Andreas Heiniger/Editora Bei
Andreas Heiniger/Editora Bei

Bancos esculpidos por indígenas possuem traços de vanguarda

Obras de culturas do interior do Brasil que refletem características modernas estão reunidas em livro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

06 Maio 2017 | 16h00

Paralelamente aos lançamentos dos livros do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, chega às livrarias um luxuoso volume dedicado à arte dos índios de diversas regiões da Amazônia, Pará e Guianas, Bancos Indígenas do Brasil, da Editora Bei, que reúne uma amostra de sua coleção com mais de 200 bancos de madeira, alguns zoomórficos, outros decorados com grafismos ou entalhes. O livro reproduz 162 bancos de 32 artistas pertencentes a 26 etnias, entre elas os Mehinaku, Kalapalo e Tapirapé.

Essa riqueza pluriétnica e multicultural é destacada pelo pintor paulistano Sergio Fingermann num dos textos do livro, que conta também com uma pequena análise sobre a forma e função desses objetos pela designer Claudia Moreira Salles. A curadora e crítica de design Giovanna Massoni traça uma correspondência analógica entre esses objetos rituais de povos ancestrais e as peças dos pioneiros do design contemporâneo. Finalmente, a arqueóloga Cristina Barreto, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, conta a origem do mito da criação do universo ligado à entrega de um banco celestial aos ancestrais dos atuais Tukano.

A coleção de bancos indígenas da editora Bei, comandada por Marisa Moreira Salles e Tomas Alvim, já tem 15 anos. Agrupa desde os exemplares mais simples, concebidos por povos que só eventualmente se dedicam à produção de bancos, como os Sateré-Mawé, do sul da Amazônia, até os “xepí” (bancos zoomórficos) dos Mehinaku, do Parque Indígena do Xingu, hoje divididos entre duas aldeias. Há bancos esculpidos pelos Mehinaku que rivalizam em beleza e sofisticação com as esculturas modernas de Brancusi e Picasso.

A questão da autoria, ainda que seja de origem burguesa, uma ideia consagrada no século 19, não é totalmente estranha aos povos indígenas, segundo o livro. A maior parte dos bancos, observa a designer Claudia Moreira Salles, é zoomórfica, carregando cada animal a sua simbologia. Para os índios, conclui ela, “sentar em bancos é, quase sempre, uma prerrogativa masculina e seu uso indica a hierarquia entre os indivíduos”. Os assentos não têm encosto e os bancos são baixos, acompanhando a curvatura do corpo. Eles desempenham um papel essencial nos rituais de transformação e transporte para outros estados mentais ou espirituais.

Como na natureza não existem ângulos retos, explica a designer, as formas arredondadas dominam. O tamanho dos bancos difere conforme o prestígio do usuário – o que explica a singularidade daquele que é usado pelo xamã da tribo. Forma e função, segundo a curadora e crítica Giovanna Massoni, “adquirem sentido quando vinculadas aos usuários dos objetos”. Mais do que peças de inquestionável valor artístico, esse conjunto de bancos, diz ela, “nos conta a história desses povos indígenas e revela sua visão de mundo”.

Entre eles, a arqueóloga Cristina Barreto destaca os Tukano, etnia para a qual os bancos “não são só sua especialidade artesanal, mas um distintivo de identidade”. Eles integram o rol dos objetos que, segundo ela, resistem ao processo de industrialização – considerando ainda que a função utilitária não é o que impulsiona os indígenas à produção desses objetos.

Alguns deles, com o os Yudjá, faziam bancos especialmente para o uso dos xamãs, que neles ascendiam ao mundo sobrenatural. No Alto Xingu, um banco zoomórfico, que usa como modelo uma ave de rapina, pode conduzir um xamã a um estado alterado. É um verdadeiro “meio de transporte” em meio ao transe. Não por acaso, explica a arqueóloga Cristina Barreto, “o desenho na superfície do banco, entre os Desana (da Amazônia), é chamado de pahmelin gohori, isto é, desenho de transformação”. As aves, pela capacidade de voar, estariam mais próximas do mundo sobrenatural, inspirando por esse motivo o desenho dos bancos dos xamãs. Muitos dos grafismos dos banquinhos do Xingu, conclui a arqueóloga, são os mesmos da pintura corporal usada nos rituais religiosos. Constituem, enfim, a síntese da visão cosmológica desses povos que, além de tudo, são grandes e inovadores artistas.

Bancos Indígenas do Brasil

Autor: Vários colaboradores

Editora: Bei

352 páginas

247 imagens

R$ 90

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Arte

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