Companhia das Letras
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Cinema e literatura ajudam a quebrar estigma da bipolaridade

Apesar das representações de personagens que sofrem do distúrbio, ainda existe incompreensão

Felipe Cherubin*, Especial para o Estado de S. Paulo

08 Abril 2017 | 16h00

Vincent Van Gogh (1853-1890), filho de um pastor da Igreja Reformada Holandesa, acreditava piamente na figura de Cristo. Em certa ocasião, pregava para mineiros em Borinage, quando um incêndio vitimou um dos trabalhadores. Sua recuperação foi desacreditada pelo médico da companhia que decretou sua morte a não ser que um milagre ocorresse. Van Gogh, então, cuidou do mineiro durante 40 dias, arcando com todas as despesas médicas e salvou sua vida. Neste episódio, relatado por Paul Gauguin (1848-1903), ele confessou: “Tive, na presença desse homem, que trazia em seu semblante uma série de cicatrizes, uma visão da coroa de espinhos, uma visão do Cristo ressuscitado”.

Outro episódio marcante na vida do pintor está na correspondência com seu irmão Theo (1857-1891), em que Vincent comenta a impressão que o quadro A Loucura de Hugo Van Der Goes, de Emile Wauters (1846-1933), causou em sua alma. Posteriormente, o pintor holandês se tornou símbolo da luta para a conscientização do transtorno afetivo bipolar, celebrado desde 2014, no dia 30 de março, nascimento de Van Gogh.

O “diagnóstico póstumo” de Van Gogh ganhou força com o estudo Touched with Fire: Manic-Depressive Illness and the Artistic Temperament (1996), da psicóloga Kay Jamison Redfield. Uma das maiores especialistas no assunto, ela mesma bipolar e autora de Uma Mente Inquieta, considerada a mais famosa autobiografia sobre o tema. No cinema, Touched with Fire (2015), dirigido por Paul Dalio, conta a história de um casal de bipolares em um hospital psiquiátrico, sempre em contato com o livro de Jamison. Curiosamente, a psicóloga participa do filme interpretando a si mesma. 

Na premiada série americana Homeland (2011), a protagonista Carrie Mathison, interpretada por Claire Danes, é uma agente de operações da CIA que está sempre lidando com os fantasmas do alcoolismo, do tratamento medicamentoso e da incapacitação produtiva. A atuação de Danes impressiona, sendo um dos mais fidedignos retratos do transtorno bipolar na ficção.

Já na literatura, cabe destacar autobiografias que não abrem concessões sobre os aspectos atrozes da doença como Fall to Pieces: A Memoir of Drugs, Rock 'n' Roll, and Mental Illness (2009), de Mary Forsberg Weiland, ex-esposa do rockstar Scott Weiland (1967-2015) e Wishful Drinking (2008), da atriz Carrie Fisher (1956-2016), a eterna princesa Leia da franquia Star Wars. Outro destaque é Setting the River on Fire: A Study of Genius, Mania, and Character (2017), da já mencionada Kay Jamison Redfield, uma biografia de Robert Lowell, pai da poesia confessional, que reflete experiências pessoais extremas.

Se pensarmos em lendas fantásticas e histórias inacreditáveis quando o tema é bipolaridade, a figura mais icônica é a atriz Frances Farmer (1913-1970). Sua vida é tão surreal que podemos dizer que a realidade ultrapassou a ficção gerando adaptações para o cinema, teatro, literatura e música.

Os transtornos do humor são conhecidos desde tempos bíblicos e mitológicos, e começaram a ser tratados de forma cientifica por Hipócrates, o pai da medicina e eram todos denominados pelo termo “melancolia”. No final de 2016, duas obras ofereceram um estudo historiográfico desse conceito: A Tinta da Melancolia: Uma História Cultural da Tristeza, do psiquiatra Jean Starobinski (Cia. das Letras, R$ 74,90); e História da Melancolia, dos autores Táki Athanássios Cordás e Matheus Schumaker Emilio (Ed. Artmed, R$ 60). Esses dois lançamentos reforçam a bibliografia nacional sobre o tema que, de 2011 até 2013, foi ganhando importância, sobretudo, com os quatro volumes de A Anatomia da Melancolia (Ed.UFPR), obra-prima renascentista de Robert Burton, vencedora do prêmio Jabuti na categoria “melhor tradução” em 2014.

No caso do transtorno bipolar, o divisor de águas na historiografia da doença foi a descoberta do lítio por John Cade em 1948. Considerada “a penicilina da saúde mental”, essa história é contada em Finding Sanity: John Cade, Lithium and the Taming of Bipolar Disorder, de Greg de Moore e Ann Westmore, previsto para abril de 2017.

A bipolaridade é um transtorno afetivo caracterizado pelo intercâmbio de fases depressivas e eufóricas e nada tem a ver com mudanças de personalidade. O que muda é o humor. Causada por uma combinação de fatores genéticos e ambientais, é uma doença devastadora e um problema de saúde pública. A bipolaridade é distinta da depressão e o diagnóstico incorreto, infelizmente comum, pode resultar numa piora considerável no quadro do paciente. Em relação à depressão, são dignos de nota os livros Perto das Trevas, de Willian Styron, e O Demônio do Meio-Dia, de Andrew Solomon.

Embora o transtorno bipolar venha ganhando cada vez mais espaço no debate público, a literatura em português ainda é escassa. Foi esse fator que levou Manoela Serra a escrever O Diário Bipolar (Ed. Autografia, R$ 35), que relata as experiências da escritora com o transtorno e comorbidades como ansiedade, compulsão e síndrome do pânico.

O dia mundial do transtorno bipolar celebra a conscientização desse problema ainda bastante incompreendido e estigmatizado que afeta milhares de pessoas, tendo como meta combater a psicofobia e promover a psicoeducação desta doença tão antiga quanto a humanidade. 

*Felipe Cherubin é jornalista, escritor, filósofo e autor do livro 'O Homem de Duas Cidades' (Amazon)

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