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Bem-vindos ao Trumpistão: o culto à personalidade digno de países da Ásia Central chegou aos EUA

O culto à personalidade dos líderes é norma em países da Ásia Central cujos nomes terminam em “istão”, e os americanos sempre viram graça na extravagância desses regimes. Mas, e agora, quem está rindo?

Paul Krugman / THE NEW YORK TIMES, Impresso

07 Janeiro 2017 | 16h00

Em 2015, a cidade de Asjabad, capital do Turcomenistão, ganhou um novo monumento público: uma gigantesca escultura revestida em ouro representando o presidente do país montado em seu cavalo. Pode parecer um exagero. Mas cultos de personalidade hoje são norma nesses países da Ásia Central que terminam em “stão”. São países que surgiram após o colapso da União Soviética e todos são governados por ditadores com suas camarilhas de capitalistas milionários amigos.

Os americanos sempre acharam cômicas as extravagâncias desses regimes, com seus ditadores de terceira categoria. Mas quem está rindo agora?

Afinal, os Estados Unidos estão prestes a ter na presidência um homem que passou toda a vida adulta construindo um culto da personalidade em torno dele. Sua fundação “beneficente”, por exemplo, gastou muito dinheiro na compra de um retrato de quase dois metros do seu fundador. E basta olhar a conta dele no Twitter para ver que a vitória não contribuiu em nada para satisfazer plenamente o seu ego. De modo que podemos esperar muitos autoelogios da parte dele durante o mandato. Não acho que chegaremos a estátuas revestidas de ouro, mas quem sabe? Por outro lado, a apenas algumas semanas da posse, Donald Trump nada fez de substancial para reduzir os conflitos de interesse sem precedentes criados pelo seu império empresarial. E certamente jamais o fará. Na verdade, já vem usando o cargo político para enriquecer, com alguns dos mais flagrantes exemplos envolvendo governos estrangeiros realizando negócios para os hotéis Trump.

Isto significa que Trump estará violando o espírito e a letra da cláusula de emolumentos da Constituição, que proíbe receber presentes ou vantagens de líderes estrangeiros, e justamente no momento em que realiza o juramento para o cargo. Mas quem vai exigir que ele preste contas disto? Alguns republicanos já vêm sugerindo que, em vez de aplicar leis sobre ética, o Congresso deve simplesmente alterá-las para se adequarem ao grande homem.

E a corrupção não ficará limitada ao alto escalão: o novo governo deve incorporar a descarada negociata em favor de interesses pessoais no nosso sistema político. Abraham Lincoln pode ter comandado uma equipe de rivais: Donald Trump está reunindo uma equipe de camaradas seus, escolhendo bilionários com claros conflitos de interesse para posições chave em seu governo.

Em resumo, os EUA estão se tornando rapidamente um país igual aos do grupo dos “stão”.

Sei que muitas pessoas ainda procuram se convencer de que teremos um governo dentro da normalidade, apesar dos instintos antidemocráticos do novo comandante em chefe e da duvidosa legitimidade do processo que o levou ao poder. Alguns apologistas de Trump chegam até a declarar que não devemos nos preocupar com a corrupção por parte da futura claque, porque indivíduos ricos não precisam de mais dinheiro. Verdade?

Sejamos realistas. Tudo o que sabemos indica que estamos ingressando numa era de corrupção épica e de desprezo pela ordem jurídica, sem nenhum entrave.

Como isso aconteceu numa nação que sempre se orgulhou de ser um exemplo para as democracias em todo o mundo? De certo modo a ascensão de Trump foi possibilitada pela clamorosa intervenção do FBI na eleição, a subversão russa e a letargia da mídia de notícias que deu grande destaque a falsos escândalos e colocou os reais em segundo plano.

Mas esta debacle não surgiu do nada. Estamos a caminho de ingressar no clube dos “stãos” há bastante tempo: um partido republicano cada vez mais radicalizado, disposto a qualquer coisa para conquistar e reter o poder, vem corroendo nossa cultura política há décadas.

As pessoas esquecem como o manual colocado em prática em 2016 já vinha sendo usado nos anos anteriores. O governo Clinton foi acossado por constantes acusações de corrupção, obedientemente difundidas com grande destaque pela mídia, quando se verificou no final que em nenhum caso ficou comprovado algum crime de fato. Não foi por acaso que James Comey, diretor do FBI, cuja intervenção quase certamente mudou o curso da eleição, trabalhou anteriormente na comissão Whitewater, que durante sete anos investigou obsessivamente uma empresa de negócios imobiliários falida da qual participou o casal Clinton.

As pessoas também costumam esquecer como foi péssimo o governo de George W. Bush e não só porque levou os EUA à guerra com base em falsos pretextos. Nesse período houve também um aumento do nepotismo, com muitos postos fundamentais entregues a pessoas com qualificações duvidosas, mas com estreitos vínculos empresariais e políticos com autoridades do alto escalão. Na verdade os EUA invadiram de modo canhestro o Iraque em parte graças à ganância de empresas politicamente relacionadas.

A única dúvida agora é se a deterioração vai se aprofundar tanto que nada conseguirá impedir a transformação dos EUA num “Trumpistão”. Uma coisa é certa: destrutivo e insano ignorar o inquietante risco e simplesmente supor que tudo vai ficar bem. Não ficará. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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