Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Contos de Sérgio Sant'Anna abordam desde o sexo até a autoficção

Livro mais recente do autor, 'Anjo Noturno' mostra que contista segue em grande forma

Ronaldo Bressane*, Colaboração para o Estado

28 Outubro 2017 | 16h00

Esta é uma resenha fracassada. Em busca da profundidade possível em um jornal, temperada com espertas piscadelas ao leitor, o resenhista busca condensar em cinco mil caracteres a obra do maior autor brasileiro em atividade – não conseguirá. É que há autores difíceis de enquadrar, por conta da multiplicidade de temas, focos, habilidades e ambições. Caso do carioca Sérgio Sant’Anna, 76. A prosa elegante e bem-humorada, o olho agudo para temas nebulosos e a inventividade nos moldes para ficções breves são marcas registradas desde o primeiro livro, O Sobrevivente, de 1969. Avançando no erotismo, na autoficção e no experimentalismo formal, Anjo Noturno, é o exemplar mais bem acabado de um conjunto de interesses que vem se cristalizando desde as narrativas do premiado O Voo da Madrugada, de 2003.

Um dos focos de Sant’Anna é o diálogo com outras artes, em especial a música popular, as artes plásticas e o futebol. Boleiros, pintores e músicos são recorrentes em sua escrita, como se nota nas narrativas longas O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (sobre um famoso show que nunca aconteceu, no livro homônimo), Na Boca do Túnel (protagonizado por um técnico que vê seu time perder de 7 a 1, do mesmo livro) e o tríptico Três Textos do Olhar, em O Voo da Madrugada. Neste novo livro o autor prefere a arte visual. 

Em Um Conto Límpido e Obscuro, o narrador entrelaça a memória de um caso de amor recente entre um escritor e uma artista plástica à tentativa de representar esta pintura e este caso. Em Augusta, o quadro de uma mulher nua dá corpo a um caso de amor entre personagens (inventados desde o início do texto, fique claro: a quebra da quarta parede, conceito metalinguístico brechtiano em que um texto sabe-se texto e conversa com o leitor ou espectador convidando-o a participar da invenção enquanto frui a história, é estratégia lúdica da literatura pós-moderna, usada pelo autor desde os anos 1970, marca que o distancia de autores eminentemente realistas como Dalton Trevisan e Rubem Fonseca). Pintor frustrado (todo escritor carrega a frustração por não se realizar em outras artes – tirando o Chico Buarque), Sant’Anna usa a linguagem, arte sucessiva, para dar conta de ideias simultâneas, próprias à arte visual:

“Com seus óculos de lentes brancas, é como se a mulher pintada possuísse também uma subjetividade, estivesse atenta a tudo o que se passa em torno dela, inclusive o que se fala e o que está além do apartamento.”

Memória, sexo e experimentalismo. O resenhista se frusta por não poder abarcar outra face essencial deste livro: a autoficção. Destaque nos recentes O Conto Zero e O Homem-Mulher, Sant’Anna volta-se à sua própria biografia para aclarar detalhes de amores e amizades, como Amigos, com as participações especiais de Fernando Gabeira e de Milton Nascimento, e sobre sua infância, como em A Rua e a Casa e no comovente Mãe – que talvez elucide sua paradoxal obsessão em benzer o erotismo com a religião.

Falar em sexo é sempre uma dificuldade para qualquer resenhista, e Sant’Anna também reconhece este perrengue, mas dele nunca fugiu (ao contrário de 95% de nossa pudica literatura). Carentão serial, o narrador de Sant’Anna está sempre entrando e saindo de relações e buscando descrever suas margens, do afeto mais platônico à trepada mais homérica, reconhecendo também a ambiguidade de limites entre o erotismo e a pornografia ao representar a tensão dos corpos em Um Conto Fracassado. Nesta última narrativa do livro, em que também ecoa memórias confessadas em outros escritos, Sant’Anna resume a face mais experimental de sua literatura, uma vez que o “conto sobre o conto” estrutura-se como um ensaio sobre a impossibilidade de verter na página branca a carne da história, e na própria tentativa-e-erro o texto insinua-se erótico, por residir justamente na antessala do gozo, mantendo-se teso:

“Talvez uma das razões para que o conto fracassasse era que havia uma ânsia muito grande do contista pelo absoluto, de que as palavras o conduzissem a um perfeito aconchego, como se escrever se assemelhasse a deitar a cabeça no ventre de uma mulher muito querida, enquanto ela lhe acariciava os cabelos.” 

Por fim, o resenhista reconhece o fracasso em resumir a trama do hilário Talk Show. Mais ambiciosa narrativa de Anjo Noturno, dialoga com o zeitgeist em que o escritor se converteu em mero coadjuvante da própria obra para garantir um lugarzinho ao sol na sociedade de espetáculo (vide recentes romances de Paulo Scott e JP Cuenca). Neste conto nada menos que sensacional, um escritor em crise topa participar de um programa televisivo decadente só pra faturar um cachezinho; afinal, todos sabem que o que paga as contas de um autor brasileiro não são seus escritos, e sim sua participação física em palestras, oficinas, festas e feiras. Com declarado amor à autossabotagem, é claro que o pervertido escritor-performer dá vexame no ar. Mais que isso este resenhista não conta, sob pena de perder o espaço neste jornal (e o cachê).

*Ronaldo Bressane é escritor e jornalista, autor de 'Escalpo' (Reformatório) e 'Metafísica Prática' (Oito e Meio) 

Anjo Noturno

Autor: Sérgio Sant'Anna

Editora: Companhia das Letras

184 páginas

R$ 39,90

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Sérgio Sant'Anna Literatura

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