Autobiografia de Trotski é relançada no Brasil

Autobiografia de Trotski é relançada no Brasil

'Minha Vida' se assemelha a um romance de formação e deve empolgar leitores de todo o espectro ideológico

Aurora Bernardin*, Colaboração para o Estado

14 Outubro 2017 | 16h00

O leitor de qualquer ideologia política (e mesmo aquele que – visto os tempos – optou por não ter nenhuma) não deixará de se empolgar com o romance de formação (e de ação) que é esta autobiografia que Trotski (1879-1940) escreveu quando, expulso da Rússia por Stalin – embora Lenin, em seu testamento de 1923, o tivesse indicado como seu sucessor et pour cause... –, se encontrava exilado em Prínkipo (próximo a Istambul), em 1929. Isso porque, além de relatar, em primeira pessoa, os principais fatos sociais e políticos que marcaram o mundo, no começo do século passado, ele o fez com a profundidade e o garbo do estudioso exemplar que sempre foi. Ele o foi tanto nas humanidades quanto nas ciências exatas (queria dedicar-se, na universidade, ao estudo da matemática) e nas ciências aplicadas. Graças a seus conhecimentos de física e de mecânica, conseguiu reerguer as estradas de ferro da Rússia, quando comissário dos Transportes, isso sem contar o método e a estratégia que lhe permitiu – quando comissário da Guerra – transformar um contingente de cerca de 500 mil soldados em um exército de 5 milhões de homens e mulheres bem equipados e terminar com a Guerra Civil.

A tese da revolução permanente, à qual consagrou sua vida, acompanhava pari passu a da educação continuada, à qual se dedicava em cada momento livre de sua engajadíssima existência. É justamente por seu poder intelectual, fruto de suas extensas e meditadas leituras e pela reiterada eficácia de seus métodos organizacionais e administrativos que tanto impressionaram Lenin – de quem foi, mais do que o braço direito, o primeiro colaborador – que não lhe sobrou tempo nem disposição para se dedicar aos compromissos (manipulações) necessários para vencer as intrigas e as decisões do partido sob o domínio de Stalin.

“A biografia de um revolucionário – assim começa o livro – só pode abordar questões teóricas, principalmente nos períodos revolucionários”, mas o importante é que essas teorias e as polêmicas que elas envolvem são expressas como corolários de leis gerais que o autor foi descobrindo e comprovando progressivamente. Essa procura de uma lei válida, por baixo das impressões e das aparências, data de sua primeira adolescência, quando ele diz, por exemplo, em relação à infância: “São poucas as crianças cuja infância é feliz. A vida golpeia os fracos e quem é mais fraco que uma criança?”

“Em 1897 – continua – foi pela escrita que eu combati pelas ideias bem determinadas que, desse livro, ocupam a maior parte, e que foram associadas a fatos de minha vida e aos grandes acontecimentos dos quais os leitores conhecem os traços essenciais.” (Aos leitores de hoje bastará verificar os detalhes das datas mais importantes em qualquer cronologia de Trotski disponível.)

De fato é a escrita incansável, junto ao dom oratório que inflamava as massas de estudantes e operários, por mais precárias que fossem as condições, que o tornará conhecido no mundo inteiro e temido na Rússia, pelos adeptos de Stalin. “Minha vida foi superabundante de aventuras, porém, eu nada tenho de aventureiro. Meus hábitos são pedantes e conservadores. Aprecio a disciplina e o método; não tolero a desordem e o espírito destrutivo.” Na escrita, contudo, como a de sua autobiografia, ele entusiasma: por exemplo, quando descreve os casos de vida ou morte, ou os episódios da Guerra Civil, ou quando se refere à necessidade de decisões súbitas que levam a ações mais que rocambolescas e exigem o sangue frio de um grande estrategista.

O erro que ele mesmo se atribuiu ao ser expulso da escola de Nikolaev, quando foi delatado por um colega por ter defendido um aluno injustiçado: “Defender demais os desvalidos e contar demais com a solidariedade humana” não será, contudo, uma lição, para ele.

Será a descoberta de uma tendência que ele seguirá por toda a vida e que, aliada ao fato de não ter facilidade nem disposição, nem tempo, para os compromissos e as manipulações do poder, será seu limite e marcará seu fim. Sempre ocupado em traduzir em ação eficaz, tanto escrita como concreta, as “ideias determinadas” a que chegava e nas quais depositava a máxima confiança, é vítima do defeito que lhe é atribuído por Lenin, em seu testamento: “O mais capaz é Trotski, seu defeito consiste em uma excessiva confiança em si. Stalin é brutal, desleal, capaz de abusar do poder que lhe dá o aparelho do partido. É preciso eliminar Stalin para evitar uma ruptura.” Contudo, o rumo da História foi diferente. “‘Mas e o seu destino pessoal?’ – ouço esta pergunta – diz Trotski em Istambul –, na qual a curiosidade não esconde a ironia. Posso acrescentar pouca coisa ao que já disse neste livro. Não meço o processo histórico com o parâmetro de meu destino pessoal. Bem ao contrário, considero meu destino pessoal não somente objetivamente, mas também subjetivamente, ligado indissoluvelmente à marcha da evolução social (...) A guerra eliminou toda uma geração, construindo um intervalo na memória dos povos. Assim, ela impediu que a nova geração reconhecesse diretamente que, no fundo, apenas repete o que já foi feito pela geração anterior, mas agora num patamar histórico mais elevado e, por conseguinte, com consequências ainda mais ameaçadoras.”

A classe operária da Rússia, sob a direção dos bolcheviques, tentou reconstruir a vida de uma forma que ficasse excluída a possibilidade dessas crises violentas de demência, tão características na vida da humanidade. Ela tentou construir as bases de uma cultura mais elevada. Eis o sentido da Revolução de Outubro.

*Aurora Bernardini é professora de pós-graduação de literatura russa na USP 

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