Werther | ESTADÃO CONTEÚDO
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Com canal no YouTube, Lorena, 12 anos, mostra força (e leveza) na luta contra o câncer

Prestes a lançar um livro com sua história, a youtuber Lorena, de 12 anos, afirma que o pior das sessões de quimioterapia é não ter sinal de Wi-Fi no hospital. A menina também conta como o câncer mudou o seu jeito de ver a vida e faz planos para o futuro. “Quero brincar de pula-pula”, fala

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2016 | 16h00

 

Gilberto Amendola

Hora do almoço e Lorena ainda está dormindo. A menina passou a noite vendo séries na Netflix – principalmente aquelas de suspense e terror. A mãe tenta acordá-la, avisando que o moço do jornal está esperando. Ouve-se um resmungo de criança com sono. O moço do jornal arrisca um “não precisa...”, mas Fiorella tira a filha da cama com um abraço, pegando-a no colo.

Em pouco tempo, eis que Lorena está na sala, já acomodada na cadeira de rodas que tem usado desde o início do tratamento. Fiorella Reginato, a mãe, pede licença e diz que vai escovar os dentes da filha lá mesmo. “A cadeira não passa pela porta do banheiro”, avisa. O moço do jornal não sabe se deve ou não estar ali, intrometendo-se em um momento tão íntimo. Felizmente, Lorena não se importa. A menina não tem nenhum compromisso com a ‘cerimônia’ e a ‘gravidade’ que o câncer costuma impor. Ela só tem 12 anos.

Lorena já participou de programas de TV, já esteve em páginas de jornais e sites. Ela é estrela e proprietária de um canal de YouTube, a Careca TV – com cerca de 3 milhões de inscritos. Agora, ela também está prestes a ver sua história virar livro (O Sonho de Lorena, Ed. Universo dos Livros). “Eu tive um canal de YouTube antes do câncer. Era um canal sobre skate. Só tinha 50 inscritos, mas eu sempre gostei de skate”, conta. “Agora, quando fiz a Careca TV, as pessoas se interessaram bastante. Acho que serviu de inspiração, serviu para as pessoas descobrirem que elas não estão sozinhas. Espero que o livro tenha essa mesma força”, diz Lorena com uma voz que ainda sai fraquinha e instável.

Foi no ano passado – parece ontem – que Lorena começou a emagrecer, ter dores de cabeça e náuseas com uma certa frequência. “Meu pai, que é neurologista, desconfiou que podia ser algo mais sério. Corremos para o hospital. Ela foi diagnosticada com um tumor no cérebro”, conta Fiorella.

A família e os próprios médicos começaram a tentar explicar para a menina o que ela tinha, chegou-se então a imagem da bolinha de tênis no cérebro – bolinha que seria retirada tão logo a cirurgia acontecesse. Lorena diz que ficou imaginando a tal da bolinha quicando na sua cabeça. Quando os médicos, jeitosos e cheios de mesuras, foram conversar com ela, ouviram um ousado “tá, né, bolinha...”

O câncer foi diagnosticado logo depois de uma ressonância magnética. Começaram então as sessões de radioterapia, quimioterapia... “Não me falavam em câncer, não usavam essa palavra, mas eu via que o hospital era um hospital de câncer. Aí eu perguntei, insisti, e minha mãe teve que me contar”, lembra. Ciente da própria situação, Lorena repetiu: “Tá, né, então, é câncer mesmo”.

O moço do jornal agora espera Lorena almoçar. Não quer falar de câncer durante a refeição da menina e fica procurando amenidades. Pergunta se ela gosta de feijoada (tem feijão preto no almoço). Ela diz que “sim”, mas que prefere lasanha. “Ah, igual o Garfield”, diz o moço do jornal. Ela sabe do que se trata, mas não é da época dela. Deliberadamente tentando escapulir do tema daquela visita, o moço do jornal repara em uma caneca com o distintivo do Palmeiras e faz a pergunta mais óbvia. “Sim, sou Palmeirense. A família inteira é. Mas não ligo muito. Gosto mesmo é de videogame”, responde. Lorena, então, começa a listar os seus jogos preferidos. “Minecraft, conhece?” – pergunta Lorena como quem devolve o Garfield na mesma moeda.

Minecraft é um jogo aberto, feito de tijolinhos virtuais (blocos) que são usando para a construção de mundos e mais mundos. Talvez, só talvez, através do tal Minecraft o moço do jornal pudesse encontrar a válvula de escape de Lorena, a distração que faz com que ela enfrente o câncer com mais coragem e... “Gosto do jogo porque ele exige muita imaginação e criatividade. Minha mãe diz que eu sou meio ‘Rita’, que sou meio ‘ritardada’”, gargalha Lorena.

Vamos falar de câncer então, vamos falar de químio, da queda de cabelo e daquilo que Lorena considera o mais chato. “Não tem sinal de Wi-Fi no hospital. A televisão está quebrada, o ar-condicionado está quebrado e sem Wi-Fi não tem o que fazer. Ainda bem que eu aprendi a rotear o sinal do celular da minha mãe”, avisa Lorena – pedindo providências em relação ao Wi-Fi do hospital. Ah, às vezes, a menina leva um livro com ela. “Gosto de livros que tenham a minha linguagem, nada de Monteiro Lobato.”

