Como a gripe espanhola mudou o mundo há cem anos

Como a gripe espanhola mudou o mundo há cem anos

Artistas como Gustav Klimt, Egon Schiele e Apollinaire foram vitimados pela epidemia

Sérgio Augusto , O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2017 | 16h00

A guerra que prometera acabar com todas as guerras encaminhava-se já para o seu quarto ano de morticínio na Europa quando uma epidemia de gripe passou a disputar com ela as manchetes do mundo inteiro. Relativamente branda no início e com a estranha característica de atingir mais jovens saudáveis que crianças e idosos, a “febre dos três dias”, como de imediato foi batizada na cidade basca de San Sebastián, no norte da Espanha, onde surgiu, em fevereiro de 1918, entraria para os anais da medicina e dos flagelos mundiais com o nome de “gripe espanhola”.

Em seu segundo mês de estragos, com quase toda a Espanha de cama, inclusive o rei Afonso 13, ela atravessou a fronteira com a França e assolou as tropas francesas e britânicas estacionadas na região, dali expandindo-se para os demais países europeus, até atingir a Ásia e a América do Norte. Ainda em fevereiro, ceifara seu primeiro VIP: o pintor vienense Gustav Klimt, que já estava contaminado quando um AVC deu-lhe o golpe de misericórdia. Com a chegada da primavera ao Hemisfério Norte, a misteriosa moléstia arrefeceu seu ímpeto, para voltar com triplicada fúria no outono e inverno, sem respeitar meridianos e fronteiras. A epidemia tornara-se pandemia.

Em dois anos, a gripe, propagada pela soldadesca e sem medicamentos que a prevenissem e combatessem eficazmente, infectou uma em cada três pessoas (ou 500 milhões de seres humanos) e matou entre 50 e 100 milhões de pessoas, ou seja, de 2.5% a 5% da população mundial, números apocalípticos, superiores ao total de 17 milhões de óbitos registrados nos quatro anos de guerra. 

O conflito armado se circunscrevera à Europa e parte do Oriente Médio, a devastadora influenza faria vítimas em praticamente todas as famílias do planeta. “Milhões de tragédias discretas e privadas”, na sucinta descrição de Laura Spinney, autora do mais recente estudo sobre a pandemia e sua influência no mundo, Pale Rider: The Spanish Flu of 1918 and How It Change the World. Em tempo: Pale Rider é o quarto cavaleiro do Apocalipse, a Morte.

Doença tão ou mais atroz, só nas memórias de contemporâneos da Peste Negra, no século 14. Os pulmões, inchados de muco, explodiam sangue, a pele ficava arroxeada, os pés enegreciam – era como um afogamento sem água. Gente morria por todo canto, em quantidades industriais. Logo faltaram caixões e os corpos tiveram de ser estocados em necrotérios improvisados ou mesmo empilhados nas ruas e depois enterrados em imensas covas coletivas – uma grotesquerie medieval. A ciência que precipitara o modernismo e criara poderosas máquinas de guerra não sabia como enfrentar a influenza mais tinhosa de todos os tempos.

Os espanhóis chegaram a chegaram a chamá-la de “Nápoles” e “Perigo Alemão”. Os alemães apelidaram-na de “febre de Flandres”, sendo que o general Luddendorff, comandante das forças do Kaiser, apontou a China como epicentro da pestilência (por conta de um surto de peste bubônica naquele país, oito anos antes). Como na Espanha, país neutro durante a guerra, as informações circulavam sem interferência dos militares, as notícias sobre a pandemia de lá vazavam em profusão, consolidando a crença de que a gripe era mesmo tão espanhola quanto a paella e as touradas.

O mundo moderno não nasceu apenas dos escombros da 1.ª Guerra, mas também dos monturos de cadáveres apodrecidos pela ação de um vírus que só seria isolado em laboratório 87 anos mais tarde. Spinney atribui em parte à gripe espanhola a súbita mudança do curso da guerra, a independência da Índia, o apartheid na África do Sul, e também mudanças positivas como o incentivo aos serviços de saúde pública e à medicina alternativa, e o estímulo à prática de esportes e à vida ao ar livre. De certo modo, até a crença na purificação do corpo por meio de exercícios físicos, preconizada pelo nazismo, foi uma contribuição involuntariamente perversa da pandemia de 18.

Além de Klimt, morreram com a gripe o também pintor austríaco Egon Schiele, o poeta francês Guillaume Apollinaire, o poeta e dramaturgo francês Edmond Rostand e o sociólogo e economista alemão Max Weber. Entre as celebridades que lograram sobreviver à doença, várias estrelas do cinema (Greta Garbo, Lillian Gish, Walt Disney, Mary Pickford), os escritores Franz Kafka e Katherine Ann Porter, os artistas plásticos Edvard Munch e Georgia O’Keefe, o então presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson, o futuro presidente americano Franklin Roosevelt, o imperador da Alemanha Guilherme II, o primeiro-ministro britânico David Lloyd George, o imperador da Etiópia Haile Selassie, e pelo menos três dos mais importantes pensadores europeus do século passado: Walter Benjamin, Robert Graves e Friedrich Hayek.

Ao Brasil as primeiras notícias da gripe chegaram em meados de agosto de 1918 e tiveram tratamento anedótico da imprensa e uma resposta irresponsável dos serviços de saúde pública. Para pressionar o país a entrar na guerra, a revista A Careta levantou a suspeita de que os alemães haviam criado e engarrafado a doença, espalhando as garrafas ao longo das costas dos países aliados. Nem depois que uma missão médica da Marinha Brasileira, a caminho da Europa, foi atingida pelo vírus, as autoridades do Rio, capital da República, preocuparam-se em montar estratégias de combate à enfermidade e acalmar a população ainda traumatizada pelas medidas sanitaristas da Revolta da Vacina, 14 anos antes. 

Com instituições de saúde vergonhosamente precárias, não demos nem para a saída. Das 600 mil pessoas infectadas no Rio (66% da população), cerca de 15 mil pessoas tiveram o mesmo fim do recém-eleito presidente Rodrigues Alves, morto pela gripe do século antes de tomar posse de seu segundo mandato. 

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