Hogarth Press
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Contos de Virginia Woolf estão reunidos em 'A Arte da Brevidade'

Embora não tenha sido um formato amplamente explorado pela autora, a britânica escreveu ao todo 46 contos

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado

17 Junho 2017 | 16h00

Em A Arte da Brevidade, o leitor encontrará uma seleção concisa de contos importantes da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941), organizada e traduzida por Tomaz Tadeu. Não é a primeira tradução deles para o português. 

A tradução dos cinco contos dessa antologia vem acompanhada do texto original, um diferencial importante. Segundo Tadeu, a seleção se concentra em seus contos mais experimentais e nos que têm recebido maior atenção da crítica (Woolf escreveu ao todo 46 contos). Há entre eles, contudo, um conto considerado mais palatável, O Legado, que sustenta, apesar dessa característica, sua qualidade literária e assemelha-se muito ao conto Os Mortos, de James Joyce. 

Muitas vezes, na prosa de Virginia Woolf, um detalhe ou um objeto cotidiano e trivial ganha destaque em sua narrativa. Em Objetos Sólidos, por exemplo, a loucura da personagem tem início quando encontra na praia um pequeno caco de vidro sem valor, mas que, na sua imaginação, “talvez realmente fosse, afinal, uma pedra preciosa; algo exibido por uma princesa negra, sentada na popa do barco”. 

A propósito, conforme se lê no texto citado, “qualquer objeto se mescla tão profundamente com a matéria do pensamento que perde sua forma real e se recompõe, um pouco diferentemente, sob uma forma ideal, que se aloja no cérebro quando menos se espera”.

Em A Marca na Parede, um pequeno detalhe, “uma pequena marca redonda, negra contra a parede branca, dois palmos acima do console da lareira”, dá início a toda a narrativa, que segue num fluxo de consciência, tão importante para a prosa de Virginia Woolf e para a ficção moderna de um modo geral (Clarice Lispector parece ter dialogado com esse conto no romance A Paixão Segundo G.H.), a qual procurou explorar as sensações da mente: “E se tivesse que me levantar neste exato momento para me certificar de que a marca na parede é realmente – o que devo dizer? – a cabeça de um prego velho gigantesco, cravado ali há uns duzentos anos, que agora, graças ao paciente atrito de muitas gerações de criadas, mostrou sua cabeça para além das demãos de tinta, e está tendo sua primeira visão da vida moderna no espetáculo de uma sala de parede branca iluminada pelo fogo.”

O fluxo de consciência seria a expressão literária do solipsismo, “doutrina filosófica segundo a qual nada é necessariamente real além das fronteiras de nossa mente; mas também podemos argumentar que ele suaviza essa hipótese assustadora ao nos dar acesso à vida íntima de outros seres humanos, ainda que ficcionais”, como afirma David Lodge. Em A Dama no Espelho, o narrador observa a personagem pelo reflexo do espelho da casa dela e, dessa forma, vai criando uma imagem daquela senhora, cercada de luxo e ligada à natureza e aos detalhes das folhagens de seu jardim, até concluir que: “Aqui estava a mulher em si. Isabella estava perfeitamente vazia. Não tinha pensamento algum. Não tinha amigos. Não se importava com ninguém.”

Não espere o leitor encontrar no fluxo de consciência das personagens de Woolf a transcrição de pensamentos aleatórios, como em James Joyce. No seu fluxo de consciência, ainda que haja licenças poéticas, as frases são bem formadas e soam bastante literárias ou convencionais.

A respeito do conto de um modo geral, Ricardo Piglia lembra que ele é um relato que encerra um outro relato secreto: “Não se trata de um sentido oculto que dependa de interpretação: o enigma não é outro senão uma história contada de um modo enigmático.”

Nos contos de Virginia Woolf há, de fato, quase sempre uma história secreta, é como se ela narrasse um fato quando na realidade o que pretende narrar é outro. Em O Legado, por exemplo, o efeito surpresa é justamente a revelação de uma narrativa até então desconhecida do leitor. Desse modo, o conto moderno contaria sempre duas histórias como se fossem uma só.

A prosa breve de Virginia Woolf se baseia ainda numa percepção errada ou distorcida da realidade. Somente no final do relato, o seu verdadeiro sentido pode ser cifrado. Em Kew Gardens, tem-se a impressão de que a personagem cruza o jardim de Londres num silêncio bucólico: “Do canteiro de flores ovalado erguia-se uma centena de caules que, da metade para cima, se desdobravam, em folhas com formato de coração ou de língua e, na ponta, desfraldavam pétalas vermelhas, azuis.” No final do conto, todavia, o leitor percebe que, na realidade, em meio àquele silêncio, “o tempo todo os ônibus a motor giravam suas rodas e passavam suas marchas; como um vasto encaixe de caixinhas chinesas, todas em aço forjado, girando sem parar uma dentro da outra, a cidade murmurava; por cima delas, as vozes gritavam alto e as pétalas de miríades de flores faiscavam suas cores no ar.”

*Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de 'Ascensão: Contos Dramáticos (Cultura e Barbárie)'

A Arte da Brevidade

Autora: Virginia Woolf

Tradução: Tomaz Tadeu

Editora: Autêntica

136 páginas

R$ 44,90

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Virginia Woolf Literatura

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