DREW FARRELL/DIVULGAÇÃO
DREW FARRELL/DIVULGAÇÃO

Barreira do som

A música clássica é a única forma de arte que não consegue produzir uma criação atual capaz de fazer sucesso como os clássicos

João Marcos Coelho, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2015 | 16h00

Um amigo jornalista e crítico musical costuma dizer que as 15 horas de duração da tetralogia O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, devem-se a um cacoete do compositor: cada novo personagem, ao adentrar a cena, reconta desde o início a história, à sua maneira. É uma provocação, claro, mas dá uma pista certeira da natureza da criação musical que invade até o núcleo da música sem palavras, instrumental. O famoso tema do destino da Quinta Sinfonia de Beethoven, por exemplo, é repetido dezenas de vezes no primeiro movimento. Gesto deliberado, pois só assim ficaria memorável nos ouvidos dos que a assistiam em raríssimos concertos. Herdamos a síndrome. A estrutura da música tonal privilegia a repetição. No início do século 20 a primeira coisa que o revolucionário Arnold Schoenberg proibiu foi... a repetição. Jurou que em cem anos sua música seria popular. Errou. O ouvido, escreveu Auden, “tende a ser preguiçoso, anseia pelo familiar e fica chocado com o inesperado”. Acertou em cheio.

Ao contrário das demais artes, a música é o reino da repetição – lambuzamo-nos nela, em concertos e gravações, reouvindo as obras-primas do passado. O fenômeno é mais flagrante nas orquestras sinfônicas, os mamutes nascidos no século 18 que até hoje reinam soberanos na vida musical. Grandes salas de concerto precisam atrair grande público. Um portal internacional levantou, em cerca de 12 mil concertos de 2014, as dez obras mais tocadas: cinco são de Beethoven, nenhuma do século 20. Sintomático.

Às vezes, maestros e instituições deixam aflorar tais contradições. Essa semana, dois fatos chegaram à mídia. De um lado, o maestro francês Stéphane Denève, de 43 anos, estreia à frente da Filarmônica de Nova York; de outro, Alan Gilbert, nova-iorquino de 47 anos, maestro titular da mesma orquestra, anunciou que deixará o cargo na temporada de 2016/17. Ao que tudo indica, “está sendo saído”. Motivo: deu espaço demais para a música dos séculos 20 e 21. Ele criou a Bienal da Filarmônica, o projeto Contact! de música de câmara e a figura do compositor residente atuando junto à orquestra por três anos. Pesou ainda sua falta de carisma num momento em que as demais orquestras americanas ostentam jovens prodígios midiáticos como Gustavo Dudamel, em Los Angeles.

Livre, leve e solto, Denève pôs o dedo nessa ferida mortal da vida musical clássica em declarações à imprensa. É importante refletir sobre elas também no Brasil, onde as orquestras ramificam-se pelo País e se profissionalizam. A primeira: a nossa é a única forma de arte que não consegue produzir uma criação de nosso tempo capaz de obter sucesso como os clássicos. Será que a tendência à preguiça de nossos ouvidos é a única explicação para isso? Pode ser que as obras de nosso tempo não se beneficiem com a repetição só aplicada às obras-primas do passado. As encomendas não precisariam desfrutar de uma só execução; poderiam ser programadas ao menos quatro ou cinco vezes e cedidas para outras orquestras na mesma temporada.

A segunda pensata de Denève é a receita de um bom concerto. Para o maestro francês, ele tem três elementos: uma grande obra clássica revisitada, uma raridade do repertório e uma peça do nosso tempo. Quando se diz obra do nosso tempo, não se está falando de obras de cinco a dez minutinhos, ensanduichadas entre um concerto de piano de Mozart e uma sinfonia de Brahms, por exemplo, mas de obras mais ambiciosas e de duração maior. Isso seria tirar a música contemporânea do gueto, devolvê-la à vida musical convencional. Titular da Filarmônica de Bruxelas a partir de setembro próximo, Denève anunciou ainda a instituição de um Centro para o Repertório Sinfônico do Futuro, um portal só com obras compostas de 2000 para cá, que ficarão à disposição das orquestras do mundo inteiro. Boa ideia. 

Entrementes, dirão os céticos, Alan Gilbert acaba de perder seu emprego justamente por privilegiar a música do nosso tempo (como Pierre Boulez, que também foi dispensado pela mesma orquestra e por iguais motivos na década de 1970). A responsabilidade é de todos os envolvidos no dia a dia das orquestras, diz Denève: os maestros, os solistas e os staffs administrativos.

Na teoria, Denève está coberto de razão. Na prática, os argumentos do marketing prevalecem. Os dois programas que ele rege em maio próximo na Sala São Paulo com a Osesp não seguem com rigor sua receita: de 14 a 16, trechos de trilhas sonoras de filmes e a Fantástica, de Berlioz; de 21 a 23, um programa um pouco melhor, mas século 20 levíssimo, com Milhaud, Poulenc e Gershwin. Ninguém é perfeito, já dizia Billy Wilder. De seu lado, Alan Gilbert deixa a marca de apoio à música contemporânea, mas na prática perdeu o emprego. Não vivemos, em definitivo, no melhor dos mundos. Ou: na prática, a teoria é outra.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA, CRÍTICO MUSICAL E AUTOR DE NO CALOR DA HORA – MÚSICA & CULTURA NOS ANOS DE CHUMBO (SARAIVA)

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