Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Clubes de leitura se proliferam e apostam na curadoria para atingir nichos

Serviços se especializam e enviam mensalmente traduções inéditas, livros escritos por mulheres, best-sellers ou infantis

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

17 Março 2018 | 16h00

Em meio à enxurrada que jorra diariamente das prateleiras físicas e virtuais – mais de 50 mil títulos lançados por ano, segundo pesquisa anual da Fipe para a Câmara Brasileira do Livro –, os leitores têm buscado novas maneiras de encontrar livros resgatando uma prática antiga: o serviços de assinatura mensal, nos moldes do Clube do Livro, criado pelo escritor e editor Mário Graciotti em 1943. 

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Um desses serviços é a TAG, que surgiu em 2014 e hoje abarca mais de 20 mil assinantes. “Levamos um tempo para conceber a ideia, se seria surpresa ou não, o que acompanharia o pacote”, diz ao Aliás o fundador Arthur Dambros. A empresa aposta em edições próprias caprichadas e curadoria de autores como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, o argentino Alberto Manguel e os brasileiros Luis Fernando Verissimo, Martha Medeiros e Daniel Galera. “A TAG não existe para incentivar a leitura, e sim para criar experiências literárias”, diz Dambros. “Por consequência, fomentamos o gosto pela leitura e valorização do livro.” Em março, a TAG estreou um novo selo, que enviará apenas obras inéditas em português para seus assinantes. 

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O Skoob é uma rede social em que leitores podem avaliar e debater obras, mostrar o que estão lendo e conhecer novos autores, mas desde junho de 2017, a plataforma oferece também um serviço por assinatura. “Nós usamos a avaliação dos livros pelos leitores no site para selecionar os títulos”, explica Lindenberg Moreira, fundador do site, que conta ter começado a iniciativa a pedido dos usuários. O Clube Skoob, que já soma 2 mil assinantes, não envia edições próprias, mas seleciona livros de editoras e oferece o espaço que já existia na internet para que a discussão das obras. “É claro que estamos limitados ao público que já é leitor, não vamos conseguir vender essa caixa para alguém que não lê, mas muitas vezes conseguimos mudar os hábitos de leitura dessas pessoas”, afirma Moreira, comemorando os usuários que passam a ler estilos pelos quais não se interessavam antes. 

O Leia Mulheres, concebido entre 2014 e 2015, se inspirou em uma ação da escritora e ilustradora britânica Joanna Walsh, que incentivava a leitura de obras escritas por mulheres. “Ela basicamente propunha que as pessoas prestassem mais atenção ao que estavam lendo, porque a maioria dos livros era de homens”, conta Juliana Leuenroth, que, com Juliana Gomes e Michelle Henriques, fundou um clube de discussão na livraria Blooks. 

A ideia, que começou entre amigos, se espalhou e hoje está em dezenas de municípios. “Cada cidade tem autonomia para escolher o livro que quiser. Os encontros são mensais e a única coisa que pedimos é que o livro seja de fácil acesso, ou seja, não esteja esgotado em livrarias e não seja tão caro”, explica Leuenroth. É claro, os títulos são todos de mulheres, mas ela conta que alguns homens também participam dos encontros. Até autoras, como Giovana Mandalosso e Jarid Arraes, estiveram presentes nos debates sobre suas obras. A próxima reunião ocorre em 24 de março, às 16h, no CCSP, para discutir Um Útero é do Tamanho de um Punho, de Angélica Freitas. 

Em 2017, o Leia Mulheres se tornou um dos selos do Garimpo, um serviço de assinatura dividido em nichos como ficção, poesia, infantil e negócios. Leuenroth, Gomes e Henriques selecionam, mensalmente, obras escritas por mulheres, como Kindred, de Octavia Butler, e A Mulher de Pés Descalços, de Scholastique Mukasonga, alguns dos livros escolhidos recentemente. 

