Caçador de almas

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2014 | 16h00

Ele já fotografou Alain Delon, Hitchcock, John Lennon & Yoko Ono. Para chegar, aliás, ao casal, furou uma fila de paparazzi na entrada do hotel onde eles estavam hospedados em Paris, o Plaza Athénée, e entregou ao maleiro uma flor desenhada em um pedaço de papel: “Por favor, faça este bilhete chegar ao John Lennon”. O músico, que acabava de voltar de um almoço com Salvador Dalí e sua mulher, mandou o fotógrafo subir, encantado com o pedido feito de forma inusitada. Luiz Garrido, então um jovem fotógrafo marginal, como ele mesmo diz - , afinal, “ser fotógrafo nos anos 1960 era ser marginal” -, passou de freelancer a contratado da revista Manchete na sucursal francesa. 

Nascido no Rio, em 1945, começou a estudar economia nos anos 1960, “mas participava mais de passeata do que de qualquer outra coisa”. Chegou a fazer com seus colegas de curso um tribunal para julgar o capital estrangeiro. Em 1968, o pai o mandou para Paris para continuar os estudos de economia onde Celso Furtado dava aulas. Foi atrás de uma irmã que morava lá, mas não aguentou dividir o teto e aguentou menos ainda as aulas de macroeconomia - mandou um aviso por carta ao pai (“Vou largar a faculdade, vou morar sozinho e estudar fotografia”), que decidiu cortar a mesada e esquecê-lo em Paris de uma vez por todas.

Começou então um curso muito técnico na École Nationale de Photographie Française. Era técnico até demais: “Ensinavam fotometria, ângulo das lentes, réguas, pontos de ouro, mas nada de fotojornalismo”. Para sobreviver, trabalhava como paparazzo pobre pela cidade, correndo pra cima e pra baixo por vernissages e eventos. Depois vendia as fotos nos hotéis das estrelas, para o Jornal do Brasil e a para própria revista Manchete. 

No dia em que criou intimidade com o casal mais famoso que Jesus Cristo, foi logo convidado por Yoko a acompanhá-los por Londres e Amsterdã no ano seguinte. Tem mais de 400 fotos da vida do beatle no dia a dia, comendo, compondo ao piano e, como não poderia faltar, na cama com Yoko. Depois de estudar técnica por algum tempo, foi atrás de mestres que o ajudassem a apurar o olhar. Aproximou-se do fotógrafo Alécio de Andrade. Ele instruía: “Leve o filme para revelar ali na frente do museu e, enquanto revelam, entre no museu e vá ver as obras dos impressionistas. Sente na frente dos quadros e olhe por pelo menos 15 minutos cada um”, conta. E assim Garrido aprendeu, com ninguém menos que Renoir e Monet, a ver a luz e a usá-la em sua fotografia. 

De volta ao Brasil em 1972, continuou na revista Manchete e como freelancer para a Abril. Passou por diversas publicações, fotografou para moda e publicidade. Em 1980, chamado para fotografar Maitê Proença para o cartaz do filme Prova de Fogo, percebeu que era um grande retratista. Ela era o símbolo sexual da época e ele quebrou todas as expectativas retratando-a em close, de olhos bem arregalados. Nada do corpo. “Apostei naquele retrato maluco e aceitaram”, relembra. Desde então coleciona personalidades.

Sua receita para um retrato? Captar a alma e a essência do personagem, sem restrições. Estudá-lo muito bem antes, e já chegar “com uma foto na cabeça”. Se for presidente, chamar de “você” e olhar nos olhos. “Tem que ser firme na frente desses caras”, comenta. Se for o ACM, chegar no gabinete gritando “viva o Brizola!”. Para Darcy Ribeiro, a mulher e o carnaval. Ziraldo? Chapéu do Menino Maluquinho. Dráuzio Varella: atrás das grades. Num bom retrato de Garrido o rosto não é essencial, mas algo que venha de dentro do fotografado, que seja dele, que represente sua vida e sua alma. Que o mostre por dentro. 

Geralmente não tem mais de 15 minutos para fazer o retrato de alguém famoso, então chega com força e domina a situação. Vai batendo papo, batendo papo e, aos poucos, dobra o personagem. “Não sei se é alma, essência, mas eu vou fundo. Para um bom retrato você junta tudo, faz uma salada e espreme que sai alguma coisa.”  

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