Como a internet influencia o teatro?

Como a internet influencia o teatro?

'Netflix do teatro' e peça sobre escritora e blogueiro questionam a relação entre a arte e o mundo digital

Fabiana Seragusa*, Colaboração para o Estado

22 Julho 2017 | 16h00

A revolução que a internet já provocou no mercado de entretenimento do mundo todo, fazendo com que os segmentos literários, musicais e cinematográficos fossem forçados a adequar seus produtos aos novos formatos digitais, parece ter chegado com pouca força ao meio teatral. 

É claro que alguns espetáculos passaram a utilizar recursos tecnológicos em suas apresentações, inclusive em casos nos quais a plateia participa ativamente via aplicativos, mas as peças, de modo geral, mantêm o mesmo modus operandi desde sempre, como na época pré-web. Além da modesta influência no conteúdo, o fato de a essência do teatro ser exatamente o encontro ao vivo entre atores e público faz com que a competição com uma versão similar online seja ainda mais difícil.

Na montagem Estranhos.com, encenada neste ano em São Paulo e no Rio de Janeiro, Deborah Evelyn e Johnny Massaro retratam um relacionamento amoroso que ganha forma em meio a discussões sobre o tradicional e o digital: ela é uma escritora cujo livro de estreia, elogiado pela crítica, foi um fracasso de vendas; ele, um jovem e descolado blogueiro que faz estrondoso sucesso nas redes sociais publicando obras nas quais descreve suas experiências sexuais. Idealizada pela autora norte-americana Laura Eason, roteirista da série House of Cards (Netflix), a peça questiona a simbiose inevitável entre o mundo real e virtual no segmento cultural e mostra como é difícil fugir – caso essa seja a intenção – do aparato digital que nos cerca. 

Johnny, que está em O Filme da Minha Vida, concorda que, quando a discussão migra para a arte cênica, o quadro muda. “Me parece que o teatro sofre uma interferência menos direta do digital, já que na sua gênese é aquilo que acontece naquele momento no tempo e espaço”, afirma. “Mas tudo influencia tudo, e o teatro, vivo como é, não ficaria de fora”, diz referindo-se à internet na pesquisa para a idealização e divulgação dos espetáculos. 

Deborah, que também atua na montagem, destaca que agora dá para se programar melhor e comprar ingressos online para espetáculos que estejam em cartaz em outras cidades ou países. “E você também pode saber o que se falou sobre a peça, pode dar sua opinião. É um canal muito bom de divulgação, de troca de ideias, de críticas”, opina a atriz, que ressalta o lado negativo caso essa liberdade tecnológica seja usada de maneira abusiva. "Às vezes, as pessoas se aproveitam desse anonimato para falar coisas que talvez não tivessem coragem de falar na sua própria persona.”

Se é cada vez mais normal ver filmes, acompanhar shows ou ler livros direto da tela do celular ou do computador, por que não exibir espetáculos teatrais também nestas plataformas? O site Cennarium investe nesse segmento desde 2010, ano em que foi idealizado por Harry Fernandes, com o objetivo de democratizar o acesso às artes cênicas. O catálogo conta com centenas de espetáculos nacionais e internacionais em versões online, sempre com um novo título por semana.

Erika Hoffgen, head de projetos e operações do site, explica que há um processo especial de gravação das peças, com uma linguagem de adaptação para o vídeo desenvolvida ao longo dos anos – e utilização de até seis câmeras. “Temos uma pauta de curadoria para analisar os espetáculos em potencial para gravação, mas também recebemos convites de companhias parceiras e de novos artistas que querem ingressar na Cennarium”, explica a profissional, que cita A Escola do Escândalo, com direção de Miguel Falabella, e Romeu e Julieta, do Grupo Galpão, como as mais vistas. 

O ator Emílio de Mello, que assina a direção de Estranhos.com, acha que esse tipo de site não disponibiliza exatamente uma peça de teatro. “Eles vendem um material audiovisual documental sobre uma peça. O fenômeno teatral só existe fisicamente, no momento em que você entra numa sala mais escura, protegida, com pessoas que têm o mesmo objetivo que você.” Ele ressalta a importância da plateia em cada sessão do espetáculo, interferindo diretamente na atuação dos artistas em cena. “Você não pode dizer que faz um safári na África vendo um documentário na National Geographic sobre safári. A emoção é muito diferente.”

Erika concorda que o teatro ao vivo é uma experiência única, mas diz que o conteúdo online pode ser uma boa opção para quem perdeu a chance de ver um espetáculo interessante em cartaz ou então quer assistir a apresentações realizadas em outras cidades. “É justamente por acreditar no potencial dessa arte que vemos a tecnologia como um meio de amplificar, valorizar e eternizar o trabalho de diversos artistas, além de incentivar cada vez mais pessoas a apreciar cultura.” Segundo a profissional, desde o final de 2016, quando a nova plataforma online e o aplicativo foram lançados, o site já obteve cerca de 3 mil cadastros (que dão direito a um mês grátis) e mil vendas de assinaturas. “Nossa expectativa é atingir 20 mil assinantes nos próximos dois anos.”

*Fabiana Seragusa é jornalista e roteirista, escreve sobre teatro há nove anos. É uma das idealizadoras do site de entretenimento 'Culturice'

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