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Chega de salvação

Stephen M. Walt - O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2014 | 16h 00

Cada vez que os EUA interferem no Oriente Médio as coisas pioram. É hora de partir

HAMAD I MOHAMMED/REUTERS
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Caso não tenham notado, o Oriente Médio está indo de mal a pior. 

A guerra civil síria persiste. Israel e palestinos passaram o último mês em mais um derramamento de sangue sem sentido (sangue principalmente palestino). O Isil continua ampliando seu controle em partes do Iraque, pondo milhares de membros da seita religiosa yazidi em risco e levando o governo Obama a considerar ataques aéreos ou alguma forma de ajuda humanitária lançada do ar. Enquanto isso, as autoridades de Bagdá se engalfinham. A Líbia continua se desmilinguindo, contradizendo as congratulações dos falcões liberais por ocasião da queda de Kadafi. Um general americano foi baleado e morto no Afeganistão, e outra eleição contestada ameaça a democracia nesse país e pode dar ao Taleban novas oportunidades de fazer progressos às expensas de Cabul. O premiê turco, Recip Erdogan, vem chamando o presidente egípcio, Abdul Fatah al-Sissi, de “tirano”, uma ironia quando se consideram as tendências autoritárias do próprio Erdogan. A querela diplomática entre Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar continua sem solução. Até a natureza parece estar contra: o vírus da mers, da Península Arábica, pode ser transmissível por contato aéreo. Estou certo de que vocês poderão encontrar alguma boa notícia se tentarem, mas terão de se esforçar um bocado.

Eventos em série como esses atraem críticos e cassandras como um piquenique atrai abelhas. No Washington Post, o neoconservador Eliot Cohen lamenta o “naufrágio” da política americana para o Oriente Médio, atribuindo toda a culpa ao fato de Barack Obama não ter reconhecido que “guerra é guerra” e sua relutância em mobilizar a nação para travar mais delas (pouco importando que a última, na qual Cohen ajudou os EUA a entrarem – a invasão do Iraque em 2003 –, tenha causado mais danos do que qualquer coisa que Obama fez). Uma perspectiva muito mais convincente é a do ex-embaixador Chas Freeman, que avalia várias décadas de envolvimento dos EUA na região e chega a uma conclusão deprimente: “É difícil pensar em algum projeto americano no Oriente Médio que já não esteja, ou não esteja perto de entrar, num beco sem saída”.

Haverá algum sinal de esperança nesse quadro desalentador? Talvez. Afinal, quando as coisas estão tão ruins, a necessidade de repensar toda a abordagem americana da região é quase inevitável. Se deixarmos de lado slogans e tabus familiares e dermos um novo olhar, o que poderíamos ver?

Desde a 2ª Guerra Mundial, a ingerência que Freeman menciona foi conduzida em parceria com vários aliados regionais. Esses alinhamentos podem ter sido uma necessidade estratégica durante a Guerra Fria (embora até isso seja discutível), mas o fato triste é que hoje não restaram parceiros atraentes para os EUA. O Egito é uma ditadura militar corrupta com perspectivas sombrias, e o regime do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) de Erdogan na Turquia está tendendo para um governo de partido único, enquanto sua ambiciosa política externa de “zero problema” desandou seriamente. Trabalhar com o regime de Bashar Assad, na Síria, está fora de cogitação – por bons motivos –, mas a maioria de seus adversários não é flor que se cheire. A Arábia Saudita é uma monarquia teocrática geriátrica que trata metade da população – isto é, as mulheres – como cidadãos de segunda classe (se tanto). O Irã é um tipo diferente de Estado teocrático: tem algumas feições quase democráticas, mas também um histórico abissal de violação de direitos humanos e ambições regionais preocupantes.

