Complexo de d. Sebastião

Neymar expia a culpa pela derrota, mas as mudanças em nosso futebol não podem mais esperar, diz autor

Entrevista com

José Miguel Wisnik

Ivan Marsiglia, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2014 | 16h00

Em um trecho de Veneno Remédio - O Futebol e o Brasil (Companhia das Letras, 2008), José Miguel Wisnik bate de letra: “Em vez de dizer que o Brasil se faz reconhecer pelo seu poderio futebolístico, mas não pelas coisas de fato importantes, é o caso de reconhecer que talvez seja difícil alguma coisa ‘de fato importante’ acontecer se não formos sequer capazes de compreender o sentido da importância que o futebol ganhou no Brasil”. 

Foi com o reconhecimento dessa importância - e com um olho no lance e outro fora de campo - que o ensaísta, músico e professor de literatura da Universidade de São Paulo topou tabelar com o Aliás sobre a “inexplicável” (na visão do goleiro Julio César) derrota do Brasil para a Alemanha por 7 a 1, jogando em casa, nas semifinais da “Copa das Copas”. 

“Prefiro falar em ‘implosão’, pois ‘apagão’ sugere um acidente de percurso, um lapso momentâneo”, diz Wisnik na entrevista, com a coragem de admitir que o buraco é mais embaixo que aquele que se via no meio-campo brasileiro a cada jogo do time de Felipão. Na opinião do ensaísta, a situação de nosso esporte de afirmação cultural faz lembrar a famosa batalha de Alcácer Quibir, em 1578, durante a qual o jovem rei português d. Sebastião teria desaparecido no deserto para ter sua volta aguardada por séculos pelos portugueses. “Há um doentio complexo de d. Sebastião no futebol brasileiro”, diz. Complexo que se expressa na eterna promessa de um salvador da pátria em chuteiras que supere por mágica nossas mazelas - o atual é Neymar. Para Wisnik, passou da hora de irmos além dessa “viciosa forma mental da espera” e mexer nas estruturas esclerosadas que derrotam o país do futebol. 

A final da Copa do Brasil 2014 foi quase perfeita: a melhor seleção da escola europeia contra uma equipe sul-americana - mas não o Brasil. Por quê?

Os jogos da Copa do Mundo foram eletrizantes e empolgantes, ao contrário das duas últimas Copas, que foram tediosas, tomadas por uma paridade neutralizada que produzia uma espécie de não acontecimento. Nesta, algumas seleções menores fizeram crer que são médias, outras tradicionalmente médias fizeram crer que são grandes e algumas das tradicionalmente grandes tombaram como se fossem pequenas. Só a seleção brasileira conseguiu a proeza de fazer ao mesmo tempo o papel de muito grande, chegando às semifinais, e de muito pequena, tomando a goleada do século. 

A palavra mais usada nas avaliações desse jogo foi ‘apagão’. Concorda com ela?

Prefiro “implosão”. “Apagão” sugere uma falha de energia, um acidente de percurso, um lapso momentâneo. A comissão técnica, que se especializou na negação da evidência e da amplitude dos fatos, apega-se a essa versão. Implosão, em vez disso, significa que uma estrutura cedeu a pressões que ela não pôde mais suportar. Acho que é claramente esse o caso. Ou, pelo menos, é esse o claro enigma. Depois da agônica disputa de pênaltis com o Chile, os desabafos dos jogadores brasileiros já tinham algo de terminal, de uma prematura pressão no limite de explodir. Acho que a implosão decorre da fusão de aspectos táticos, técnicos e psicológicos. Com a contusão de Neymar e a suspensão de Thiago Silva para o jogo com a Alemanha, uma seleção à qual já faltava a espinha dorsal do meio-campo, dependente dos lançamentos dos zagueiros e de um atacante excepcional, perdeu esse e mais a ligação consolidada da dupla de zaga - as melhores coisas do time. O primeiro gol me parece ter acontecido por essa falha tática, a do desentrosamento da defesa. O segundo, por falha técnica, ligada aos altos e baixos no desempenho dos jogadores, e os outros gols já por um colapso emocional somado à falta de reação do técnico, e, claro, à alta qualidade da equipe alemã. 

Outra palavra muito repetida foi ‘vexame’, e de tal proporção que teria redimido a histórica derrota na final de 1950 para o Uruguai. 