Crianças. A Companhia das Letrinhas, selo focado no público infantojuvenil, oferece o Expresso Letrinhas, que envia mensalmente dois livros infantis aos associados. “A ideia é que os pais possam construir uma biblioteca para a criança, mesmo que ela ainda não consiga ler alguns dos títulos agora ou precise da leitura compartilhada”, diz Mell Brites, que é editora da Companhia e curadora do clube. Ela conta que a expertise da empresa é fundamental, pois a Companhia das Letras conta com um departamento especializado em fornecer material para escolas e, com isso, sabe o que é importante para cada idade.

Os livros enviados mensalmente são divididos em três faixas etárias: para crianças de até seis anos, as obras têm mais imagens e menos texto, indicadas para a leitura com os pais. Entre sete e nove anos, são selecionados livros que tratam de temas mais complexos, mas ainda com um bom equilíbrio entre imagens e texto. Até os 12 anos, as crianças recebem títulos que tenham uma predominância de texto e sejam recomendados para a leitura autônoma. Além desses livros, há sempre um clássico enviado para todas as faixas.

Para Brites, muitos pais que nutrem o hábito da leitura não sabem transmiti-lo aos filhos. “A literatura infantil é muito específica, então os pais têm dificuldade de escolher um livro para a criança ou de saber o que é interessante. A oferta é muito variada e um dos motivos pelos quais criamos o clube foi para garantir que os pais ofereçam uma literatura de qualidade aos filhos”, conclui. 

Outro serviço voltado para os pequenos é o Leiturinhas, fundado por Guilherme Martins, Rodolfo Reis e Luis Castilho em 2014. Nenhum dos três tinha um background editorial, mas todos perceberam a necessidade do clube quando seus filhos começaram a nascer. “Nossa ideia é sempre levar algo para a criança que faça ela associar a leitura a uma atividade divertida”, afirma Martins, que é CEO da Playkids, empresa responsável pelo serviço. “A criança se sente importante porque chega um pacote para ela em casa, que é algo que ela vê acontecendo com os adultos”, conta, listando os adesivos, marcadores de páginas e o material de apoio para os pais. “Não importa se o pai é leitor ou não. Se não criamos essa periodicidade, a criança não adquire um hábito de leitura”, acredita Martins. O Leiturinhas é parte de um projeto maior, que conta também com o aplicativo Playkids Explorer, que leva os pequenos a aventuras que vão "do fundo do mar ao espaço", conta o empresário. 

Pode parecer que os clubes de leitura são todos voltados para o mesmo público, mas o perfil do leitor de cada serviço é bastante definido. O foco na experiência, no final das contas, parece ser o leitmotiv por trás desse fenômeno editorial, uma vez que não se resume a receber um produto em casa, mas sim a todo tipo de vivência que um livro pode proporcionar: debater escritoras, se aproximar dos filhos, conhecer um autor novo ou expandir as fronteiras dos próprios hábitos literários.

Alguns dos serviços disponíveis:

TAG

Curadoria: seleção de notáveis, edição em capa dura exclusiva, conteúdo extra e brindes, a partir de R$ 55,90 mais frete; Inéditos: best-sellers ainda não traduzidos em brochura, a partir de R$ 39,90 mais frete

Leia Mulheres

Selo do Garimpo com livros escritos por mulheres, escolhidos pelas criadoras do projeto, acompanha carta das curadoras, a partir de R$ 49,90 

 

Skoob

Caixa comum contém de um a dois brindes que acompanham o livro: R$ 59,90 mais frete; especial com três a cinco brindes, R$ 89,90 mais frete

Expresso Letrinhas

Um livro clássico e um indicado para a faixa etária, além de brincadeiras inclusas no pacote e textos de apoio para os pais: R$ 54,90 mais frete  

Leiturinhas

Lançamentos com exclusividade das mais de cem editoras parceiras, além de brindes e material de apoio. Kit Uni, com um livro: R$ 39,90; Kit Duni: R$ 59,90

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