REPRODUÇÃO
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Bananização do mal

Só o petróleo provocou tantos estragos políticos quanto as bananas da Chiquita, agora à venda

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2014 | 16h00

Quando chega ao noticiário, a banana ou está com problemas de sobrevivência (atacada por fungos e insetos) ou metida em casos de agressões racistas em jogos de futebol. Em sua mais recente reaparição na mídia era o pivô de uma contenda internacional e uma tentativa de burlar o imposto de renda. O Brasil está na contenda, mas a burla, felizmente desta vez, não nos diz respeito. 

De um lado, a Chiquita Brands International, gigante americana da produção de bananas. Do outro, a Fyffes, similar irlandesa, e a fabricante brasileira de sucos de laranja Cutrale, associada ao Banco Safra. Para livrar-se dos impostos a desembolsar nos EUA sobre o US$1,7 bilhão de lucro que mantém retido no exterior, a Chiquita ameaçou comprar a rival europeia ou fundir-se com ela e transferir sua sede de Charlotte (Carolina do Norte) para a Irlanda, onde o fisco é mais do que camarada. A certa altura das negociações, a Fyffes inverteu o processo e propôs comprar o comprador. 

Os proclamas já estavam quase prontos quando a Cutrale e o Banco Safra ofereceram US$ 625 milhões pela Chiquita. Os acionistas da Chiquita piraram. Deveriam decidir sobre a proposta da Fyffes na próxima quarta-feira, mas adiaram a bananosa para 3 de outubro. 

A eventual vitória da proposta brasileira pode não ensejar uma Bananobrás de capital privado, mas nos dará maior destaque internacional na produção e comercialização da fruta mais consumida no mundo inteiro. Distinção, por sinal, das mais merecidas. Aqui a banana é nossa, nos EUA ela vem de fora, importada pela Chiquita – numa única variedade, a banana d’água, também conhecida como nanica (chiquita em espanhol). Ao sucesso americano Yes, we Have no Bananas, replicamos com a marchinha carnavalesca Yes, nós Temos Bananas. Agora poderemos tê-las em maior quantidade.

Quarto alimento mais cultivado pelo homem (só perde para o arroz, o trigo e o milho) e a mais versátil e nutritiva das frutas (11 vitaminas), a banana tem peso relativamente modesto em nossa pauta de exportações, ainda protagonizada pelo minério de ferro, o petróleo, a soja e a cana-de-açúcar, mas 10% da produção mundial de bananas brotam aqui na terra que uma antiquíssima comédia com Oscarito batizou de Bananolândia e Ivan Lessa, et pour cause, só chamava de Bananão. Já estivemos atrás da imbatível Índia, Uganda e Equador, depois ascendemos à segunda colocação; e se não exportamos mais a culpa é do mercado interno, onde a maior parte de nossa produção é consumida. 

A aquisição da Chiquita pela Cutrale e o Safra não nos assegura a liderança no mercado mundial de bananas, mas tem um valor simbólico nada negligenciável. 

Durante 85 anos a Chiquita Brands International teve outro nome – United Fruit Company – e foi com ele que se tornou a mais poderosa, tentacular e temida corporação monopolista ligada ao cultivo e comercialização de bananas e outras frutas da América Latina. Não foi por acertar palpites para a Copa do Mundo que ganhou o apelido de “Polvo”. Beneficiou-se como quis da América Central e Caribe, atuando como um governo paralelo, pressionando e comprando votos dos políticos em favor dos seus interesses. Bananizou as repúblicas de Honduras, Guatemala, Costa Rica, Panamá, Colômbia e Equador, explorou a mão de obra nativa, invadiu terras, lesou o fisco, o diabo. Em sintonia com a Casa Branca e a CIA, patrocinou até golpes de Estado. 

O mais célebre foi o que derrubou o presidente da Guatemala Jacobo Arbenz Guzmán, em junho de 1954, pelas armas de um Exército corrompido pelos “barões da banana” e sua retórica anticomunista. Arbenz forçou a revenda ao governo de terras não cultivadas pela United Fruit para distribuição entre a população rural e, tachado de socialista, acabou substituído por uma ditadura militar, tal como Gore Vidal antecipara quatro anos antes no romance Dark Green, Bright Red. 

Desde sempre a banana seguiu o homem e vice-versa. As primeiras plantações surgiram na China, no século 3º d.C, e logo despertaram a cobiça dos aventureiros mais gananciosos, sem escrúpulos e espantosamente cruéis do Velho e do Novo Mundo. “Impressionante como algo que imaginamos inócuo como a banana tenha provocado tantas mudanças de governo e regimes quanto o petróleo”, escreveu o jornalista Peter Chapman, em Bananas – How the United Fruit Company Shaped the World, ponto final de sua longa cobertura das atividades da Chiquita para o Financial Times. 

A bananosa inaugural foi a invasão de Honduras, em 1911. Lá, os “soldados da banana” depuseram o presidente e ainda exigiram que seu substituto os reembolsasse pelas “despesas” da invasão. Dezessete anos depois, mil camponeses colombianos foram dizimados à bala por jagunços da United Fruit diante da estação de trem de Cienaga, tragédia que inspiraria um romance (La Casa Grande) do colombiano Álvaro Cepeda Samudio e um capítulo de Cem Anos de Solidão, de García Márquez. 

Chapman não usa em seu livro a expressão “bananização do mal”, mas poderia tê-lo feito, não exatamente para homenagear Hannah Arendt e sua teoria sobre a “banalização do mal”, mas para sintetizar em duas palavras os estragos que a cobiça humana cometeu em seu nome. 

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