O quadro não melhora muito para qualquer lado que se olhe. A monarquia hachemita, na Jordânia, vem sendo uma aliada há décadas, mas continua pesadamente dependente de apoio externo e é demasiado frágil para ser a peça-chave do engajamento americano. O mesmo vale para o Líbano. A Líbia nem sequer tem um governo, quanto mais um do qual os EUA poderiam ser próximos. Israel está arrematando sua mais recente agressão contra os palestinos – sem nenhum propósito estratégico duradouro – e sua marcha para a direita inclui agora a defesa aberta, por figuras políticas influentes, de políticas de extermínio. A “relação especial” com Israel também alimenta antiamericanistas e faz Washington parecer hipócrita e ineficiente aos olhos de boa parte do mundo. Mas os grupos políticos palestinos não são mais animadores: a Autoridade Palestina é corrupta e ineficiente e elementos do Hamas ainda proclamam o pior tipo de antissemitismo tóxico. Países como Catar e Bahrein fornecem terrenos valiosos para bases americanas e muitos desses governos cooperam com os EUA fora de seu próprio interesse, mas é difícil encontrar algum hoje na região que pareça um genuíno ganho estratégico ou moral .

Diante desse ambiente hostil, qual seria a coisa sensata – ou devo dizer realista? – para os EUA fazerem? A resposta familiar é dizer que este é um mundo imperfeito e não temos escolha senão trabalhar com o que conseguirmos. Tapamos o nariz e fazemos acordos com as partes menos objetáveis da região. Como Michael Corleone diria, não é pessoal, são só negócios.

Mas tal visão supõe que um envolvimento profundo nessa área conturbada ainda seja fundamental para os interesses nacionais americanos, e também que os EUA obtenham benefícios líquidos de suas repetidas interferências em favor de parceiros não muito leais. Em outras palavras, supõe que essas parcerias e envolvimentos americanos profundos deixem os americanos mais seguros e mais prósperos em casa. Mas, dado o estado atual da região e as condição da maioria de nossos pretensos aliados, esse pressuposto é cada vez mais questionável.

Aliás, a maioria das disputas e divisões que corroem a região não colocam ameaças diretas e mortais a interesses vitais americanos. É deprimente observar o que está havendo na Síria ou em Gaza, ou na democracia israelense, mas esses eventos afetam diretamente a vida de pouquíssimos americanos. A menos, claro, que sejamos tolos o bastante para nos lançarmos de novo no olho do furacão.

Além disso, o Oriente Médio atual está fracionado por uma série de conflitos superpostos ao longo de múltiplas divisões potencialmente explosivas, impulsionadas em boa parte por fracassos governamentais prolongados e exacerbadas por interferências externas disparatadas. Existe, é claro, a divisão entre sunitas e xiitas, e entre islamistas (de muitos recortes distintos) e autoritários tradicionais (também de vários tipos). Somem-se a isso os conflitos em torno de divisões sectárias (como na Síria, Líbano, Iraque e outros lugares) e as recorrentes desconfianças entre árabes e persas. Sem esquecer o conflito entre judeus israelenses e árabes palestinos, que ainda reverbera por todo o mundo árabe e islâmico.

É aqui que os americanos precisam se lembrar de que os EUA podem ter interesses permanentes no Oriente Médio, mas não necessariamente amigos permanentes. Em termos de interesses estratégicos, o objetivo central americano desde a 2ª Guerra tem sido impedir que alguma potência isolada domine o Golfo Pérsico rico em petróleo. Por mais problemáticas que possam ser para nós todas as divisões e disputas na região, esses conflitos também tornam mais remota que nunca a possibilidade de uma única potência dominar a região. Alguém seriamente acredita que Irã, Iraque, Arábia Saudita, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante(Isil, na sigla em inglês), os curdos, Rússia, Turquia, China ou qualquer outro vá assumir o controle e administrar essa vasta e turbulenta área, aplacando todas as divergências e disputas? Evidentemente, não. E assim, o principal objetivo estratégico dos EUA será alcançado, quer Washington levante um dedo ou não.

Alguns argumentarão que temos uma responsabilidade moral de tentar pôr fim ao evidente sofrimento em diferentes lugares, e um imperativo estratégico de erradicar terroristas e impedir a disseminação de armas de destruição em massa. São objetivos elogiáveis, mas se a história dos últimos 20 anos nos ensina alguma coisa, é que essa intervenção americana forçada só piora os problemas. O Isil não existiria se os neoconservadores não nos houvessem levado cegamente ao Iraque, e o Irã teria menos razões para pensar na obtenção de armas nucleares se não tivesse observado os EUA jogarem seu peso na região e o ameaçarem diretamente com uma mudança de regime.

