China Miéville fala sobre seu livro em que evoca a Revolução Russa

China Miéville fala sobre seu livro em que evoca a Revolução Russa

Autor de 'A Cidade e a Cidade' publica livro de não-ficção 'Outubro'

John Williams, The New York Times

13 Maio 2017 | 16h00

China Miéville é um escritor de ficção cuja imaginação polivalente, com seus monstros, paisagens urbanas futuristas, batalhas entre o bem e o mal, consegue levar as mentes dos leitores à explosão. Sarah Lyall escreveu no The New York Times que os romances de Miéville “se deslocam entre gêneros, elementos extraídos da ficção científica, fantasia e fantasia urbana, contos de fadas tradicionais, steampunk, horror”. Portanto, a coisa mais estranha que ele poderia fazer neste ponto seria abordar o mundo real. E foi o que fez no caso de Outubro seu novo livro de não ficção sobre a Revolução Russa de 1917. Ele nos fala do seu interesse no assunto, porque decidiu escrever um livro sobre os fatos ocorridos um século depois, etc.

Esta entrevista foi condensada e editada.

Quando pensou pela primeira vez em escrever este livro?

Eu conversava a respeito com meu amigo Sebastien Budgen, que é também o editor do livro e discutíamos o fato de que, embora exista uma imensa literatura sobre a Revolução Russa, é difícil encontrar um texto que não seja avassalador para um leitor leigo interessado no assunto. Para Sebastian havia potencial para escrever sobre a Revolução Russa na forma de um romance.

Basicamente a ideia era abordar a revolução como uma história, e é uma história extraordinária, sem envolver política, ou fingir que ela não está presente, ou explicá-la de um modo muito simples.

Sebastian sabe que sempre fui um ativista de esquerda. A política e a cultura socialistas são muito importantes para mim e tenho uma relação política com a revolução também. Não é apenas uma história extraordinária no plano abstrato, mas também muito relevante.

E obedeci a algumas regras. Não há nenhum evento, nenhuma pessoa, nenhum discurso sobre o qual discorro que não se encontre em alguma parte na literatura. Nada foi inventado. É um livro que escrevi tendo em mente um leitor relativamente novo, mas quero que os especialistas reconheçam que levei o assunto a sério.

O que mais o surpreendeu enquanto produzia o livro?

Que você não pode inventar. Realizei uma ampla pesquisa e refleti constantemente sobre o quão genuinamente inusitada, como tudo o mais, é essa história. Há fatos que são farsas burlescas, em que pouca coisa é precisa. Uma delas à qual sempre retorno é o caso Komilov, a revolta militar protofascista que ameaçou São Petersburgo em agosto e em que há um diálogo extraordinário entre Lavr Komilov e Alexander Kerenski. Um diálogo de surdos. Eles discordam um do outro de tal maneira que, se você relatar isto à maneira de um romance ou uma peça, o editor devolverá o material dizendo: “você não pode dar tanto crédito a isto”. Há aspectos na narrativa que o deixam boquiaberto; havia um único telefone no Palácio de Inverno que ainda funcionava e todo o governo provisório se acotovelava para usá-lo.

Em que medida este livro é diferente daquele que se dispunha a escrever?

Fiquei decepcionado com o fato de não me deter mais na arte e na ficção do período; quis escrever um livro substancial, mas não rebarbativo, e sobre um ou dois indivíduos extraordinários. A primeira versão era muito mais longa, como costuma ocorrer. Ao fazer a revisão de uma história que tinha uma propulsão própria, parte do que escrevi teve de ser descartado. Procurei me restringir a algumas referências e algumas frases aqui e ali. Isto me deixou muito angustiado.

Por outro lado, pode parecer curioso, esperava que escrever fosse instigante, mas o processo foi ainda mais instigante. E eu me vi absorto na pesquisa e na escrita de uma maneira diferente, havia uma sensação de urgência e uma energia muito maior do que imaginava sentir. Espero que isso tenha ficado claro. Não que eu esperasse um livro árido, mas acho que o sentido de urgência foi maior do que eu esperava.

Quem seria uma pessoa criativa (não um escritor) que o influenciou e o seu trabalho? 

Poderiam ser muitas, mas alguém que esteve sempre próximo de mim até hoje é o pintor Toyen, um indivíduo extraordinariamente transgressivo no que diz respeito a gênero e que se recusou a se submeter a uma certa estrutura patriarcal. Toyen foi fundamental na criação do grupo surrealista checo em 1934; protegeu um parceiro durante a ocupação nazista e continuava ativo aos 70 anos. Sempre adorei os surrealistas. Descobri-los no início da minha adolescência foi uma experiência crucial. Tenho uma paixão particular pelo desenho em contraste com a pintura. Sempre me senti arrebatado pelas brutais paisagens oníricas em bico de pena de Toyen.

Convença uma pessoa a ler 'Outubro' com menos de 50 palavras

A narrativa da Revolução Russa é tão imperiosa e estranha quanto a de qualquer romance, e Outubro é o evento político fundamental do século 20. Precisamos nos lembrar desses tempos sombrios e cruéis. É uma tentativa de contar essa história incrível e inspiradora./Tradução de Terezinha Martino 

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