Simon & Schuster Publishers
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Contos inéditos de F. Scott Fitzgerald estão em livro

'I'd Die For You' é coletânea com textos do autor que morreu em 1940

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

17 Junho 2017 | 16h00

Da última vez foram 50 contos que por décadas adormeceram no relicário ficcional de F. Scott Fitzgerald (1896-1940). Coligidos em The Price Was High, mostraram um Fitzgerald sem as novidades que ainda esperávamos ser reveladas, e só agora, 21 anos depois, finalmente o foram, na coletânea “I’d Die for You: And Other Lost Stories” (Eu morreria por você: e outros contos perdidos), lançada há pouco mais de um mês pela Scribner (384 págs, US$ 18.89, na versão kindle: US$ 25.37) e ainda sem data para ser traduzida no Brasil. 

São ao todo 18 contos, dados como engavetados, esquecidos ou perdidos, que a estudiosa do autor Anne Margaret Daniels exumou dos arquivos da Universidade de Princeton, onde repousa a Fitzgeraldiana doada pela filha do escritor. Boa parte das histórias foi escrita a lápis e no desespero, com uma liberdade como ele jamais tivera. Dispostas em ordem cronológica, cobrem um período que vai de 1932 a 1940, à exceção da que abre a coletânea, The I.O.U., originalmente escrita em 1920 para a Harper’s Bazaar (mas nunca publicada) e revelada em março deste ano pela The New Yorker

É a mais expressiva seleta de narrativas curtas de Fitzgerald desde Seis Contos da Era do Jazz, e bem poderia ser aqui traduzida por 18 Contos da Era da Derrocada, pois neles se configura o mesmo clima de desalento das cinco ruminações autobiográficas e das cinco histórias enfeixadas em The Crack-Up (A Derrocada, também lançado aqui pela Civilização Brasileira, na década de 1960). 

Desalento e, sobretudo, seriedade. A certa altura da vida, preocupado com seu legado literário e farto dos caça-níqueis que entre O Grande Gatsby e Suave é a Noite produzira aos borbotões para a Saturday Evening Post e publicações congêneres, exclusivamente por dinheiro, Fitzgerald deu um basta às frívolas estripulias de rapazolas pobres cobiçando moçoilas ricas e namorando glamourosas flappers em festanças intermináveis. Sentia-se um escritor estereotipado, o cronista tipificado do que ele próprio apelidara de “a era do jazz”, com “crescente dificuldade” para enfrentar a “crescente insinceridade” de sua literatura. 

E mergulhou nas trevas de um universo ficcional diametralmente oposto, com personagens às voltas com desemprego, penúria, divórcio, trabalho insano, loucura, internações em manicômios e suicídios. O segundo conto da coletânea, que não se intitula Nightmare (Pesadelo) à toa, data de 1932, ano em que Zelda, mulher do escritor, foi internada num hospital psiquiátrico de Baltimore, de onde só sairia para internações em outros asilos. 

Os dramas dessas histórias recuperadas iluminam a última década de vida de Fitzgerald, boa parte dela ambientada em Hollywood, onde tentou em vão afirmar-se como roteirista e morreu, fulminado por um enfarte, em 21 de dezembro de 1940, aos 44 anos.

Primeiro sondou a praça durante três meses em 1927, ainda acompanhado de Zelda, e já sem ela voltou a carga em 1931, até estabelecer-se de vez a partir de 1937. Só acumulou dívidas, frustrações e enfermidades nos seus últimos três anos na “fábrica de sonhos”. 

Seus contos daquela fase, anti-românticos e rigorosamente vedados a intervenções de editores, encontravam pouca ou nenhuma receptividade no mercado editorial. Em 1929, recebia a pequena fortuna de US$ 4 mil por cada história publicada (US$ 55 mil, ao câmbio de hoje); três ou quatro anos depois, passou a receber mais recusas e conselhos (“Volte a escrever aquelas histórias com gente jovem e alegre, como antigamente”). O único editor que jamais deixou de acolher os contos da nova fase foi Arnold Gingrich, da revista Esquire, também um dos que mais vezes insistiu para que o amigo resistisse aos cantos da sereia cinematográfica.

Se para os editores de revistas seus contos haviam ficado sombrios e sem glamour, para os produtores de Hollywood, seus roteiros resultavam palavrosos, “demasiado literários”. Não sabia escrever diálogos para cinema, sentenciou o então produtor Joseph L. Mankiewcz , que de diálogos entendia um bocado. “Tem provetas demais e romance de menos”, criticou um cacique da Metro ao ler o primeiro tratamento de Scott para Madame Curie. A única vez que lhe deram crédito como roteirista foi pela adaptação do romance Três Camaradas, de Erich Maria Remarque. Das sugestões que deu ao roteiro de E o Vento Levou não vingou uma linha sequer. 

A desastrosa experiência cinematográfica de Fitzgerald rendeu-lhe alguns contos autobiográficos de alto nível (Crazy Sunday, as equivocadas peripécias do roteirista Pat Hobby), um romance inacabado (O Último Magnata), e outras narrativas de que só agora tomamos conhecimento, através de I’d Die for You. O jovem roteirista desencantado com Hollywood de Travel Together, quarto conto da coleção, é tão alter ego do escritor quanto Pat Hobby. 

A história que dá título à obra tem como protagonista uma jovem atriz de cinema, Atlanta Downs, que se envolve com um sujeito mais velho, estabelecendo uma relação parecida com a de Rosemary Hoyt e Dick Diver no romance Suave É a Noite. Tem filmagem em locação (nas montanhas da Carolina do Norte, não muito distante da pousada em que o escritor tentou suicidar-se com uma overdose de morfina em 1936), reflexões sobre a juventude perdida, queixas da fatuidade cinematográfica — e um punhado de noites nada suaves. 

I'd Die For You

Autor: F. Scott Fitzgerald

Editora: Scribner

384 páginas

US$ 28

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Literatura F Scott Fitzgerald

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