Como a busca por ETs influenciou a cultura e o debate científico

Como a busca por ETs influenciou a cultura e o debate científico

Cientistas da Nasa e do Ceti e filmes de Zemeckis e Spielberg tratam do problema do contato com alienígenas

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2017 | 16h00

Os flagelos continuam. Nada parece dar certo no planeta. Há dias um descomunal pedaço da Antártica, medindo quatro vezes a cidade de São Paulo, foi embora. Horas antes dois pesquisadores em astrobiologia da Universidade de Edimburgo (Escócia) reduziram ainda mais as possibilidades de trocarmos a Terra por Marte. “É um planeta bem mais inóspito do que acreditávamos”, revelou a dupla de cientistas, ao cabo de uma longa investigação. E soltou a bomba: “Sua superfície contém um coquetel tóxico de produtos químicos que podem destruir qualquer organismo vivo”.

Complicou para a Nasa, que há oito meses mantém seis pessoas num vulcão do Havaí como parte de um programa de adaptação de humanos à vida em Marte. E também para aquela agência de viagem americana que talvez tenha se precipitado além da conta ao oferecer reservas para os primeiros voos turísticos ao “Planeta Vermelho”, programados para o próximo decênio. 

Eliminado Marte de nossa rota de fuga, como ficamos? Fugimos para Zyra? 

Zyra, lamento informar, só existia naquele velho filme de ficção-científica entre nós lançado com o título de O Fim do Mundo, em cujo desfecho um contingente de sortudos embarcava a tempo numa grande nave espacial, para descer num paraíso kitsch, bem longe de nosso mofino planeta. 

Por alguns eclipses mais continuaremos aqui, acompanhando in loco o aquecimento global, pesquisando exílios alternativos no espaço sideral, vasculhando o céu atrás de objetos voadores não identificados e tentando, como o vate parnasiano, ouvir estrelas. Com as desilusões de sempre. 

Faz este mês 70 anos que um suposto disco voador caiu em Roswell (Novo México) e um de seus tripulantes foi morto, fotografado e supostamente “desaparecido” pelo FBI. O Caso Roswell, inspiração de uma das mais ferrenhas teorias conspiratórias de todos os tempos e da série Arquivo X, até hoje intriga ufólogos, esses evangélicos da vida extraterrestre, que este ano ainda dispõem de outra data redonda (os 40 anos da estreia de Contatos Imediatos do Terceiro Grau) para azucrinar mais uma vez o FBI, que uma vez mais dirá que tudo não passou de uma falácia. 

Enquanto a Nasa se desdobra para fixar bandeiras e colônias em planetas vizinhos, astrocientistas insistem em buscar diálogo com seres extraterrenos com a mesma obstinação de Roy Neary, o personagem de Richard Dreyfuss no filme de Stephen Spielberg. Com mais recursos, porém menos sorte. Ou melhor, sorte nenhuma. Desde novembro de 1974, quando se descerrou o mais potente radiotelescópio do mundo em Arecibo, na floresta tropical de Porto Rico, que astrônomos do mundo inteiro tentam dialogar com inteligências de outros pontos do sistema solar, e até agora, nada. 

Por sugestão do astrônomo Frank Drake, uma mensagem com pouco menos de três minutos de duração foi enviada ao espaço, à espera de um alô. Eram palavras convertidas em som, como as cinco notas de Contatos Imediatos. Em questão de dias, o astrônomo real britânico Martin Ryle esbravejou. Para ele, ao chamarmos a atenção do cosmo para nossa existência nos arriscávamos a enfrentar uma catástrofe, vale dizer, a uma invasão da Terra por extraterrestres. Professor Ryle não foi uma voz solitária. Também contra a mensagem ficaram Stephen Hawking e o magnata sul-africano Elon Musk, com os mesmos argumentos de quem viu muitos disaster movies de ficção científica. 

O saudoso astrofísico Carl Sagan na certa teria apoiado a iniciativa do dr. Drake, até porque, como estudioso de exobiologia (ciência que estuda como ambientes extraterrestres podem afetar os organismos vivos e também as possibilidades de vida em outros mundos), acreditava ser factível estabelecer algum tipo de relacionamento com ETs. Outro não era o tema de seu romance Contato, publicado em 1985, que também virou filme, com Jodie Foster no papel de uma pesquisadora do Instituto Seti (Search for Extraterrestrial Intelligence) cujas tentativas de conexão afinal davam certo. 

O Seti existe na vida real. Fruto da famosa reunião em Arecibo, é um organismo sem fins lucrativos que supervisiona uma rede de telescópios e computadores de olhos e ouvidos permanentemente atentos ao que se passa na galáxia. Dele surgiu, recentemente, o Meti (Messaging Extraterrestrial Intelligence), grupo interdisciplinar de cientistas e cosmólogos amadores dirigido por um trânsfuga do primeiro, o Dr. Douglas Vakoch. Se bem entendi, ele deixou o Seti por discordar de sua desmedida ênfase na recepção. Com esta justificativa: “Precisamos enviar mais mensagens do que esperar respostas”. E prometeu mais “garrafas ao mar espacial” para 2018.

Dada a lentidão reptiliana com que as mensagens se deslocam no cosmo, os alienígenas do romance de Sagan nos descobriam com quase 50 anos de atraso, através de velhas imagens de atualidades e programas de TV. Muitas delas assustadoras, com os discursos de Hitler nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, e trechos da inquisição macarthista correndo solta em Washington. 

Martin Ryle e Stephen Hawking não têm o que temer. Assustado com Donald Trump e o que aqui vem ocorrendo, talvez nenhum ET se anime a nos conhecer de perto. Esta, aliás, é uma das teses mais desconcertantes do livro Aliens: The World’s Leading Scientists on the Search for Extraterrestrial Life, editado por Jim Al-Khalili e publicado em maio pela Picador. Ninguém quer saber da gente no resto do universo.   

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