CHARLY TRIBALLEAU | AFP
CHARLY TRIBALLEAU | AFP

Barbárie em estado puro: a palavra do mês é terrorismo

Atentados do Estado Islâmico restauram sentido mais profundo e indefensável de um termonascido na Revolução Francesa

Sérgio Rodrigues, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2016 | 16h00

Seria imperdoável recorrer ao humor negro e afirmar que existe justiça poética nisso, mas é um fato que, do ponto de vista etimológico, a transformação da França em alvo preferencial do extremismo islâmico nos últimos tempos – uma preferência reiterada de forma dantesca na noite de 14 de julho em Nice – leva a palavra “terrorismo” de volta para casa. O primeiro registro de “terrorisme” data de 1794, segundo o dicionário Trésor de la Langue Française, com o sentido de “doutrina dos partidários do Terror”.

Esse Terror com inicial maiúscula tem sentido histórico preciso. Já não se tratava do terror como substantivo comum, palavra herdada do latim terror com o sentido de “medo intenso, pavor, espanto”. Estamos falando do Terror como política sistemática, nome do sangrento período da Revolução Francesa liderado por Maximilien de Robespierre, o radical líder dos jacobinos. No breve intervalo que entrou para a história com o nome de Reino do Terror (1793-1794), milhares de pessoas morreram na guilhotina. A ideia era essa mesmo: inspirar medo para ter poder. “Se a base de um governo popular em tempos de paz é a virtude, sua base em tempos de revolução é a virtude e o terror – virtude sem a qual o terror seria barbárie, e terror sem o qual a virtude seria impotente”, discursou Robespierre pouco antes de, apeado do poder, provar também daquele remédio de perder a cabeça.

A “virtude” que Robespierre supunha capaz de cancelar milagrosamente a barbárie, legitimando o assassinato em massa, está ausente da sóbria e abrangente definição de “terrorismo” feita pela Enciclopédia Britânica. Ainda bem. O “uso sistemático da violência para criar um clima de medo generalizado numa população e dessa forma atingir determinado objetivo político” já era uma arma usada na antiguidade, de acordo com o mesmo verbete. A verdade é que não parece descabido supor que a disseminação do pavor como forma de dominação seja uma prática tão antiga quanto a humanidade. O que os latinos chamavam de terror belli, o “terror da guerra”, era em parte aparentemente gratuito. Voltado contra civis indefesos e portanto desprovido de sentido militar imediato, buscava minar o moral do inimigo, confundi-lo, levá-lo ao desespero ou a reagir de forma precipitada. Terrorismo, pois é. Só faltava o nome.

Isso não quer dizer que a palavra e seu sentido tenham permanecido invariáveis ao longo da história. Pelo contrário: o terrorismo tem muitas caras. “Embora normalmente se pense nele como uma forma de desestabilizar ou derrubar instituições políticas, o terror também tem sido empregado por governos contra seu próprio povo para suprimir o dissenso”, prossegue a Britânica. De um ponto de vista cronológico, a frase poderia ser invertida: foi para batizar uma política de Estado, ainda que em período revolucionário, que a palavra surgiu no tempo de Robespierre. Mais tarde é que ela ficaria identificada sobretudo com as táticas de luta de grupos clandestinos ou marginalizados que desafiam o poder estabelecido. A palavra “terrorism”, importada do francês, foi empregada pela primeira vez na língua inglesa em referência à revolta irlandesa de 1798. Anarquistas russos em luta violenta contra o czar, na segunda metade do século 19, também mereceram o rótulo de terroristas.

E ainda nem falamos de expansões semânticas mais livres, como as que ocorrem por manipulação política ou amor à metáfora. Termo carregado de conotações negativas, “terrorista” tem sido visto com frequência, em determinados momentos históricos, travando uma guerra no plano vocabular com o mais positivo “guerrilheiro”. Os membros das organizações armadas que lutaram contra a ditadura militar brasileira nos anos 1960-70, por exemplo, eram chamados de “terroristas” pelos partidários do governo, ainda que a definição clássica de terrorismo – a busca da instauração de um “clima de medo generalizado numa população” – não viesse bem ao caso. Quanto aos sentidos assumidamente figurados, a mesma língua francesa que lhe serviu de berço viu surgir no século 19 uma série de empregos em que a palavra aparecia como sinônimo de uma postura de intolerância ou intimidação no campo das ideias ou das crenças religiosas. Trata-se aqui de um terrorismo simbólico, que dispensa o derramamento de sangue. Foi nesse espírito que o filósofo Jean-Paul Sartre pôde falar em 1947 – a propósito do romance O estrangeiro, de Albert Camus – em “terrorismo literário”.

Se algo positivo pode ser destacado na onda de atentados contra civis praticados pelo Estado Islâmico – ou por franco-atiradores conhecidos como “lobos solitários”, com o incentivo explícito do EI –, trata-se de sua contribuição à clareza da linguagem política. Ao abraçar o “uso sistemático da violência para criar um clima de medo generalizado e dessa forma atingir determinado objetivo político”, o EI limpa o terreno de entulhos metafóricos e restaura o significado mais puro da palavra. Aquele em que, com nitidez e para além de qualquer relativização, o terrorismo se revela como o que Robespierre tentou negar que fosse: barbárie.

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