“Vexame” dá uma inflexão moral a essa catástrofe futebolística, e quem dirá que não se trata de uma tremenda humilhação esportiva? Mas martelar a palavra soa como uma atualização do gozo regressivo da eleição do bode expiatório. Não vejo mais essa necessidade de achar nos jogadores o novo Barbosa e o novo Bigode, felizmente. E é bom que a memória desses esteja livre para sempre dos estigmas de época, quando dois jogadores negros foram vistos, nos anos 1950, um como covarde e outro como uma espécie de virgem desonrada. Agora houve, até onde vejo, identificação com os jogadores e certa compaixão na tristeza. Mas se olharmos para trás, o chamado “complexo de vira-lata” é que tem que ser visto à luz de uma complexidade nova. Enquanto tal, faz parte de um período pré-televisão, pré-tri, pré-penta, pré-tudo. O que não passou, no entanto, é a permanente espera mágica pela vitória por goleada, independente da existência do adversário, combinada com a precária análise dos dados de realidade. Esse desequilíbrio pesa sobre os jogadores. O grau da expectativa futebolístico-messiânica é altíssimo, e não é de se espantar que o time brasileiro entre em colapso em certas situações cruciais. Aliás, isso já aconteceu pelo menos três vezes: lá no Maracanazo, agora no Mineiraço, e na final de 1998 na França, depois da convulsão de Ronaldo. Não me consta que outras seleções nacionais passem pela mesma síndrome. Uma vez é um acidente. Duas, uma coincidência. Mas três é uma estrutura.

E de onde vem essa estrutura?

Essas partidas fazem pensar na batalha de Alcácer Quibir, em 1578, durante a qual, segundo relatos, o jovem rei português d. Sebastião foi tomado por estranha catatonia, antes de desaparecer no deserto e ter a sua volta aguardada durante séculos pelos portugueses. Há um doentio complexo de d. Sebastião no futebol brasileiro. É como se, além da Taça Jules Rimet, que ganhamos pelo tricampeonato, que era visível, tangível e foi derretida, já temos direito a um intangível e invisível tricampeonato da Taça Alcácer Quibir. Em 1950, a equipe, encolhida na partida final ante a enormidade do sucesso ou do fracasso inéditos, esteve paralisada abaixo do seu tamanho. Em 2014, sucumbiu ante a expectativa maciça, projetada sobre ela, por algo maior do que seu tamanho. Nos dois casos, espelhados sintomaticamente em território brasileiro, há uma resistente dificuldade de dimensionar, isto é, de encarar o real, que se junta à euforização publicitária, à cobertura da Rede Globo, aos oportunismos políticos de todo tipo e ao baixo nível médio da cultura futebolística. Tudo continua muito parecido com o ambiente que cercou a final de 1950, embora sem a mesma inocência trágica. 

Em um artigo publicado no Aliás em 2012, você considerou a escolha de Felipão, em vez de Guardiola, ‘regressiva e baseada num desejo de repetição’. O Brasil acabou vencendo a Copa das Confederações e seu diagnóstico parecia superado. Confirmou-se agora?

Olhando os movimentos da superfície, podemos dizer que em 2012 o futebol brasileiro aparecia como “um espectro à procura de si mesmo”, enquanto o País parecia navegar de vento em popa. Ao final da Copa das Confederações, o futebol brasileiro parecia navegar de vento em popa e o País é que apresentava turbulências que punham em dúvida a realização da Copa. Agora, é o futebol que naufraga, enquanto a Copa, do ponto de vista organizativo, até que salva as aparências, sem falar na imensa vocação da população brasileira para acolher e alegrar a festa. Quem embarca às cegas, o que é quase inevitável, no ritmo dessa gangorra alucinante, fica no mínimo tonto, como todos nós. E o futebol confirma sua condição de incógnita principal das ambivalências brasileiras, que se manifesta em alternâncias desencontradas dentro e fora do campo. O momento agora é o de devassar o núcleo comum em que a goleada espantosa dentro do campo aponta para os reais vexames, desigualdades e disparates que a cercam fora do campo. Era para essa formação nebulosa que as manifestações de rua do ano passado apontavam e, nesse sentido, o círculo se fecha enquanto a questão se reabre: é a própria Copa do Mundo que fala ao Brasil, como um oráculo, e com a eloquência do futebol, daquilo que os partidários do “não vai ter Copa” tentavam dizer. 

E quanto a Felipão?

José Geraldo Couto comentou justamente que sua volta ao comando da seleção atendia ao imaginário sebastianista doentio, isto é, à expectativa regressiva de que ele, e só ele, técnico do pentacampeonato, retornasse com o hexa. Scolari, ao seu estilo, animou a seleção brasileira e ganhou a Copa das Confederações com um futebol empenhado, que depois mostrou não ter um repertório de alternativas táticas e técnicas. Fazendo-lhe justiça em parte, trabalhou com o material que havia, cheio de limitações, e com jogadores importantes que caíram de rendimento no período. Mas não preparou saídas para sua duvidosa ideia fixa por um time preso à figura do centroavante, no momento de um futebol brasileiro escasso em centroavantes minimamente razoáveis. Também não soube intervir nos jogos, chegando ao ápice disso na partida da semifinal, em que não soube escalar nem substituir. Nem encarou as transformações de ponta pelas quais passou o futebol mundial de 2002 para cá. Sua obstinação em sustentar que o cartão amarelo que tirou Thiago Silva do jogo com a Alemanha era indevido trai uma sintomática recusa em encarar os mais elementares dados de realidade. Assim como negar o que aconteceu no 7 a 1. Felipão me irrita, mas não me desperta antipatia. Já Parreira me irrita e me desperta antipatia, com seu tom sentencioso, suas máximas imobilistas, a empáfia com que apresenta ideias abstratas como fatos - superando-se definitivamente ao dizer que “todos foram perfeitos, nenhum deslize; o resultado é que impactou”. Fora o fato de que assumiu o trabalho sujo, ideológico, de exaltar a CBF como o Brasil que deu certo. A CBF é uma intolerável sobrevivência mofada da ditadura. 

