Instituto Moreira Salles/Divulgação
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Cineasta acompanha homem por 16 anos e traça paralelo com clássico do cinema

Filme brasileiro foi dirigido por Carlos Nader e narra a história de um caminhoneiro sob a ótica de 'A Palavra', de Carl Dreyer

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2017 | 16h01

Numa das cenas iniciais, assistimos ao diálogo tenso entre um pai e sua filha. Falam em reconciliação, da dificuldade de exprimir sentimentos. Uma voz em off, a do cineasta, intervém. Diz que o homem mostra mais espontaneidade em exprimir seus sentimentos diante da câmera. Há aí montado um dispositivo cinematográfico, como se diz. O homem é o caminhoneiro Nilson de Paula. A mulher, sua filha Nilciane. A voz é a de Carlos Nader e o filme é Homem Comum.

Um filme, com perdão da antífrase, bastante incomum. O próprio cineasta o vai explicando, à medida em que as cenas progridem. Tratava-se, de início, de um projeto com vários caminhoneiros. O diretor embarcava no caminhão, com sua câmera, e a conversa ia sendo registrada. Depois de algumas perguntas banais, sobre o tempo, as rodovias, etc., Nader engatava questões fora do campo banal das conversas de estrada: “A vida não parecia estranha, às vezes?” “O interlocutor não se sentia de vez em quando como dentro de um sonho?” Coisas assim. Ou seja, Nader tentava especular sobre o estranhamento do mundo com pessoas em tese nada habituadas a esse tipo de meditação. Recebia, em troca, sorrisos amarelos e respostas convencionais quando não envergonhadas. Algumas das cenas desse projeto fracassado são vistas. 

Mas então Nader descobre o caminhoneiro paranaense Nilson de Paula e resolve fazer um filme só com ele. Não que Nilson seja dado a meditações filosóficas, mas algum misterioso elo se estabelece entre os dois e Nader passa a seguir a vida de Nilson em encontros sucessivos, de 1996 a 2012. 

O caráter inusitado de Homem Comum não se resume a esse acompanhamento sequencial de uma vida e suas vicissitudes. Nader resolve estabelecer um contraponto entre a existência de Nilson e cenas de um clássico do cinema mundial, Ordet (A Palavra, 1955), do dinamarquês Carl Dreyer. Acontece que teve problemas para conseguir os direitos dessas imagens e assim teve de usar um expediente. Filmar, ele próprio, uma espécie de paródia de A Palavra, chamada Life, the Dream, ambientada na Inglaterra. Na história de Dreyer, há uma família, uma mulher grávida prestes a dar à luz, um irmão tido por louco que acredita ser Jesus. Em Life, the Dream, há também uma família (ao invés do patriarca, uma matriarca), uma grávida, seu irmão “louco”, que derrama perfume em formigas e especula: “E se formos como elas, que nunca olham para cima, enquanto um Deus que não vemos se diverte conosco?”

Quando, por fim, o direito para usar imagens da obra de Dreyer é concedido, Nader resolve utilizar os dois materiais – original e a paródia. É um procedimento de uso de imagens que, intercaladas às do documentário propriamente dito, adensam o grau de mistério do filme como um todo. Mesmo porque a obra-prima de Dreyer, como o curta Life, the Dream, falam do silêncio de Deus, da vida, da morte, do poder regenerador da palavra. Ou da Palavra, em maiúsculo, na vertente cristã. 

O efeito de choque é produzido pela disparidade entre a metafísica (e mesmo a mística) desses filmes utilizados (em particular A Palavra) e a praticidade simples com que Nilson e sua família tentam tocar a vida. 

E, dessa forma, muitas vezes as perguntas filosóficas de Nader parecem uma tentativa artificial de estabelecer pontes entre dois mundos diferentes e que não se comunicam. Mas esta não seria uma visão redutora e, no fundo, preconceituosa? Não estaríamos com isso querendo dizer que a metafísica é privativa das classes médias e altas, que tiveram acesso ao estudo e ao saber, e que as classes populares devem se contentar com a visão concreta do dia a dia, com as suas exigências de sobrevivência imediata?

No folheto que acompanha o DVD há um texto (brilhante) de José Miguel Wisnik, que comenta este e outros pontos. Wisnik fala de um momento preciso do filme, o de uma morte ocorrida, e diz que aí “foi cruzado o fosso ou a fossa que separa classes sociais no país. Aliás, num país desigual, em que a classe média parece inconsistente diante da massa de despossuídos e excluídos, esse fosso é o eterno Rubicon em vaivém do cinema brasileiro.” Wisnik cita os recentes O Som ao Redor (2012) e Que Horas Ela Volta? (2015) como exemplos flagrantes do “eterno retorno desse recalcado”. 

Dessa forma, o cineasta (classe média) tenta impingir sua inquietação metafísica ao caminhoneiro (homem do povo), que deseja apenas tocar sua vida e ser feliz? Ou o cineasta tenta reencontrar no homem do povo essa mesma tensão existencial, apenas expressa sob outra forma? Porque se esta segunda afirmação for correta, a conclusão possível é que a dúvida filosófica sobre a vida, a morte, o sentido do estar no mundo não é privativa de classe. Os homens podem dialogar, ainda que seu repertório linguístico seja diferente. E, nesse sentido, Homem Comum adquire um insuspeitado viés político. 

Esse ponto de virada se dá quando Nilson é, ele próprio, atingido pelo inassimilável da morte e convoca o cineasta – e sua câmera – para o acudir no momento de dor. Mas em que termos? Wisnik cita o livro Formas Breves, de Ricardo Piglia, há pouco falecido. Na literatura argentina (e quiçá universal), “o homem que perde a mulher é levado a ver o mundo com olhos metafísicos, convocado pelos segredos da memória, do tempo, do passado, da pureza esquecida, do sentido da vida”. Homem Comum, é, entre outras tantas coisas, um comentário sobre a possibilidade de trocas simbólicas entre os (supostamente) desiguais.

Homem Comum

DVD, Brasil, 103 minutos

Diretor: Carlos Nader

Lançamento: Instituto Moreira Salles

R$ 44,90

 

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