George Osodi/AP
George Osodi/AP

Contos de Chimamanda Adichie tiram Nigéria do estereótipo exótico

Livro 'No Seu Pescoço' reúne 12 contos da escritora nigeriana e é lançado no País

Faustino da Rocha Rodrigues*, Colaboração para o Estado

05 Agosto 2017 | 16h00

Uma adolescente de classe média, filha de professor universitário, observa a rebeldia do irmão adolescente. Ela o vê roubando a própria família, sumindo e aparecendo tempos depois, arrependido, mas não regenerado. Não, isso não é uma história do estereotipado subúrbio norte-americano. Ela se passa na Nigéria. 

Chimamanda Ngozi Adichie é conhecida das livrarias brasileiras. Pela Companhia das Letras foram lançadas obras como Hibisco Roxo, Meio Sol Amarelo e Americanah, premiados internacionalmente. A imagem da escritora está ligada ao feminismo e à sua preocupação quanto à nova dimensão da diversidade no mundo. O terreno para este debate se dá ao descrever a África que conhece. 

No Seu Pescoço, livro de contos lançado no exterior em 2009 – somente agora publicado no Brasil, pela Companhia das Letras –, retrata 12 histórias bastante distintas entre si. Porém, são 12 histórias com muito em comum. Trata-se da preocupação em não apresentar a Nigéria como exótica. E isso não é por acaso. 

Ao longo do século 20, a literatura africana tornou-se um meio de denúncia do colonialismo no continente. A configuração assumida pelas culturas tribais, alinhada aos avanços nos estudos antropológicos, verteram os olhares para o potencial de tais povos na organização de suas sociedades. Logo, interpretou-se o Ocidente colonizador como o responsável por desvirtuar as sociedades africanas. Disso veio o discurso de culpabilização pelos problemas sociais e políticos da África em sua crise humanitária. 

Essa visão não é equivocada. Contudo, a partir dela tornou-se comum a apresentação da África pelo exotismo, isto é, como contraponto da cultura ocidental, uma vez que os povos tribais, eixo das inúmeras maneiras de se retratar o continente, são vistos de modo quase simplório. Chimamanda vai muito além disso. 

Em um dos contos de No Seu Pescoço, as réplicas das máscaras de Benin – arte tribal do povo Edo, para o reino de Benin – não ganham o mesmo destaque que a solidão da nigeriana esposa abandonada pelo marido, importante empresário. Pelo contrário, está ali a afirmação da condição feminina, da mulher restrita ao lar. O dilema é vivido também pela jovem de casamento arranjado com um nigeriano médico nos EUA. Este, no esforço constante em abandonar os hábitos do país de origem, valoriza sobretudo o que se tem na América. E, progressivamente, vai-se revelando um ponto comum, observado na forma como as mulheres são tratadas tanto na Nigéria como no Novo Mundo. 

Não há espaço para o exótico. Os elementos mais comuns do cotidiano são muitas vezes tão estranhos quanto os nunca antes vistos. No conto A Historiadora Obstinada, ao relatar a vida em uma sociedade tribal, nota-se como que é a injustiça existente no interior desta sociedade que motiva a personagem a procurar os colonizadores. Não é uma relativização do domínio ocidental. O objetivo é não demonstrar total complacência quanto às culturas tribais de maneira a transformá-las em algo puramente exótico – como se fosse a marca exclusiva da África. 

Por este caminho, Chimamanda tece severas críticas à sociedade nigeriana – críticas que podem ser direcionadas a qualquer sociedade. E, ao fazê-lo, evita retratar a Nigéria através do olhar ocidental. Ela abala a confiança da classe média e média alta nigeriana – algo visível em Meio Sol Amarelo e Hibisco Roxo. E mais, demonstra como o Ocidente colonialista tem, hoje, muito em comum com os países colonizados, exibindo a tônica da igualdade não a partir das qualidades e direitos dos indivíduos, mas a partir de seus defeitos. 

Na Fliporto de 2012, o escritor moçambicano Mia Couto relatou a necessidade de exorcizar o ressentimento pela colonização – embora jamais tenha falado em esquecê-la. E é justamente nesta direção que se compreenderá, por exemplo, o embate de culturas como a muçulmana e a católica na Nigéria de Adichie – conflito este presente em um dos contos. Ambas culturas derivam da colonização. Tomar partido do discurso anticolonialista apenas fará a corda pender para um dos lados. 

A fuga de Chimamanda ao exótico não poderia, por fim, deixar de lado o feminismo. Ela escreve para que o feminismo não seja visto como exótico em uma sociedade machista. Ao narrar dois dos contos em segunda pessoa, faz a leitura fluir como um diálogo entre narradora e leitor, chamando-o para uma presença direta na vida das protagonistas. Desse modo, sugere a quem lê uma responsabilidade pelo destino da personagem. 

O artifício narrativo funciona como ferramenta para mobilizar a memória do leitor, criando-lhe familiaridade aos acontecimentos. Assim o faz Chimamanda ao retratar uma jovem imigrante nos EUA e uma outra jovem, em outro conto, em sua relação com a família – a criação pela avó na Nigéria e os pais ausentes. 

Enfim, Chimamanda foge ao exótico. Ao apresentar o comum, demonstra a complexidade das sociedades africanas por meio de seu país de origem, Nigéria – e das histórias de nigerianos emigrados. 

Eis o quão comum é o exótico. 

*Faustino da Rocha Rodrigues é jornalista e doutor em ciências sociais, pela UFJF, e pesquisador da obra de Antônio Vieira

No Seu Pescoço

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Tradução: Julia Romeu

Editora: Companhia das Letras

240 páginas

R$ 39,90

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