Editora Companhia das Letras
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Coletânea reúne contos de escritora americana que foi faxineira

'Manual da Faxineira', de Lucia Berlin, evidencia autoficção em personagens femininas

Sérgio Augusto , O Estado de S. Paulo

22 Abril 2017 | 16h00

Pena que não se possa proclamar a duplamente oxítona Lucia Berlin (leia-se Lucía Berlín) a melhor contista americana viva. Ela morreu em 2004, mas é só tirar o “viva” e acrescentar “dos últimos 30 anos”; o que muitos fariam sem pedir desculpas a Grace Paley e Lydia Davis ou licença para estender a deferência ao mundo literário anglo-saxônico. Incluam também os marmanjos William Trevor, Raymond Carver e Richard Yates nessa fútil disputa; deixem apenas de fora, à parte, no altar-mor, John Cheever, “o Chekhov de Ossining”.

Até recentemente, Berlin era apenas lida por um restrito círculo de devotos. Publicara seus primeiros contos numa revista literária de Saul Bellow, no início dos anos 1960, e precisou esperar quase duas décadas para ser adotada pela editora alternativa Black Sparrow. Em 2015, por iniciativa de Stephen Emerson, 43 das 77 narrativas curtas que ela nos deixou foram reunidas numa coletânea perfilhada por uma editora da primeira divisão, Farrar, Straus & Giroux. Apadrinhada por Lydia Davis, que acrescentou-lhe um posfácio, merecidamente encomiástico, A Manual For Cleaning Women, tornou-se o maior fenômeno literário da temporada. Que Manual da Faxineira, a muito boa tradução (de Sonia Moreira) recém-lançada pela Cia. das Letras, multiplique entre nós o já vasto contingente de admiradores da contista.

Ninguém resiste ao feitiço das histórias narradas por Berlin. Pelos incidentes e personagens nelas contidos, mas sobretudo pela maneira como ela os descreve e aproxima do leitor. Seus contos, afáveis e fluentes, mais que relatam, conversam, numa prosa coloquial, descontraída, vivaz, sincopada, com mudanças de tom, assunto e ritmo, ora sereno, ora acelerado, ora quase telegráfico. 

“São elétricos, zumbem e estalam quando seus fios vivos se tocam”, salienta Lydia Davis. E prossegue: “Em resposta, também a cabeça do leitor, seduzida, fascinada, ganha vida, com todas as sinapses disparando.” E conclui: “É assim que gostamos de ficar quando estamos lendo – usando nosso cérebro, sentindo nosso coração bater.”

A faxineira do título é apenas uma das muitas personae autobiográficas criadas pela autora, que, ao longo de uma vida conturbada (três maridos, quatro filhos, uma escola de freiras, alcoolismo), cheia de deslocamentos (Alasca, Colorado, Santiago, Novo México, Texas, Nova York, São Francisco, Oakland, Los Angeles), amantes e dores na coluna cervical, limpou muitas casas alheias, enfrentou muita ressaca, foi recepcionista de consultório médico, trabalhou no setor de emergência de hospitais, em clínicas de aborto e desintoxicação. 

Berlin não inventou a autoficção, mas foi uma de suas primeiras praticantes. Num dos contos mais originais da coletânea, Ponto de Vista, ela se exercita, simultaneamente, na autoficção e  metaficção, tentando emular “a voz imparcial de Chekhov”. 

Suas mulheres, vale dizer seus alter egos, enfrentam as situações mais sórdidas e executam tarefas as mais desagradáveis com impressionante estoicismo. E Berlin as recria, com algum exagero (“mas sem mentir”, ressalva) e um olhar gaiato porém compassivo. Como a narradora do conto Silêncio, ela nunca se importou de “contar coisas horríveis para as pessoas”, desde que conseguisse “torná-las engraçadas”. No mais das vezes, pateticamente engraçadas: uma festa natalina numa clínica de diálise, um exame ginecológico arduamente executado numa paciente obesa “de difícil acesso”, reuniões familiares embaraçosas. Ou mesmo cômico-grotescas, como o sutiã inflável que explode no voo de uma bela, sexy e desmiolada prima da narradora rumo à ilusão hollywoodiana. 

Emerson, organizador da coletânea, comparou o final de um dos contos (Desgarrados) a uma balada de Janis Joplin. Também evitando aproximar Berlin de Chekhov, Carver e Yates, a crítica Ruth Franklin preferiu outro parâmetro musical: “Seus contos são como as histórias que certo tipo de mulher conta numa canção de Tom Waitts a um estranho com quem passou a noite enchendo a cara num estacionamento de carro.” 

Narradas preferencialmente na primeira pessoa, de repente substituída por uma segunda voz ou uma voz neutra, sem marcas de transição e notável economia de recursos, Berlin tem um domínio espantoso da linguagem ficcional, da dose certa de lirismo e irreverência. Suas imagens e metáforas (motoqueiros que passam em fila “feito uma rabiola de pipa”, um jóquei que dá mais trabalho para ser despido que as moças de quimono num romance de Yukio Mishima, a dificuldade de captar a longa sensação de vazio dos domingos: “nada de correio, roncos distantes de cortadores de gramas, o desamparo”) são tão surpreendentes quanto os seus diálogos. E suas observações:“Cheiros ruins podem ser agradáveis”; “Solidão é um conceito anglo-saxão” (inexistente no México, explica e dá detalhes na frase seguinte); “As faxineiras sabem de tudo” (e fazem muito bem em furtar pequenos objetos das patroas); “A maioria das mulheres americanas se sente muito desconfortável com o fato de ter criados” (e não sabe o que fazer na presença deles).

Não bastasse, Berlin, que morreu de câncer no dia em que completava 68 anos, era uma mulher muito bonita, de impressionantes olhos azuis, a cara da Elizabeth Taylor, a atriz, não a escritora britânica.

Manual da Faxineira

Autora: Lucia Berlin

Tradução: Sonia Moreira

Editora: Companhia das Letras

536 páginas

R$ 64,90

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