Perspectiva
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Cenógrafo que revolucionou o teatro tem livro lançado

Edward Gordon Craig é a pedra fundamental da cenografia moderna e autor de 'Rumo a um Novo Teatro & Cena'

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado

20 Maio 2017 | 16h00

Dois livros e um artigo, todos inéditos em português, do ator e encenador inglês Edward Gordon Craig (1872-1966), um dos nomes fundamentais do teatro moderno, chegam ao Brasil em duas diferentes publicações: Rumo a um Novo Teatro & Cena (Perspectiva), em tradução de Luiz Fernando Ramos, que assina o prefácio, e Gordon Craig: a Pedagogia do Über-Marionette (Giostri), de Almir Ribeiro. Os livros apresentam diferentes ideias do artista inglês e parecem, portanto, se complementar. 

Integram o primeiro livro duas obras de Craig: Rumo a um Novo Teatro e Cena. Neles, o leitor terá acesso a reflexões e desenhos do artista. Craig expõe o seu conceito de teatro, que, para ele, era ainda mal compreendido: “Parece que há muito a explicar sobre o teatro, e a arte do teatro, antes que o mundo possa entendê-lo corretamente.” Portanto, adverte: “não precisamos mais de teatros. Precisamos antes nos tornar senhores da arte.”

Craig desenvolve sua concepção de cenografia e defende a ideia de um teatro ao ar livre: “Quando o drama entrou nos espaços fechados, ele morreu; e quando o drama entrou nos espaços fechados, sua cenografia encerrou-se ali também.” Segundo o artista, depois dos teatros grego e cristão, surgiu o primeiro “falso” teatro, “poetas escreveram elaborados e entediantes dramas, e o cenário usado para eles era um tipo de fundo arquitetural imitativo”. Craig recusava a noção de uma arte que imitasse a vida, opunha-se ao realismo em nome do símbolo, da linguagem da beleza (“sem a beleza, não há verdade”) e de grandes temas da vida e da morte. O artista ressalta que “a polarização da feiura, a sustentação de falso testemunho contra a beleza – essas são as conquistas do teatro realístico esquecidas de todas as leis da arte”. A respeito do teatro realista, ele afirma que a arte não deveria imitar os acontecimentos, mas antecipá-los: depois dos acontecimentos ela se torna “inútil”. 

Craig diz que o teatro de seu tempo “está registrando hoje para as futuras gerações, e para os nossos netos e bisnetos, os fatos de nossas enfermidades – que nossa imaginação é estéril e nossas emoções, domesticadas”. O livro parece uma coletânea de anotações do artista: “Quando desenhei isto, eu estava vivendo em Londres, e odiando mesmo ter que olhar alguém, a não ser quando eu tinha dinheiro para ir de ônibus para Hampton Court.” 

Em outros momentos, para alguns de seus desenhos, ele propõe temas: “suponho que a cena serviria igualmente bem para qualquer outra peça que fosse romântica, e, portanto, acho difícil dizer qualquer coisa sobre isso a não ser que ‘Aqui está’.” Craig cria também, com seus desenhos, atmosferas para determinadas cenas, como se lê em Os degraus I, Os degraus II etc. Há ainda desenhos para um hall de entrada de um teatro, desenhos de cenas de Macbeth e Hamlet, que ele encenou em Moscou, em 1912, no Teatro Artístico, em companhia de ninguém menos que Stanislavski, cujas ideias eram opostas às de Craig. 

Em Cena, Craig propõe uma nova cenografia e uma nova concepção de iluminação. Ali, fala em luz artificial, contradizendo a sua ideia anterior de luz natural e teatro ao ar livre. Craig defende um cenário e uma iluminação simplificada, nada deveria ser supérfluo na cena: “Será que uma vela de cera nos serve para expressar um sol nascente? Se sim, então use-a. Não serve? Então, rejeite-a.” Ele destaca o movimento em cena com o uso de telas que devem se mover com a ajuda de “operários”. 

Gordon Craig: a Pedagogia do Über-Marionette, é fruto da tese de doutorado de Almir Ribeiro e traz um amplo ensaio sobre a concepção artística e biografia de Craig, enfatizando o relacionamento do artista com Isadora Duncan, de quem foi amante (ela certamente o teria influenciado na sua ideia de uma cenografia em movimento, dançante).

Ao final do livro, o leitor tem acesso a um artigo inédito de Craig em português, O Ator e o Über-Marionette (1908). Nele, fala do ator e da desconfiança que nutria por seu trabalho. Segundo Craig, o ator era prisioneiro de suas emoções, a ponto de ameaçar com elas a pureza do teatro; por isso, ele “deve sair e em seu lugar surgir a figura inanimada, a Supermarionete”. Mas não se deve confundir a supermarionete com um boneco qualquer, pois, para ele, a marionete, embora seja “o último eco de alguma arte nobre e bela de uma civilização antiga, acabou caindo em mãos grosseiras ou incultas e o boneco, a marionete, se tornou uma vergonha. Atualmente não passam de comediantes vulgares”. 

*Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de 'Cenas do Teatro Moderno e Contemporâneo', da editora Iluminuras

Rumo a um Novo Teatro & Cena

Autor: Edward Gordon Craig

Tradução: Luiz Fernando Ramos

Editora: Perspectiva

272 páginas

R$ 77

 

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