ARQUIVO PESSOAL
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Contra a correnteza

Amadeu nadava em outro sentido: cuidava dos rios na cidade que os ignora, e fazia de tudo pra não ser herói. Acabou morrendo por isso, no maior temporal deste verão

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2016 | 06h00

Amadeu tinha fama de bom nadador e acudiu sem discutir ao apelo do esbaforido Japonês.

– Uma mulher tá se afogando, Amadeu, vamo lá pro outro lado do rio, o Leo já tá esperando – chamou o funcionário, apontando o Leonardo, caçula do Amadeu, já ao volante do Palio branco da família.

A uns 20 metros dali, na outra margem do Ribeirão dos Meninos, uma mulher se agarrava ao capinzal da beirada, as pernas já fracas e soltas na correnteza. Berrava um socorro miúdo, abafado pelo ruído da água revolta e do maior temporal deste verão, na segunda-feira, 15 (quando caiu um quarto da chuva do mês num dia). Essa era uma vida que quase se afundava em estatística – 10 pessoas mortas até ali na temporada de chuvas, que ressurgiu este ano em São Paulo –, mas aquele grupo já se fartara de ver gente afogada nas águas barrentas do Ribeirão. Dessa vez podiam tentar evitar.

Amadeu largou o serviço no ferro-velho, passou a mão em três pedaços grandes de corda, e o trio voou pro outro lado do rio. Cruzaram a ponte da Estrada das Lágrimas, bem na divisa de São Paulo e São Caetano, pararam no acostamento e viram a mulher segurar o que parecia um último chumaço de capim. Aos 55 anos e com check-up feito havia dois meses, Amadeu pulou na água suja.

A reputação de bom de nado não vinha de hoje. Era coisa consolidada ao longo de décadas, desde lá atrás, nos anos 60, quando a família veio de Goiás e se instalou na beira do Ribeirão, na Vila Cristália, zona sul da capital. Podem ser ditos transgressores os Gomes de Moura, já que, logo ao chegar, desafiaram uma tradição arraigadíssima da nova terra: deram de gostar de rio. Mesmo vivendo em São Paulo, uma cidade que se põe a enterrar, canalizar e retificar qualquer sinal de curso d’água, a família de Amadeu quis criar uma relação com seus riozinhos. Quase uma insolência. Passaram a limpar as margens do Ribeirão, a divertir-se na lagoa do Barreirão (hoje Parque Chico Mendes, onde o Amadeu aprendeu a nadar), a tirar o lixo do córrego da Fazendinha, que também passa no bairro.

Terminaram por ficar quase todos ali. Sete dos oito irmãos vivem nos arredores do Ribeirão, em sobrados de dois andares, pintados com capricho em cores diferentes. O Amadeu plantou uma amoreira na frente da casa, que cresceu frondosa e hoje faz sombra à pracinha (quatro bancos, vasos de flores, cadeiras e uma churrasqueira), também construída pelos irmãos, na beira do rio. “O Ribeirão era uma piscina pro Amadeu. Não porque usava pra diversão, já que era poluído, mas porque ele se sentia confortável nele, conhecia o rio todo”, explicou o Valdo, único irmão homem do Amadeu, cinco anos mais novo.

A família acostumou-se também aos problemas que emergem de um rio assoreado e estreito, com várzeas ocupadas em toda a extensão. São constantes as enchentes nos 15 quilômetros do rio, que deságua no Tamanduateí. E aí caem cachorros, caem carros, motos, já caíram muitas pessoas. Passavam na frente da janela do Amadeu, que, às vezes, conseguia acudir. Nas lembranças da família, foram pelo menos outros sete salvamentos como o daquela segunda-feira. No mais dramático deles, anos atrás, retirou quatro pessoas – pai, mãe, casal de filhos pequenos – de dentro de um carro que desabara no leito. E cansou de salvar motoqueiros. Ao voltar pra casa ou pro trabalho no seu ferro-velho, Amadeu criou um padrão: não gostava de falar no assunto. “Ele nunca quis ser chamado de herói. Tirava as pessoas da água e, na mesa de jantar, não queria falar disso”, conta a sobrinha, Jaqueline. Hoje salvei uma família da morte – agora passa o macarrão. O irmão, Valdo, complementa: “Mas o que chateava todo mundo é que as pessoas não agradeciam direito. Nunca levaram um bolinho à tarde, qualquer coisa pra mostrar gratidão a ele”.

Como pro Amadeu salvamento era coisa corriqueira, naquela segunda de chuva ele não escutou a insistência do filho Leonardo, de que bastava jogar uma corda pra mulher subir. Foi à água o Amadeu, foi atrás dele o Japonês. Levaram consigo os três pedaços de corda, um pra cada. Mas, agora que estavam tão perto de salvá-la, não quiseram dar mole: amarraram logo as três cordas na mulher. “Na cintura e nos braços. Se colocasse um colete salva-vidas ela não estaria tão segura. Não precisava tanto”, relembra Valdo. Eram quatro e meia da tarde, o movimento chamou a atenção e já havia muita gente apoiada na mureta da Avenida Guido Aliberti pra assistir ao salvamento – o povo da vizinhança, três carros de reportagem, fotógrafos, dois furgões da TV. O resgate foi um sucesso: mais um pra conta do Amadeu. O filho então apoiou a escada, mas o pai não subiu. Aconteceu o inesperado – ou o esperado, a quem conhecia a personalidade dele. Amadeu não quis sair da água.

– Japonês, ô, Japonês, vamo atravessar nadando até o outro lado, não quero subir aqui, tem muita TV. Não quero dar entrevista – gritou o Amadeu, apoiado na margem, mas já girando o corpo pra voltar pelo rio.

– Tá muito forte, Amadeu, vamo subir aqui – retrucou o Japonês, mas logo depois seguiu o patrão, que já tomava o sentido contrário, na direção de casa.

Poucos segundos depois, o Japonês (cujo nome é Cléber e de oriental só tem o apelido) percebeu que não vencia a água, e agarrou-se de volta ao capim da margem, uns 10 metros rio abaixo. Com Amadeu foi mais triste. O vídeo gravado por vizinhos mostra que ele tentou nadar. Deu quatro braçadas. Tentou ainda uma quinta, mas o braço direito mal saiu à superfície. Tinha algo errado com ele. Imóvel, só com a cabeça fora d’água, Amadeu entrou na corredeira e começou a descer seu ribeirão. Desapareceu.

Uma noite foi passada em claro. E o corpo do Amadeu foi encontrado por um passante às 9 da manhã, na confluência com o Tamanduateí, três quilômetros adiante. Por que o Amadeu Gomes de Moura, exímio nadador, deixou de bater os braços? O laudo necroscópico preliminar do IML dá uma pista: “a princípio”, não havia água nos pulmões. A suspeita é que tenha sofrido um enfarte ao tentar voltar pelo rio. “Ele nadava bem demais, não morreria afogado. Acho que teve um enfarte fulminante quando quis voltar nadando, porque não queria aparecer pros outros. Pra mim foi uma morte besta, num lugar que ele conhecia desde pequeno”, desabafa Valdo.

A mulher que ele salvou, depois de atendida pelos bombeiros, desapareceu. Circulou na Vila Cristália a versão de que ela talvez nem quisesse ser salva. Foi dito que era usuária de drogas e que estaria bêbada. Outros disseram que foi assaltada e depois empurrada no rio. Ao Valdo, o incômodo é o mesmo de outras ocasiões – desta vez, mais dolorido. “Mais uma vez, saiu sem dizer obrigado.”

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