurso de Martin Luther King: Eu Tive um Sonho, um marco da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Neste ano, mais de meio século depois, ela foi uma das convidadas a falar para uma multidão na Marcha das Mulheres contra o presidente eleito Donald Trump, no Lincoln Memorial. Ovacionada por feministas de 1.ª, 2.ª e 3.ª geração, improvisou um discurso bem humorado, e fez todas se empurrarem um pouco mais quando disse a Trump: “Eu conheci o povo e você não é o povo”, parafraseando uma frase popular. “Nós somos o povo.”

+++ Clássico de Octavia Butler aborda racismo com viagens no tempo

Gloria conheceu o povo em suas corajosas andanças – que começaram na infância, com a família cruzando os Estados Unidos num trailer. Após a faculdade, nos anos 1950, decidiu morar um ano no estrangeiro, onde conheceu estratégias de luta e de sobrevivência na Índia pós-Gandhi. Vinte anos mais tarde, quando movimentos feministas ferviam em vários países, a escritora voltou para a Índia a convite de uma amiga, para aprender táticas de não violência. No livro, ela conta um episódio que a marcou, a entrevista com Kamaladevi Chattopadhyay, uma “rara líder mulher durante a luta por independência”. 

“Enquanto explicávamos nossa ideia de ensinar as táticas de Gandhi para os movimentos das mulheres, ela nos ouviu pacientemente, sentada e balançando-se em uma cadeira em sua varanda, tomando chá. Quando terminamos, ela disse: ‘Bom, mas é claro, minhas queridas. Nós ensinamos a ele tudo o que ele sabia.’” Kamaladevi explicou, nas palavras de Gloria: Gandhi testemunhou a lutas das mulheres contra o sati, ainda sob o domínio britânico, depois, foi estudar na Inglaterra, onde viu o movimento das sufragistas, ajudou a encorajar as indianas a usarem táticas das inglesas radicais do Pankhursts pelo sufrágio. Isso mostrou à jovem ativista que ela conhecia a história do homem sem saber que muitas das táticas em que queriam se inspirar eram suas desde o princípio.

O nome de Gloria Steinem ganhou notoriedade quando ela, jornalista, se disfarçou de coelhinha da Playboy, em 1963, para testemunhar que garçonetes estavam sendo obrigadas a fazer exame ginecológico para trabalhar nos clubes da marca. O episódio, que marcou a história do undercover journalism nos Estados Unidos, não consta em detalhes na sua autobiografia. Talvez ela não aguentasse mais falar sobre isso. A história é boa, mas ao lado da coletânea, não fez falta.

Bem humorada e didática (foi a única roteirista do programa de comédia precursor do Saturday Night Live), ela passou a maior parte da vida palestrando em universidades ou fazendo política pelo país. Na estrada, Gloria esteve com Dorothy Hughes, Bette Davis, Betty Friedan, mas também com um padre que lutava pelos direitos das mulheres e dos negros, além de um caubói que foi vítima de violência sexual na infância e um taxista da Polônia, preconceituoso e racista, sem entender que ele próprio era imigrante.

Todos os episódios do livro construíram a moderna Gloria de hoje, que respeita e contempla feminismos de todas as gerações; negro, trans e indígena. Por outro lado, é impossível não se perguntar que caminho ela poderia ter percorrido, não tivesse encontrado esses obstáculos. A exemplo de Virginia Woolf, que imaginou uma irmã de Shakespeare tão talentosa quanto o autor, mas tão invisível quanto a jovem jornalista naquele táxi em Manhattan, Gloria pensou: e se ela fosse a irmã de Talese? Mesmo talento, oportunidades diferentes. De um jeito ou de outro, a vida de Gloria na estrada, além de surpreendente, abriu espaço para muitas irmãs de Shakespeare que vieram depois.

Minha Vida na Estrada

Autora: Gloria Steinem

Tradução: Janda Montenegro

Editora: Bertrand Brasil

392 páginas

R$ 49,90

Mais conteúdo sobre:
Gloria Steinem Feminismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.