Cabeça dinossauro

Sumiço de estátua de Lenin de 3,5 t consterna ou diverte a Europa, conforme o nicho ideológico

Paulo Nogueira, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2014 | 16h00

Na esbaforida e estressada modernidade, quem nunca perdeu alguma coisa? Nem que seja o bonde e a esperança, como no soneto de Drummond, ou algo mais trivial, como o celular? Convenhamos que perder uma cabeça de granito de 3,5 toneladas, com a cara de um dos vultos mais influentes da história, é bem mais difícil. Sobretudo na Alemanha, berço de um povo notório por sua organização. 

Pois foi exatamente o que aconteceu em Berlim. As autoridades perderam uma icônica cabeça de Lenin que, de 1970 a 1991, encimou a estátua do líder soviético na praça homônima (hoje, Praça das Nações Unidas), na então Berlim Oriental. O desaparecimento - que, consoante o nicho ideológico, está consternando ou divertindo a Europa - só foi notado depois de um pedido para que a peça integrasse uma badalada exposição sobre monumentos comunistas e nazistas. 

Em 1991, após a dissolução da URSS, a estátua foi desmantelada em 129 partes, enterradas na floresta de Koepenick, perto de Berlim. Os curadores da exposição passaram pente fino na área, mas não acharam - por assim dizer - nem um fio de cabelo. O Senado berlinense recusou auxílio para localizar a peça, alegando que seria dispendioso demais. A decisão foi criticada pela esquerda. O partido Die Linke acusou o governo de estar “com medo de uma velha cabeça estúpida”. 

Evitando simbolismos simplistas - como o sumiço da cabeça de um dos pais fundadores do comunismo indicar a volatilização da respectiva ideologia -, o episódio é instrutivo sobre a cultura política contemporânea. Ao longo do século 20, regimes da órbita de Moscou semearam por meio mundo uma estatuária ciclópica, avatares do culto à personalidade e do realismo socialista. 

A cabeça de Lenin agora extraviada é uma das mais midiáticas de todas - ficou internacionalmente famosa ao aparecer pendurada de um helicóptero no filme Good Bye, Lenin!, de Wolfgang Becker. Mas, apesar de suas mastodônticas 3,5 toneladas, não é a maior. Essa honra cabe à cabeça leninista da praça de Ulan-Ude, cidade da Sibéria, que pesa nada menos que 42 toneladas. A contrapartida capitalista desse gigantismo kitsch/propagandístico são talvez os trambolhos bregas que guarnecem cidadezinhas dos EUA, como “o maior donut do mundo”, ou “o maior hot-dog”.

Num ensaio clássico, Isaiah Berlin dividiu a arte soviética em dois períodos. O primeiro, de 1917 a 1928, foi de uma efervescência febril. Floresceram criadores universais como Meyerhold (teatro), Ossip Mandelstam e Ana Akmatova (poesia), Eisenstein (cinema), Bulgakov e Isaac Babel (ficção). No segundo, de 1928 a 1937, foi enunciado e impingido o conceito de proletkult. Em 1934, o Congresso do PCUS ditou que toda arte deveria ser: 1) proletária: relevante para os trabalhadores e a eles acessível; 2) típica: incluir cenas do cotidiano do povo; 3) realista: no sentido da representação; 4) militante: cumprindo os objetivos do Estado. Resultado: acabou-se o que era doce.

Por falar em cabeça de Lenin, nenhum emblema mais eloquente dessa promiscuidade de arte e política que o próprio mausoléu do líder soviético, na Praça Vermelha de Moscou. Quase um século depois da Revolução Russa, o corpo de Lenin - e não apenas a cabeça - jaz mumificado num faraônico monumento de mármore negro e vermelho. O líder bolchevique morreu em 21 de janeiro de 1924 e já em agosto a primeira versão do mausoléu estava pronta, assim como o respectivo sarcófago. Desde então, para manter o corpo conservado, cientistas russos banham regularmente a múmia com produtos químicos. Consta que os mesmos cientistas ajudaram a embalsamar o coreano Kim Jong-il, morto em 2011. 

O corpo de Lenin só deixou o mausoléu uma vez (precisamente, rumo à Sibéria), em 1941, por causa da aproximação das tropas nazistas. Mas vira e mexe é debatida a transferência da múmia. Em 2013, uma pesquisa revelou que só 25% dos russos acham que o cadáver de Lenin deva continuar exposto no mausoléu. Vladimir Putin (cujo avô foi um chefe de cozinha famoso e cozinhou para Lenin e Stalin) diz que a múmia deve ficar onde está - e comparou o sarcófago leninista às relíquias dos santos ortodoxos. 

Uma analogia intrigante, que lembra os paralelismos apontados por Bertrand Russell e Karl Popper entre a ideologia comunista e a religião - como a teleologia milenarista, a Jerusalém celeste correspondendo ao paraíso na terra, o messianismo, as Escrituras Sagradas, etc. Mal por mal, antes proliferar cabeças gigantes e cafonas que depois são perdidas do que decapitar inimigos no YouTube, como faz o Estado Islâmico no Iraque. 

Aliás, nem o fetiche mórbido nem o sumiço de cabeças - ou de seu conteúdo - são prerrogativas de ícones comunistas. Em 1955, o patologista que autopsiou Albert Einstein surripiou o cérebro do gênio. Por 20 anos, Thomas Harvey andou para baixo e para cima com os miolos do pai da relatividade cortados em cubinhos, que chegou a exibir ao escritor beat William Burroughs. Quando Harvey se divorciou, ele e a mulher disputaram em tribunal o cérebro de Einstein - que, por sinal, pedira para ser cremado.

Humor negro à parte, o jornal inglês The Guardian noticiou a perda da cabeça de Lenin e lançou uma pesquisa com os leitores: “Você já perdeu alguma coisa esquisita? Escreva-nos contando qual a coisa mais estranha que já perdeu - ou achou -, como, digamos, as cinzas de sua avó no banco do táxi”. 

Enquanto isso, em Berlim, a curadora da exposição, Andrea Thiessen, anunciou que está agora de posse de um mapa que pode indicar o paradeiro da peça leninista. A mídia alemã já fala numa “caça ao tesouro”. Enfim: ao procurar uma cabeça perdida, seria bom se a política ganhasse juízo. 

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Paulo Nogueira é jornalista e autor de 'O amor é um lugar comum' (Intermeios)

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