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Box com quatro filmes de Jean Renoir é lançado no Brasil

'A Cadela' (1931), 'A Besta Humana' (1938), 'Amor à Terra' (1945) e 'O Rio Sagrado' (1951) estão no pacote da Versátil

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

25 Março 2017 | 16h00

O patriarca do cinema francês, Jean Renoir (1894-1979) é conhecido sobretudo por duas obras-primas – A Grande Ilusão (1937) e A Regra do Jogo (1939). Isso não significa que o resto de uma obra de 42 filmes tenha sido esquecido. Ficou, talvez, ofuscado pelo brilho dos títulos mais evidentes. Mas uma revisão da obra de Renoir escancara o fato de que ela não se limita a dois ou três filmes, nem sequer a um punhado deles. É longa, pensada, coerente, como são todas as obras de gênios. 

Tomemos, como exemplo, o box da Versátil intitulado A Arte de Jean Renoir, quatro longas em dois discos: A Besta Humana, O Rio Sagrado, A Cadela e Amor à Terra. São de diferentes períodos. 

A Cadela (1931) é o título mais antigo e traz como protagonista o amigo de toda a vida de Renoir, Michel Simon. Já A Besta Humana (1938) tem como ator principal Jean Gabin, maior astro do cinema francês do período. Amor à Terra (1945) faz parte do período norte-americano do autor e talvez seja o mais estranho do conjunto. O Rio Sagrado (1951), único do grupo filmado em cores, é mais uma autêntica obra-prima, rodada na Índia e inspirada no romance de Rumer Godden.

A Cadela (La Chienne) é também uma adaptação literária, esta do romance de Georges de La Fouchardière. Michel Simon é Maurice Legrand, caixa de banco e empregado modelo. Vivendo com uma megera, tem como único escape e hobby a pintura. Até o dia, ou melhor, a noite em que conhece a fatal prostituta Lulu (Janie Marèze) e seu cafetão, Dédé (Georges Flament). A tragédia, bastante parecida com a de O Anjo Azul, é temperada com toques de humor e do humanismo de Renoir. O encaminhamento e desfecho são sarcásticos, bem diferentes da imposição moralista do cinema americano. 

A Besta Humana, tirada de um dos 20 romances de Émile Zola sobre a família Rougon-Macquart, tem como protagonista o ferroviário Jacques Lantier (Jean Gabin), atingido, segundo ele mesmo, por uma hereditariedade maldita. O filme é introduzido pelas palavras de Zola, que demarcam o tom naturalista e predispõem Lantier a um destino funesto, apesar de seu bom caráter. Curiosamente – e isto já é Renoir – o filme, conforme se desenvolve, o faz com muito mais leveza e ambiguidade. O caso, mais uma vez, é o de um triângulo amoroso, cujo vértice é Sévérine (Simone Simon), mulher do chefe da estação, Roubard (Fernand Ledoux). Muito forte é a interpretação de Gabin, cujo rosto e corpo expressam o tormento do homem apaixonado que, aos poucos, toma consciência da manipulação erótica a que é submetido. 

Amor à Terra parece saído de um daqueles grandes romances sociais americanos do começo do século passado. É um quase documentário sobre uma família pobre, cujo chefe, Sam Tucker (Zachary Scott), decide tentar a vida de pequeno proprietário rural. Luta contra intempéries naturais e sociais. Da seca à enchente, da falta de capital à ausência de solidariedade entre vizinhos, tenta extrair sustento para mulher, filhos e uma avó idosa. Às vezes meio inverossímil (a arrumadinha Bety Field é uma camponesa improvável), Amor à Terra equilibra-se pelo humanismo de Renoir. É um filme da esperança e da perseverança. 

Por fim, O Rio Sagrado, imersão de Renoir na cultura da Índia. Ele próprio, em um dos extras, diz como essa experiência foi importante, de como aprendeu uma das lições tão óbvias quanto fundamentais da existência – a de que cada um dos seres humanos tem suas razões para agir desta ou daquela maneira. O problema social é conciliar todas essas razões divergentes num todo que faça um mínimo de sentido. Essa ideia vem de A Regra do Jogo, mas aqui encontra novo grau de maturidade. 

Renoir conta também como ficou impressionado com a história contada pela britânica Rumer Godden (1907-1998), autora de mais de 60 livros, muitos deles tirados de sua experiência pessoal na Índia. O filme consegue passar esse sentimento de coisa vivida, de convivência assimilada e ao mesmo tempo de estranhamento diante do diferente. O plot é amarrado pela chegada de um ferido de guerra, o jovem capitão John (Arthur Shields), que deixa em estado febril três garotas adolescentes. A narração é feita por uma delas, Harriet (Patricia Walters), com veleidades literárias e provável alter ego da escritora. O filme contempla o processo de amadurecimento diante do ciclo da vida, em que uma morte, ainda que prematura, se equilibra por um nascimento. 

Sente-se, neste trabalho reflexivo e pausado, a assimilação da cultura indiana e sua filosofia. Em um texto, Jacques Rivette, cineasta da nouvelle vague, equipara O Rio Sagrado a outros grandes filmes de deslocamento, como Que Viva México!, de Sergei Eisenstein, e Viagem à Itália, de Roberto Rossellini. Viagens, não turísticas, mas existenciais, nas quais o confronto com o diferente sensibiliza o espectador para o fato profundo de que a extensa família humana é uma só e a ela todos pertencemos. Essa dimensão do universal está no centro do humanismo de Jean Renoir. 

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