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Autor de mais de 70 livros, César Aira lança 'Os Fantasmas'

Escritor argentino constatou que não tinha talento para a poesia, então forjou a prosa límpida que acabou por se tornar sua marca

Sérgio Medeiros *, Colaboração para o Estado

03 Junho 2017 | 16h00

Num ensaio intitulado Por Que Escrevi, o prolífico César Aira, ficcionista argentino com mais de 70 livros publicados, afirmou que não se necessita nenhum talento especial para fazer literatura, mas depois contemporizou: “Não é bem assim, a julgar pela escassez extrema de bons escritores.” No entanto, ao se debruçar sobre o próprio percurso, disse reconhecer um fundo de verdade na sua afirmação polêmica. Na juventude, quando constatou que não sabia fazer poesia, decidiu restringir-se à ficção, escrevendo todos os dias e produzindo uma massa impressionante de textos. Aprimorou a técnica e, graças a esse esforço, passou a se expressar numa “prosa transparente, não-artística, informativa”, cuja claridade serviria para explicar o inexplicável. Seu conterrâneo e amigo Arturo Carrera (ambos nasceram em Coronel Pringles, no final dos anos 1940) havia vindo ao mundo poeta, Aira não. Enquanto o outro escrevia versos de inegável valor, o ficcionista praticava incansavelmente a escrita límpida e pausada, sua marca registrada.

Contudo, ao cultivar a explicação prosaica, Aira deixava crescer o inexplicável, como se pode verificar no seu romance curto Os Fantasmas, lançado agora no Brasil. À medida que um edifício de alto padrão vai sendo construído na rua José Bonifácio, na capital argentina, o porteiro chileno e sua família, que reside no local, começam a ver fantasmas que cruzam as paredes dos apartamentos ou se reúnem tranquilamente na antena parabólica da cobertura; às vezes, eles se põem a gargalhar de modo extravagante. Os adultos mantêm crescente intimidade com esses seres pacíficos, sobretudo uma jovem simplória e volúvel, Patrícia, que lhes dirige a palavra no dia 31 de dezembro, data em que transcorre toda a trama do livro, a qual começa com a visita pela manhã dos abonados proprietários, acompanhados de decoradores. 

Após a partida deles, os pedreiros se reúnem ali mesmo para um almoço de confraternização, o que obriga o porteiro, Raúl Viñas, a usar um método sobrenatural para esfriar 14 garrafas de vinho tinto: ele as introduz nos fantasmas, cujo tórax, como ele descobrira, era um poderoso “freezer”. Mais que isso, o vulgar vinho barato logo começava a circular por todo o corpo imaterial transformando-se num excelente cabernet sauvignon. Explorado pelos patrões argentinos, o chileno era um beberrão grosseiro, mas os amáveis fantasmas transformavam seu ato compulsivo de beber em algo mais condizente com o sobrenome Viñas.

Cada personagem vê os fantasmas dos seus sonhos. Patrícia, por exemplo, não os percebia como potenciais geladeiras, mas como homens nus, cobertos de pó branco dos pés à cabeça. Via também, na extremidade de seu órgão genital, o minúsculo círculo da glande, de um vermelho brilhante e úmido. Chamava-lhe a atenção, além disso, o fato de falarem um espanhol sem sotaque discernível, como certos galãs da televisão que empregavam, nas telenovelas que assistia com a mãe, uma língua neutra, nem chilena nem argentina. Havia, portanto, da perspectiva da jovem, um fascinante universo imaginário no prédio em construção, ocupado unicamente por nudistas, os quais preparavam, como lhe revelaram, uma grande festa de passagem de ano, para a qual ela acabou sendo convidada. Mas, para comparecer, precisaria cometer suicídio quase à meia-noite, abandonando para sempre o jantar trivial que sua mãe estava preparando e que reuniria os parentes mais próximos, todos chilenos pobres que viviam em Buenos Aires. 

No último dia do ano, fez muito calor na cidade. Depois do alegre almoço dos pedreiros, o prédio se esvaziou e as crianças, na casa do porteiro, dormiram a sesta junto com o pai bêbado. Patrícia também se deitou, mas no sofá da sala. Para falar do seu sonho vespertino, o autor faz uma longa e curiosa digressão, comparando a literatura com a arquitetura. Cita as construções de povos considerados primitivos, os quais, às vezes, como os aborígines australianos, não erguem nenhum abrigo, pois suas construções são puramente simbólicas, como Dublin, a cidade mental de James Joyce. Pergunta-se Aira se a literatura não seria a arquitetura não construída.

A imensa obra literária de César Aira é um edifício inconcluso onde trivial e extraordinário convivem bem entre si, como o leitor poderá verificar em Os Fantasmas, que não é, porém, o melhor livro do autor publicado no Brasil. Um Acontecimento na Vida do Pintor-Viajante e Haikus parecem-me superiores. Recomendo também Pequeno Manual de Procedimentos, que contém, entre outras preciosidades, o ensaio Por Que Escrevi e um retrato comovente do pianista de free jazz Cecil Taylor. 

*Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta. Publicou 'As Emas do General Stroessner' (Iluminuras, 2017) e outras peças

Os Fantasmas

Autor: César Aira

Tradução: Joca Wolff

Editora: Rocco

160 páginas

R$ 34,50

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Literatura

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