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Cai um ícone?

Para os franceses, Lula era um personagem atemporal, como os antigos imperadores germânicos mantidos em vida e no poder ad aeternum

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GILLES LAPOUGE,
O Estado de S.Paulo

06 Março 2016 | 06h00

Até então, na França, o Brasil era Lula, desde sempre e para sempre, e ponto final. Eu me pergunto às vezes se os franceses conhecem o nome de Dilma, já em pleno segundo mandato.

Estupefata, a França leu, na manhã deste sábado, no jornal Le Figaro (de direita): “A queda da casa de Lula”. Ou no Libération: “Crepúsculo de um ídolo”. Esse espanto fantástico para uns, motivo de consternação para outros, mostra, antes de mais nada, o extraordinário atraso da França em relação ao que acontece no Brasil.

Pude constatar frequentemente esse fato de dois anos para cá. Quando as pessoas me perguntavam a respeito do Brasil, mal acreditavam no que eu relatava a elas. De onde eu tirava esta crise, toda esta enorme corrupção, este abandono em que se encontrariam os brasileiros, e inclusive dos seus antigos adoradores? “Mas”, me diziam os “informados”, “quando Lula deixou o poder tinha ainda 80% de popularidade. Na França, quando nossos presidentes contam com 40% das opiniões favoráveis, se consideram no paraíso.”

A incompreensão francesa pode ser explicada. As TVs dão as notícias com 48 horas de atraso e, geralmente, a respeito do carnaval, do futebol e das catástrofes naturais. Os jornais impressos falam raramente do Brasil, com exceção do Libération e também do Le Monde e da sua nova e excelente correspondente, Claire Gatinois.

Mas a verdadeira razão não é essa. A verdadeira razão é que a França, até hoje pela manhã, continuava sob o fascínio do “charme de Lula”. O Brasil é Lula, e ponto final, desde sempre e para todo o sempre. Eu me pergunto às vezes se os franceses conhecem, finalmente, o nome de Dilma, no meio do seu segundo mandato.

Lula era um personagem que se tornara atemporal, como os antigos imperadores germânicos que os povos mantinham em vida e no poder anos depois de sua morte. Vejamos outra imagem: até hoje, a França recebia diariamente as luzes que irradiavam de Lula, muito depois que Lula se aposentara, um pouco como vemos todos os dias no céu brilhar estrelas mortas há milhões de anos.

Entretanto, hoje pela manhã, a realidade nos atinge abrupta: de repente, o Brasil está em cena, e descobrimos que o campeão do mundo do crescimento, o atleta que carrega tudo à sua frente, o prodigioso país emergente, está um tanto decadente. Perdeu muitos dentes, está magro, o rosto pálido, a barba por fazer. Que coisa surpreendente!

Le Monde ataca com tudo. Conta que em Atibaia, não muito longe da casa de Lula, grandes cartazes anunciam: “Residência do bandido de Lula” ou ainda “Lula na cadeia!” Segue-se a descrição da ida da polícia à casa de Lula, sua condição de preso e a extensão das investigações, porque se fala em 33 mandados de busca e 11 somente na Operação Lava Jato.

Le Monde passa em revista os fracassos ou os pecados de Lula, dos quais o Brasil tomou conhecimento pouco a pouco, ao longo dos meses, enquanto os franceses têm de engoli-los todos de uma vez, num só gole, com o risco de um enfarte: o tríplex do Guarujá, os presentes do PTB, a avidez deste Lula tão gentil, com seu “sorriso mundial”, atacando todos os jornais que o “perseguiam”, a monstruosa podridão da Petrobrás, o fim dos anos felizes. A queda.

Diante desta saga do abismo, como não citar o provérbio dos antigos romanos: “Do Capitólio à Rocha Tarpeia não vai mais que um passo”?

Desestabilização. O Libération, jornal de esquerda, dá as mesmas informações, mas não as toma automaticamente como verídicas. O artigo de Chantal Rayes, mais diplomático, usa fórmulas como “Segundo o ministério público” ou “Os procuradores afirmam que ...” e informa que, se Lula foi “levado de maneira coercitiva”, seria, segundo Adriano Platti, para “desestabilizar o governo, criminalizar o PT e combater o principal líder do povo brasileiro”. O Libération não acredita que a direita se aproveitará da desgraça de Lula. “Na classe política, ninguém, salvo talvez Marina Silva, ninguém foi poupado das acusações de malversação. Ninguém ousa decretar a morte política do maior líder do Brasil. ‘Enterrar suas chances seria um erro’, como afirma um editorial brasileiro.”

E Libération observa a respeito da derrota de Lula: “Os brasileiros se mostram menos tolerantes em relação à corrupção, que aparentemente ultrapassou todos os limites. Todos emitem opiniões. O mito desmorona. O Pai dos Pobres deixou de ser intocável”.

Le Figaro dá as informações com objetividade, reservando sem dúvida comentários mais ásperos para seus editoriais ou para as suas análises. Patrick Bèle, que escreve de Bogotá, aparentemente acha que “a situação se torna mais ameaçadora para a presidente Dilma Rousseff”. O jornal especifica também que o total em jogo nestas negociatas se elevariam a US$ 3 bilhões.

O jornal Les Echos estampa um artigo dedicado exclusivamente à economia e ao destino das empresas francesas. Curiosamente, o artigo de autoria de Thierry Ogier parece ter sido redigido antes da chegada da polícia. Ele traça um quadro sombrio da economia brasileira, comentando a opinião de Ramon Aracena, economista-chefe do IIF (Instituto das Finanças Internacionais): “As medidas anunciadas por Nelson Barbosa estão no caminho certo. Mas é preciso que exista uma base política muito sólida para colocá-las em prática. E ela não existe!”

Outro artigo do jornal Les Echos passa em revista empresas como os grupos Carrefour e Casino pisando no freio. O primeiro adiou a ida à bolsa. O segundo reduziu o número de aberturas de novas lojas.

O balanço da AccorHotels na América Latina despencou por causa da crise econômica no Brasil. O volume de negócios, em especial, caiu 5,8% no ano passado, ou seja, o dobro em relação à média da região. O dono da Accor conta entretanto com o afluxo de estrangeiros para os Jogos Olímpicos: “Seis novos hotéis deverão ser inaugurados no Rio de Janeiro, ainda este ano”.

Na indústria, o quadro é muito sombrio. A PSA Peugeot Citroën reduziu sua produção no Brasil de 30 a 40%. A Vallourec já fechou uma siderúrgica. Saint Gobain “resiste” com duas aquisições concluídas no início do ano: SG Plásticos e Potengy no Nordeste. “Como dizia Winston Churchill”, explica o dono Jean Le Corre, “jamais se perde uma boa crise”.

No começo deste artigo, falei do fascínio que Lula outrora exercia não apenas no Brasil, mas talvez ainda exerça na França. Considero razoável dizer que eu mesmo não escapei desse fascínio. Compreenderão que eu me sinto bastante consciente, há muitos meses, dos pecados e das besteiras cometidos por Lula e pelos seus seguidores, e faço isso com certo desgosto.

Em um livro, há cinco anos, fiz alusão a Lula. Escrevi no prefácio: “Lula conhece o desespero do Brasil. Nascido nesse desespero, ele decidiu conjurá-lo”. E terminei assim: “Ignoro se o Brasil encontrou a felicidade. Sei que ele deu a seus habitantes a vontade de serem felizes”.

Ao relê-la, é talvez essa frase, esta manhã, que me dá um pouco de tristeza.

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