Como o teatro pode nos salvar da desumanização do mundo digital

Como o teatro pode nos salvar da desumanização do mundo digital

Dramaturgo vencedor do Pulitzer fala sobre a capacidade do teatro de nos fazer resgatar lembranças humanas primordiais

Ayad Akhtar, The New York Times

06 Janeiro 2018 | 16h00

Soube que um grupo de neurocientistas descobriu que o teatro pode pôr em sincronia os batimentos cardíacos de uma plateia. Um dos pesquisadores explicou assim: “Uma representação teatral leva de tal modo à superação das diferenças entre os espectadores que chega a produzir uma experiência psicológica comum”. 

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A plateia é o que mais me empolga no teatro. É por ela que adoro trabalhar no teatro e por ela acredito na importância de nossa amada arte. 

Mas devo dizer: não espero muito do ponto a que chegamos como nação ou (se não for presunção demais) como espécie. Não espero porque estou cada vez mais consciente de que minha própria esperança está sendo transformada em moeda. O que tenho de mais permanente, mais nobre, mais humano – a necessidade de algo mais vivo e mais digno de se amar – está sendo usado contra mim.

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Há uns 60 anos, o presidente Dwight D. Eisenhower nos alertou para o complexo industrial-militar – uma conexão de interesses ocultos que transforma a guerra em dinheiro. Hoje não somos mais uma sociedade presa nas garras sinistras da guerra lucrativa, mas porque se investe mais na mercantilização de nossa atenção do que na guerra. 

Assim, uma nova conexão de interesses ocultos tomou o lugar do complexo industrial-militar. Mercadores de atenção – Google, Facebook, Twitter, Apple, etc. – juntaram-se às avançadas tecnologias das finanças no que poderíamos chamar de “complexo financeiro-atentivo”. 

Ele nos fornece dispositivos aos quais ficamos atados mais que por compulsão. Nosso princípio do prazer – que há muito é presa das manipulações do capitalismo – foi voltado contra nós, irrecuperavelmente ligado a objetivos que não são os nossos e nem mesmo entendemos muito bem. 

Traduzida em temas financeiros, nossa humanidade está sendo redefinida. Só valemos na medida em que nosso comportamento econômico pode ser previsto e monetizado. A tecnologia possibilitou que as nuances de nossa mente se tornassem uma inesgotável fonte de lucro para alguém, em algum lugar. 

De algum modo, vendem-nos a ideia de que essa redução do mundo a fluxos de informação monetizada seria, na verdade, uma forma de libertação. Representaria uma nova era nas comunicações humanas. Seria uma vitória da democracia sobre o poder centralizado. Para mim, isso lembra os memes com mensagens de esperança divulgados pelas mesmas plataformas que pretendem legitimar. 

A grande fratura que começou há mais de 30 anos – o colapso de uma visão de bem-estar coletivo – finalmente se completou. Somos pouco mais que números de computador numa sociedade que nem pode mais ser definida como tal – é apenas mercado, nada mais que a soma do que é vendido e comprado. 

Sim, é uma visão sombria. No entanto, esse pessimismo deve também ser visto como uma espécie de defesa. Minha defesa contra a colonização financeira de meus desejos e esperanças. O que me leva ao outro lado da equação – o ator.

Diante da plateia, ele vive uma relação não intermediada por uma tela desmembradora. Não vive a aparência de uma pessoa, mas a realidade de uma. Não vive um simulacro de relacionamento, mas uma forma de relacionamento verdadeiro. 

O teatro é uma forma de arte talhada para o humano, que depende absolutamente de uma plateia física, o que o torna tão difícil de ser comercializado. Só existe ao vivo. 

Uma vez que começa, não pode ser interrompido. Não existe para ser retaliado e transportado segundo a vontade do consumidor. Não pode ser copiado e vendido. Num mundo cada vez mais perdido na virtualidade e na irrealidade, o teatro surge como um antídoto. 

Um ator em carne e osso diante de uma plateia ao vivo. A situação de todas as peças, uma condição que pode despertar em nós uma lembrança de alguma coisa mais primordial, rituais religiosos – o lugar de nossas mais antigas negociações coletivas com nossa tremenda vulnerabilidade existencial. O gesto de se reunir para testemunhar os mitos de nossas supostas origens representados – essa é a raiz da mágica atemporal do teatro. 

Porque, gostemos ou não de admitir, nós, animais sociais em manadas, somos programados em algum nível muito profundo a pensar e sentir como uma unidade. Para mim, é por isso que a grande mentira do individualismo americano – que a minha experiência é a coisa mais importante e deveria ser protegida e garantida a qualquer custo – é um pensamento tão pernicioso. Não é realmente verdadeiro em relação ao que nós somos de fato. 

Mas o teatro é – em sua essência.

Na verdade, sua melhor parte é nos levar à experiência como mente única, um só coração, um só corpo. Portanto, a descoberta de que a atuação ao vivo pode sincronizar os batimentos cardíacos de uma plateia não surpreende ninguém que viva do teatro. 

Certamente não surpreende nenhum autor, diretor ou cenógrafo que tenha passado quatro semanas de pré-estreias em busca dessa sincronia. 

Essa sensação de unidade com a plateia, de perda da noção de tempo, de absorção pelo trabalho e de vibração com o sucesso dos atores é nosso antídoto diário. Por isso eu escrevo. Com isso eu sonho. E disso tiro muitas de minhas maiores esperanças. / Tradução de Roberto Muniz 

*Ayad Akhtar é o autor de 'Disgraced', espetáculo que venceu o prêmio Pulitzer de drama em 2013, e 'Junk', que estará em cartaz na Broadway a partir de amanhã, 7. Esse ensaio foi adaptado de seu discurso proferido ao aceitar o prêmio Steinberg Playwright Award em 2017. 

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