Bravos e calvos

Em solidariedade a aluno careca, professor raspa a cabeça e vira fenômeno nacional no Irã

Scott Peterson , Christian Science Monitor

31 Maio 2014 | 16h00

 A sala de aula não podia ser mais modesta. Suas paredes, rabiscadas pelos alunos. Na mesa, um relógio de papelão para ensinar as horas com os ponteiros quebrados.

Mas nessa sala pequena, repleta de meninos do segundo ano, um ato de compaixão de um professor transformou-se em fenômeno nacional. A história viajou dessa remota cidade curda na fronteira ocidental do Irã, atravessou as montanhas e colinas verdes que isolam a região de Teerã, e chamou a atenção do presidente Hassan Rohani, que pediu para o governador da província transmitir suas felicitações.

Mahan Rahimi, de 8 anos de idade, havia perdido todo o seu cabelo devido a uma deficiência do sistema imunológico. Na escola primária de Sheikh Shaltoot, o garoto era alvo de bullying por parte dos colegas, que arrancavam seu boné e riam dele, ou às vezes pior. O menino estava deprimido. Odiava a escola. 

Então, num dia de janeiro, repentinamente o professor Ali Mohammadian entrou na sala de aula. Estava careca. Enquanto os 24 alunos ficaram boquiabertos, Mahan entendeu imediatamente a mensagem. “Ele me olhou e no mesmo instante vi alegria em seus olhos”, lembrou o professor.

“Os outros alunos riram de mim durante dois dias, mas não reagi”, disse o professor com um sorriso, usando a tradicional vestimenta curda. “Disse a eles que muitos cientistas e muitos intelectuais não tinham cabelo - e que não ter cabelo não é nenhum problema.” Não demorou muito para que todos os alunos também raspassem a cabeça. As agressões contra o menino acabaram e hoje ele se sente mais à vontade e feliz, mais amigo de todos.

O professor, que manca ligeiramente, contou que também foi maltratado por colegas de escola. “Quando criança, eu tinha um problema na perna; a crueldade dos alunos e até mesmo do professor ficaram na minha memória. Não quis que esta tragédia se repetisse com Mahan”, disse.

Nos Estados Unidos, esse exemplo poderia gerar manchetes locais e até chamar a atenção do país por um curto momento. Mas o professor iraniano não tinha nenhuma razão para acreditar que seu ato teria alguma repercussão. No Irã, clérigos influentes, mártires de guerra e veteranos tornam-se heróis, com sua imagem pintada em edifícios e ruas que levam o seu nome. Mas os iranianos comuns raramente alcançam tal posição.

Eis que o Irã emitiu um selo postal especial com uma foto de Mohammadian e Mahan, carecas, com a seguinte inscrição: “A compaixão de um professor de Marivani por seu aluno é um exemplo”. Existe agora uma campanha no Facebook para inserir a história de Mahan no currículo oficial das escolas. 

Tudo começou quando Mohammadian postou no Facebook uma foto sentado na sala de aula ao lado do menino, ambos carecas. Embora sites sociais sejam oficialmente proibidos no Irã, essa postagem se tornou viral. Jorraram mensagens de apoio, vindas da Europa, da África e do Sudeste Asiático. “Muitos apoiadores também rasparam a cabeça”, diz ele. A página do Facebook recebeu sete milhões de “likes”. “Foi uma lição muito boa para os alunos.”

Questionado, Mobin Rezaei, de 9 anos, admitiu que frequentemente perseguia seu colega. “Aprendi que não devo maltratá-lo mais”, disse.

“Eu os ensinei a ter compaixão pelos outros, a amar o nosso semelhante e, agora, essa ação humanitária criou raízes em suas almas”, disse o professor. “Não importa se você é sunita ou xiita, católico ou budista, somos todos humanos e devemos nos ajudar uns aos outros.” 

Foi também uma lição do poder das mídias sociais como o Facebook, sem o qual o impacto da cabeça raspada de Mohammadian não teria ido além do final do Boulervard Basij em Marivan.

Quando perguntamos aos alunos como a mensagem se espalhou de maneira tão rápida, transformando sua modesta escola com 126 estudantes numa fonte de orgulho nacional, eles responderam quase em uníssono: “in-ter-net”. 

“O mundo hoje é muito pequeno. É uma aldeia global”, disse o professor, comentando como sua primeira foto postada no Facebook em janeiro explodiu e provocou um grande alvoroço.

Dias depois o governador da província do Curdistão convocou a família de Mahan. O presidente Rohani o incumbira de lhes agradecer e de acompanhar o caso. O professor e o aluno viajaram para Teerã, onde o menino foi submetido a exames médicos. Depois, eles se reuniram com o ministro da Educação, que beijou as mãos de Mohammadian, sinal do mais alto respeito na cultura iraniana.

Essa reunião coincidiu com a chamada “semana da unidade”, que visa realçar as similaridades das duas ramificações do islamismo: xiita e sunita. Os curdos são sunitas e uma minoria étnica onde os xiitas persas dominam. O ministro, dirigindo-se ao professor, disse: “O senhor deixou o profeta Maomé feliz”.

O evento ofereceu uma oportunidade para todos aqueles que vivem na pequena cidade, “desde uma família e uma comunidade menos favorecidas, a membros de minorias religiosas e étnicas menos capacitadas ou diferentes”, afirmou um pesquisador que pediu para não ser identificado. “É realmente um excelente exemplo para uma sociedade profundamente dividida.”

Comentando o fenômeno, Mohammad disse: “Minha intenção não era quebrar recordes, entrar no Guinness. Nosso maior ensinamento é indireto e vai permanecer nas mentes dos meus alunos por toda a sua vida”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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