Portanto, em vez de agir como um malabarista hiperativo em meio a dezenas de pratos giratórios, o melhor caminho seria talvez nos retrairmos ainda mais do que já fizemos. Não, não estou falando em isolacionismo; o que sugiro é levar a sério a ideia de desengajamento estratégico e de pôr a região inteira na lista de prioridades de política externa dos EUA. Em vez de adular constantemente esses Estados para que façam o que consideramos ser o melhor talvez devêssemos deixar que eles mesmos resolvessem esses problemas durante algum tempo. E, se algum deles eventualmente buscar ajuda americana, ela deve ter um preço alto.

Entre outras coisas, a política que estou sugerindo significaria os EUA pararem com os esforços fúteis para pôr fim ao conflito israelense-palestino. Já me posicionei contra esse caminho no passado, mas agora me parece evidente que nenhum presidente esteja disposto a desafiar os apoiadores de Israel aqui nos EUA e condicionar o apoio americano a Israel ao fim da ocupação. Até isso acontecer, mesmo os esforços bem-intencionados para costurar a paz continuarão fracassando. Em vez de continuar desperdiçando tempo e prestígio preciosos numa empreitada infrutífera, o governo americano deveria se desengajar dessa tarefa ingrata até estar pronto para mais do que conversa fiada e promessas. Se os líderes israelenses quiserem arriscar o próprio futuro com a criação de um “grande Israel”, que seja. Seria lamentável se Israel acabasse sendo um Estado de apartheid e um pária internacional, mas impedir essa tragédia não é vital para o interesse americano (se realmente fosse, a política americana desde Oslo poderia ter sido muito diferente). 

Para serem consistentes, é claro, os EUA deveriam encerrar sua ajuda militar e econômica ao Egito, Israel e, talvez, a alguns outros. Não acredito que o Congresso de repente tomasse coragem e fizesse a coisa certa aqui, mas até um realista pode sonhar, não é? Entretanto, mesmo que a “relação especial” continue mais ou menos intacta, pelo menos os diplomatas americanos não estariam mais gastando tempo e energia tentando fazer o impossível.

Evidentemente, o curso da ação que estou esboçando aqui provavelmente deixará o Oriente Médio numa condição muito confusa durante algum tempo. Mas isso vai ocorrer seja qual for a atitude de Washington. Por isso, a questão é a seguinte: os EUA devem desperdiçar mais sangue e recursos numa série de tarefas fúteis, deixando muitas pessoas da região zangadas e encorajando algumas poucas a buscar retaliação? Ou deveriam se distanciar de todos e se preparem para intervir somente quando um número substancial de vidas americanas estiver em risco ou na eventualidade improvável de que haja uma ameaça genuína e iminente de dominação regional?

Esse último curso seria um ponto de partida realista para a política americana, e posso ver os riscos negativos potenciais. Alguns governos locais poderiam se mostrar menos dispostos a compartilhar inteligência conosco, ou a colaborar no contraterrorismo. Isso seria lamentável, mas, por outro lado, na medida em que o terrorismo antiamericano que emana da região é principalmente uma reação violenta a políticas americanas passadas, uma política menos engajada quase certamente tornaria esse problema menos grave.

Seja como for, os resultados de uma abordagem diferente dificilmente seriam piores que os obtidos pelos EUA nos últimos 20 anos ou mais. A menos que os americanos tenham um pendor masoquista para a decepção, este parece o momento ideal para uma revisão mais profunda.

Um pensamento final: este argumento não excluiria uma ação americana limitada para fins puramente humanitários – como os lançamentos aéreos para minorias religiosas sitiadas e ameaçadas de morrer de inanição no Iraque. Isso não é “engajamento profundo”; é apenas tentar ajudar pessoas ameaçadas de morte iminente. Mas eu não enviaria forças americanas – nem mesmo drones ou aviões – para vencer uma batalha que o governo iraquiano ou os curdos não possam vencer sozinhos. Os EUA passaram a maior parte de uma década buscando esse elusivo graal, e o resultado foi precisamente o tipo de caos e rivalidade sectária que produziu esta última crise. Façamos algum bem limitado a minorias ameaçadas, mas, sobretudo, não causemos novos danos – nem à região nem a nós mesmos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

*

Stephen Martin Walt, professor de Política Internacional na Universidade Harvard, é autor de Origins of Alliances (Cornell University). Escreveu este artigo para Foreign Policy

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