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Corpo em gestão

Foco na concorrência e rendimento constante; a lógica empresarial agora se aplica à maromba

Denise Bernuzzi de Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2015 | 16h00

“A geração Whey” inclui uma estética, um modo de vida e muita disciplina. Seus integrantes falam em bíceps, supino, creatina, drop sets e massa muscular com a mesma naturalidade com que seus bisavós pensavam em purgantes, Elixir Nogueira, aumento do muque e do garbo.

A vontade de ter um corpo forte e belo é milenar. Mas somente no século 20 foi possível transformá-la em fenômeno de massa, sustentado por uma megaindústria de suplementos alimentares e equipamentos esportivos. Foi quando a ciência interessou-se por uma proteína denominada Whey, obtida graças à fabricação de queijos. Antes de 1960, a Whey era descartada ou incluída na alimentação do gado. Vinte anos mais tarde, ela conheceu seus dias de glória entre os atletas. Ao mesmo tempo, a batata-doce virou uma espécie de celebridade alimentar nas refeições dos “marombados”, mais rica em ferro, vitamina e cálcio do que a batata inglesa.

Mas o sucesso da Whey e a celebridade da batata-doce são apenas sintomas do aumento inusitado das exigências feitas ao corpo na época contemporânea. Nela, a aparência atlética, outrora típica de um grupo de esportistas de alto nível, tornou-se dever e direito de todos. Exercitar-se e ganhar músculos aplica-se a homens e mulheres, pobres e ricos, idosos e adolescentes, conservadores e revolucionários. Cedo ou tarde, os mais diferentes tipos humanos parecem igualados, dobrando-se em exercícios abdominais. O atual culto ao corpo atlético entrou na era democrática e deixou de ser exclusivo a jovens do sexo masculino. Desde os anos 80, o mercado do músculo ganhou cores, roupas aerodinâmicas, público feminino e suplementos nutricionais espetaculares. Os novos templos do esforço não exibem apenas uma pastoral do suor, pois condensam os prazeres de pertencer a uma espécie capaz de mutar: passa-se do mole ao duro, do fraco ao forte, do lento ao veloz, do frágil ao potente. O site Bigmonstro é um dos exemplos de divulgação dessa conversão corporal.

Ora a banalização da dieta e da rotina dos atletas atende muito bem às necessidades do credo neoliberal em expansão. Aplicado ao corpo, esse credo favorece, primeiramente, a maximização de uma lógica concorrencial, preocupada em manter o foco. Aprende-se que ver um corpo não é suficiente. É preciso focá-lo e, de preferência, por partes. De onde resulta, por exemplo, uma nova variedade de barrigas, da chapada à negativa. Mas como a concorrência não cessa de aumentar, logo surgiu a duríssima “barriga tanquinho”, revelando a possibilidade de aperfeiçoar ainda mais o foco sobre si mesmo. E no Brasil, com grande população jovem, a concorrência é acirrada.

Em segundo lugar, o credo neoliberal aplicado ao corpo favorece a transformação da excelência física em meta e em modo de vida, sem hora para começar, nem idade para terminar. Fica impressão de que deixou de ter graça a música de Noel Rosa, intitulada “Tarzan (o filho do alfaiate)”, que dizia: “não há homem que consiga os meus músculos pegar”. Hoje a musculação possui milhares de adeptos. O cinema americano contribuiu, valorizando mulheres tonificadas em filmes como Fame e Flashdance, sugestivas de sensualidade feita com poucas palavras e muitas acrobacias. No Brasil, na mesma época, as academias de ginástica aliaram-se ao biquíni asa delta, pai do fio dental. Quanto mais se despia o corpo, mais ele devia ser coberto com cremes e músculos. Portanto, há um terceiro aspecto da aparência atlética valorizada pelo credo neoliberal: a aversão à nudez de corpos não trabalhados, entendidos como preguiçosos. Pois o corpo deve ser objeto de rendimento constante, no trabalho, no lazer e no sexo. Uma linguagem empresarial foi aplicada à fisiologia e ela fala em gestão sem déficit das energias e emoções. Como se cada corpo fosse uma microempresa e uma macropreocupação. Durante séculos foram feitos jejuns para salvar a alma, hoje, há regimes para melhorar o corpo.

Contudo, a derradeira exigência neoliberal defende um corpo forte mas também leve e flexível. Na lógica empresarial de hoje, quem não combina massa com velocidade demonstra fraqueza, pobreza e doença. Corpos bem sucedidos não exigem apenas músculos mas também leveza. Quem sobe na escala social não quer mais ter um corpo parecido com uma casamata. Uma parte da geração Whey sabe disso. Mas mesmo fora dela, difícil não perceber que até mesmo comer uma batata vem sendo transformado num gesto a ser realizado com sucesso. 

DENISE BERNUZZI DE SANT’ANNA É PROFESSORA LIVRE-DOCENTE DE HISTÓRIA DA PUC-SP E AUTORA DE HISTÓRIA DA BELEZA NO BRASIL (CONTEXTO)

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