Botika e o alcaide

O escritor e músico Botika encontrou o prefeito Eduardo Paes à saída do restaurante japonês Yumê, no Horto carioca. "Você é o Eduardo Paes?", perguntou. O alcaide, irônico, devolveu: "Não, sou o César Maia". Botika cutucou: "Não, você é o Paes. Vá à merda!". Em seguida, a namorada do músico, Ana Maria Bonjour, inquiriu o prefeito sobre problemas em sua gestão. Paes seguia irônico: "Mas sou o César Maia...". Indignado com o gracejo, Botika disse a Ana Maria que parasse de falar com "esse bosta". O filósofo Francisco Bosco, que dividia mesa com o prefeito, e que conhece Botika há tempos, aproximou-se do artista pedindo-lhe que fosse embora. Contudo, Botika seguiu insultando o alcaide, "mas não fazendo o escândalo que falam; não me direcionava a ele, me dirigia a Francisco", contou Botika ao Aliás. "Então Paes me atacou e me bateu. Eu e minha namorada ficamos exaltados, porém jamais apelando à violência física", afirma. No empurra-empurra que se seguiu após os seguranças do prefeito entrarem em cena, Ana Maria caiu e machucou os joelhos. Botika saiu direto para uma delegacia a fim de fazer um boletim de ocorrência, dali para o Facebook - e, então, para a notoriedade. Mais tarde, Eduardo Paes divulgaria nota à população carioca desculpando-se por ter apelado à violência física para responder a agressão verbal durante instante de sua vida privada.

RONALDO BRESSANE, RONALDO BRESSANE É , JORNALISTA, ESCRITOR, , AUTOR, ENTRE OUTROS , LIVROS, DO ROTEIRO DA , GRAPHIC NOVEL V.I.S.H.N.U. (COMPANHIA DAS LETRAS), O Estado de S.Paulo

02 Junho 2013 | 02h09

A provocação de Botika, nascido Bernardo Botkay, 30 anos, dividiu opiniões tão furibundas quanto a tresloucada reação do prefeito. Foi uma dessas irrupções de irracionalidade que fazem a fama da mais louca das cidades do planeta. Que fazem o horror e a delícia da turma do deixa-disso, dos intelectuais de bem e dos conservadores da moral e dos bons costumes. Freud chamaria de "o retorno do recalcado": quando um desejo enterrado no inconsciente subitamente vem à luz. O recalque vale tanto para demonstrar a ojeriza que a classe artística destina ao prefeito Paes quanto para desnudar a inaptidão de pessoa pública em saber lidar com quem o desagrada sem fazer uso da autoridade. Muitos se colocaram ao lado do músico - em especial a classe artística, que votou em peso em Marcelo Freixo nas recentes eleições municipais -, outros picharam Botika nas redes sociais. Houve quem o tagueasse de idiota, pinçando trechos aleatórios de sua obra para provar que se tratava de mais um artista sem talento tentando aparecer à custa de palavrões. Houve quem o criticasse por despertar a simpatia carioca para com um homem público - ultrajado em frente à esposa, Paes teria razão ao perder a razão. Só não houve quem atendesse a um princípio básico do jornalismo: ouvir Botika. "A meu ver, o prefeito não estava em momento privado. Depois que me atacou, seus seguranças vieram até nós. Ou seja, estava como pessoa pública. O prefeito só deixa de ser prefeito dentro de casa", diz Botika. Mas afinal, o que o irrita tanto em Paes? "A falta de diálogo", explica. "Decisões tomadas sempre dentro do gabinete, sem ouvidos para os cidadãos. Me irrita ver a cidade ser vendida, passar por uma 'limpeza social', gentrificação, ver desapropriações sendo feitas, para que no lugar de onde famílias são retiradas se construam condomínios horríveis. A especulação imobiliária é um absurdo. Também me incomoda muito a postura do prefeito em relação aos cidadãos: vaidoso, autoritário, dono de ego balofo."

Aos que o tacham de irracional, Botika, sujeito boa-praça, sorriso amplo e pinta finória, notório por canções doces como Mais de uma Janela, hit no underground carioca, faz questão de dizer que nunca perdeu a cabeça. "Jamais arrumei confusão nem bati em ninguém", defende-se Botika, que preferiu retirar a queixa na polícia. A seu ver, "uma causa perdida", posto que o prefeito seria julgado em foro privilegiado. Amigos próximos sopram que o artista temia acabar virando réu em ação de desacato à autoridade - daí ter se colocado apenas como testemunha da agressão sofrida pela namorada, essa sim levada ao IML para exame de corpo de delito (segundo Botika, o murro do alcaide não teria deixado marcas). "Se o caso fosse seguir na esfera jurídica, ficaria vazia a questão política: mostrar um cidadão sofrendo uma agressão física do prefeito por tê-lo criticado", diz. Apesar do mal-estar, Botika afirma sentir-se bem. "O prefeito está exposto. Deixou claro que não tem capacidade de administrar a cidade nem manter o controle diante de um cidadão insatisfeito (mesmo que o cidadão tenha usado tom agressivo para expressar sua indignação), pois usou da violência física para se defender."

Embora pouco conhecido fora da zona sul carioca, Botika não nasceu de um pescoção. Elogiado por autores como Marcelino Freire e Mário Bortolotto, tem dois livros publicados, Uma Autobiografia de Lucas Frizzo (Editora Azougue) e Búfalo (Língua Geral) - este também editado em Portugal e Argentina -, e recém-concluiu o terceiro, Calendário. Cantor e compositor, gravou discos com a banda Os Outros, com a sambista Teresa Cristina e em breve lança o primeiro disco solo, Picolé da Cabeça. Diretor dos curtas-metragens Trailer, O Filme e Como Assim?, roteiriza seu Búfalo para o cinema - Walter Carvalho será o diretor. Tem trabalhos em parceria com artistas como Tunga, Thiago Rocha Pitta, Paulo Thiefentaler, Amora Pera e Nana Carneiro da Cunha. Ah, sim: qual foi a iguaria consumida no fino Yamê, antes da sova? Sem recalque, atento à rima arisca, Botika não trisca: "Comi uma ova", trova.

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