Fiorella conta que, durante o processo de recuperação, teve medo que a filha sofresse com a nova, mesmo que temporária, condição física. “Ela sempre foi uma menina muita ativa, rueira mesmo! Imagina que tinha um pessoal que chamava ela de pequeno Bin Laden porque ela adorava estourar essas bombinhas de Festa Junina, gostava de andar de skate... Tinha essa liberdade de quem é do interior (Lorena e família moram em Jaú, cerca de 300 quilômetros de São Paulo).”

Mas Lorena sempre pareceu consciente do que precisava ser feito para vencer o câncer. “Depois, com a químio, minha preocupação começou a ser a questão da vaidade. Deve ser difícil para uma menina perder os cabelos – principalmente nessa fase da vida”, comenta Fiorella. Mas o que ninguém podia supor é que Lorena fosse gostar da careca, se achar bonita e confortável com o novo visual. “Quando tudo isso acabar, quero ter o cabelo curtinho”, comenta. O moço do jornal faz mais uma das suas e lembra de como era bonita a Sinead O’Connor em início de carreira. Claro, a menção a Sinead teve ainda menos efeito que o Garfield. De novo, Lorena só tem 12 anos e diz que, em termos de música, gosta de um rapper chamado Projota – que o moço do jornal precisou do Google para saber quem era.

Assim, um dia, sem grilos com a careca, Lorena reavivou seu desejo de ter uma canal no YouTube. O skate ficou para o futuro, agora seria um canal sobre a vida dela, o cotidiano dela e, claro, videogame. Em seu vídeo de estreia, que já tem mais de 2 milhões de visualizações, ela tira a touca e sentencia: “Eu sou careca. Olha que careca linda”. Pronto, o sucesso foi imediato. No início, Lorena chegou a dizer que “morreria de emoção” com tanta acolhida, mas foi repreendida pela mãe: “Não, senhora, você não morreu de câncer e nem vai morrer de emoção”.

Com o sucesso do vídeo, Lorena começou a ser chamada para aparecer em programas de TV, dar entrevistas e se transformar em uma espécie de celebridade no próprio hospital. “Os pacientes e os médicos gostam de falar comigo. Perguntam se eu sou a careca do YouTube, querem saber como eu estou e como é ser famosa”, fala a menina. “Um dia, uma senhora já bem velhinha disse que eu era um exemplo pra ela continuar lutando”, completa. O sucesso também trouxe alguns percalços. “Às vezes, eu estou almoçando, comendo um lanche e vem alguém pedindo para tirar uma selfie. Poxa, aí aparece essas fotos em que eu tenho um pedaço de frango no dente”, diz.

Um pouco mais sério do que aquele frango caprichoso pendurado nos dentes da frente, foi a reação de alguns internautas. Lorena começou a receber mensagens de pessoas acusando-a de usar a própria doença para ganhar coisas, acusando-a de se promover “em cima do câncer”. Ela chegou a ter o seu canal do YouTube ‘derrubado’ por algum hacker mais exaltado e equivocado. “A internet tem disso, sempre vai ter uma parcela que vai reclamar”, comenta.

Lorena conta que, quando o câncer aconteceu na vida dela, a primeira reação foi mesmo a de revolta. “Quando eu vou voltar a andar? Quando eu vou voltar para escola? Quando... A gente tem que ter bastante paciência. A gente não tem que ter medo. A gente tem que enfrentar o câncer de cabeça erguida”, diz. Embora a casa de Lorena tenha muitos elementos religiosos, a menina se diz tranquila em relação à Deus. “Eu rezo do meu jeito. Não fico falando Deus e óóó...”. Mas, em momentos de intimidade, ela se permite questionar o universo: “Eu questiono porque esse tipo de coisa acontece com crianças. A gente não fez nada. Tive um amiguinho de 7 anos que morreu no hospital. Dá uma dó. Peço a Deus que deixe as crianças crescerem um pouco...”

O moço do jornal quer mudar de assunto, falar do futuro. Lorena, então, conta de um sonho recorrente, um sonho em que ela, a mãe, a irmã Larissa (15 anos) e Raj (o cachorro da família) estão em um gramado verdinho. Ela está sem cadeira de rodas e as três jogam Frisbee. Lorena também conta que, tão logo tenha forças suficiente para andar, “vai brincar muito em um pula-pula”. No mais, para o futuro mais distante, diz que pretende estudar para ser dentista. “Isso é hoje, né! Eu já quis ser cantora, bióloga, cientista...”

Para além das mudanças físicas, Lorena tem passado por outras transformações. Ao mostrar um buraco no vidro da janela da sala, ela conta: “Tá vendo aquilo? Aquilo foi uma bateria que eu atirei na minha irmã. A gente brigava o tempo inteiro. Hoje, nós somos as melhores amigas”.

A mãe mostra-se orgulhosa, diz que a filha é uma guerreira e que sempre foi desse jeito. “Teve uma vez que...”, começa a contar Fiorella. “Não, não, essa história de novo, mãe!”, reclama Lorena. Fiorella continua: “Ela era bem pequena, tinha uns 4 anos, e viu a irmã chorando porque havia pedido para o dono de uma cantina um rissole de calabresa, mas o homem entregou um rissole de queijo e presunto”. Então, segundo Fiorella, Lorena teria pegado o rissole da mão da irmã e ido ela mesma, por iniciativa própria, exigir o rissole certo.

A expectativa é que as sessões de quimioterapia terminem no mês de outubro, no mesmo mês em que ela completará 13 anos, mês em que ela quer, e vai, exigir o que é dela por direito – como um dia fez com o rissole da irmã.

 

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