É preciso trocar ‘do roupeiro ao presidente’, como se publicou por aí?

Mesmo a troca de nomes “do roupeiro ao presidente” não basta como alternativa. Não tenho nada contra o roupeiro, e o que está em questão não é só a substituição de pessoas, mas a estrutura toda de funcionamento do futebol no Brasil e a precária cultura futebolística do País, em que técnicos afundam na mediocridade grosseira dos campeonatos enquanto argentinos se espalham pelo mundo dirigindo, com resultados surpreendentes, o Chile, a Colômbia, o Atlético de Madri. Já que o tabu tem que ser quebrado, o momento é de um técnico estrangeiro. Que tal então um argentino, transformado em totem? 

Você escreveu que ‘a glorificação frenética de Neymar, justificada pela excepcionalidade do jogador, disfarça uma ansiedade compensatória de fundo’. Por quê? 

Neymar está descolado do nível geral do futebol brasileiro e acho sim que sua glorificação esconde uma ansiedade compensatória de fundo. Sem ele as coisas ficam bem sem graça. Seu lugar no panorama do futebol mundial está em construção, é fascinante e inquietante se perguntar aonde vai parar. Foi cruel vê-lo sair da Copa assim. Se havia um bode expiatório potencial para o caso do fracasso, segundo a lógica sacrificial do futebol e da mentalidade brasileira, era ele. Sem querer me repetir, sua figura ferida encarnava d. Sebastião em batalha, desaparecido do campo, mas preservado misteriosamente da desgraça explícita e ocupando mais ainda o lugar mítico do Desejado. 

Falemos da Alemanha, então. Não é sugestivo que o time tenha se instalado no sul da Bahia, região onde o Brasil foi descoberto?

Os alemães adotaram uma interessante estratégia de adesão ao país da Copa, em muitos aspectos seu oposto, com praia, moqueca, samba de roda e cocar pataxó. No jogo contra o Brasil, parece evidente que evitaram redobrar a goleada e tripudiar em cima do nosso colapso. Seja por questão de elegância - como o checo que não disputou a bola com o Pelé machucado em 1962 -, seja porque passaram a se poupar para final ou não quiseram se incompatibilizar com a nossa torcida. O principal é que o futebol alemão inventou um modo de se transformar, assim como fizeram os holandeses, depois de crises. 

E a Argentina de Messi e Di María?

Ela soube vir comendo cada pedaço aos poucos, não brilhando mas se consolidando a cada passo, e chega forte para enfrentar a forte Alemanha. Quando o esforço coletivo não foi suficiente, um toque de Messi resolveu. Quando foi preciso se dedicar anonimamente ao time, Messi o fez. E sem a solidão de que padeceu Neymar. 

Entre o ‘não vai ter Copa’ e a 'Copa das Copas', qual é o balanço final do evento? 

O Brasil - torcida, mídia, opinião pública, políticos, eu e você - é um balão que infla e desinfla ao sabor dos resultados. A bola-balão ia indo para a euforia total quando furou que nem bexiga desgovernada. Isso juntou, para efeitos do Brasil, a “Copa das Copas” com o “não vai ter Copa”, impedindo que as demandas críticas fossem simplesmente engolfadas pela euforia. Nesse sentido, não houve a Copa, isto é, a da completa manipulação midiática e publicitária, mas houve a Copa das Copas, a do grande embate do Brasil consigo mesmo, que escancara formas mentais e relações de poder insustentáveis. A mesma Copa que se tornou uma extraordinária festa planetária da ferocidade com que queremos, todos, brincar e teve a felicidade de acontecer no Brasil, como reconhecem os que vieram e também os que não vieram. Um dia este país ainda vai redescobrir por que ganhou cinco Copas do Mundo. Se for além dessa viciosa forma mental da espera, que mantém as instituições esclerosadas. Desde que saiba baixar a bola. 

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José Miguel Wisnik é ensaísta, compositor e professor de Literatura Brasileira na USP

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