Sony Pitures/Divulgação
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Com o que sonham os androides?

'Blade Runner 2049' expande franquia com retorno de Harrison Ford e novo protagonista

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

 

Pouco foi revelado sobre a sequência de O Caçador de Androides, Blade Runner 2049, nova produção cinematográfica de Ridley Scott, que dirigiu a versão original. Apenas um trailer e fotos de cena indicam o que virá na franquia. O novo filme, que deve estrear no Brasil em 5 de outubro, se passa três décadas após o antecessor e retrata a busca do policial K (Ryan Gosling) pelo veterano Rick Deckard (Harrison Ford) para evitar a degradação de uma sociedade já degenerada. Quem responde pela sequência é o diretor Denis Villeneuve, que empreendeu outros esforços na ficção científica com Sicario: Terra de Ninguém e A Chegada

Assim como o primeiro filme, de 1982, Blade Runner 2049 busca inspiração no universo ficcional criado pelo escritor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982). Quanto mais tempo se passa desde a publicação de Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (1968), mais atual ele se revela e maior é o arrebatamento gerado a cada releitura. O livro é ambientado em uma Terra esfacelada pela crescente ameaça da radiação. Nesse mundo, não possuir um animal de estimação é visto com maus olhos pela sociedade – que ajudou a extinguir a maior parte deles. Quem não tem condições de arcar com os custos de um bicho real, compra um equivalente elétrico. 

Na trama, o policial e caçador de recompensas Rick Deckard é encarregado de eliminar androides que escaparam de colônias em outros planetas e se infiltraram entre os terráqueos. Os perseguidos modelos Nexus-6 são indistinguíveis de um ser humano a não ser pelo teste Voight-Kampff, que verifica a empatia do indivíduo em relação a outras pessoas – teste, aliás, colocado em dúvida diversas vezes no romance. Esse exame, assim como muitos elementos do universo de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, não está longe da realidade. O matemático e pai da computação Alan Turing (1912-1954) formulou o jogo da imitação, teste aceito até hoje pela comunidade científica para identificar seres humanos e inteligências artificiais.

Lançando as bases para o cyberpunk, subgênero da ficção especulativa que viria a consagrar autores como William Gibson (Neuromancer, Mona Lisa Overdrive, Count Zero), Masamune Shirow (Ghost in the Shell, Appleseed) e Bruce Sterling (Islands on the Net), o livro de Philip K. Dick se utiliza do sombrio cenário pós-industrial para tratar de tópicos como vigilância, meio ambiente e identidade humana. Tudo isso sob a óptica das inovações tecnológicas iniciadas no século 20, que evoluíram e abarcam cada vez mais setores da sociedade. 

Quase meio século depois da publicação do livro de Dick, estamos cada vez mais próximos do futuro imaginado por ele, com assistentes pessoais e inteligências artificiais responsáveis por tarefas complexas, entre elas diagnósticos clínicos e condução de veículos. Basta notar que hoje o cidadão médio tem ao alcance de seu bolso mais poder computacional que a máquina que venceu o então campeão mundial Garry Kasparov em um duelo de xadrez em 1997 e até mesmo que os computadores que a Nasa tinham em 1969, quando levou o homem à Lua.

Androides — ou replicantes, no caso do filme — sempre foram um tema caro à ficção científica desde que debutaram nos anos 1920 na então Checoslováquia, na peça A Fábrica de Robôs, de Karel Capek. O termo “robô” foi cunhado pelo irmão do autor, Josef Capek, e remete a idiomas do leste europeu, como o polonês e o checo, nos quais significa algo como “trabalho forçado”, em tradução livre. Philip K. Dick traça um universo em que os androides são utilizados como escravos nas colônias extraterrestres e se refugiam em nosso planeta em busca de uma vida normal, disfarçados como seres humanos.

Enquanto autores como Isaac Asimov (As Cavernas de Aço, O Sol Desvelado, Os Robôs do Amanhecer) se preocuparam em discutir questões mais imediatas da introdução desses seres autômatos na sociedade, como a substituição de trabalhadores de carne e osso por máquinas e o desemprego em massa que isso potencialmente geraria, Philip K. Dick eleva o debate para um campo mais abstrato ao fazer o protagonista se questionar repetidas vezes quanto à legitimidade de sua própria humanidade enquanto aplica testes de empatia para desmascarar replicantes. 

Não é novidade para internautas passar por testes para garantir que são seres humanos. Qualquer serviço online verifica isso por meio de provas simples, os “captcha”, sendo que alguns sites perguntam com todas as letras: “Você é um robô?” Essa indagação é repetida pelos leitores e espectadores da obra a cada instante em que Rick Deckard se vê nessa mesma situação. O debate sobre a humanidade ou não do protagonista esbarra na questão da senciência das máquinas. 

A partir do momento em que os androides fogem do sofrimento nas colônias em busca da liberdade, Dick nos coloca em um beco sem saída quanto ao que se deve fazer do ponto de vista ético em relação aos replicantes. Em um mundo no qual somos cada vez mais ciborgues e menos humanos, é difícil manter-se indiferente a um clássico da literatura que questiona a identidade de cada um e alardeia um transumanismo sem precedentes. Resta saber como Blade Runner 2049 se sairá expandindo esse universo.

 

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