Anna Place | DIV
Anna Place | DIV

Corta para os bichos!

No ar há seis décadas, naturalista criador dos documentários da vida selvagem dispensa celebridade: ‘as estrelas são os animais’

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2016 | 06h00

O formato clássico dos documentários sobre a vida animal e a natureza costuma ser sedutor. Em geral, unem belas imagens, informações e curiosidades sobre locais exóticos da Terra e sobre o comportamento dos bichos – uma fórmula que garante popularidade entre audiências de todos os tipos. Exatamente por isso, tais programas são uma forma importante de divulgação do conhecimento científico e dos desafios ambientais enfrentados pela humanidade. Pode-se dizer, sem medo de errar, que esse formato consagrado foi invenção de um homem só: Sir David Attenborough, o naturalista e apresentador que hoje completa 90 anos de idade.

Há mais de 60 anos, a voz calma e pausada de Attenborough é a marca registrada das incontáveis séries de documentários que ele produziu, redigiu e filmou para a BBC, sobre a flora e a fauna de todos os cantos do mundo. Diante de chimpanzés, répteis, insetos ou ursos polares, com seu tom cálido e reverente – às vezes quase um sussurro impregnado de emoção contida –, ele inspirou a curiosidade de várias gerações sobre a diversidade da natureza e a necessidade de protegê-la.

Sua paixão pela história natural surgiu na infância, vivida em Leicestershire, na Inglaterra. Aos sete anos, Attenborough já tinha seu próprio “museu” doméstico de ovos de pássaros e fósseis. “Sempre me interessei por ler sobre o mundo natural, desde bem pequeno”, afirmou o britânico numa entrevista até aqui inédita sobre sua carreira, que concedeu à BBC.

O amor antigo pela natureza não transparece só na voz, mas também nas palavras. Redator talentoso, Attenborough escreve os roteiros de todos os seus programas. Com esmero no texto e rigor nos conceitos, o britânico conquistou um feito nada trivial. Conseguiu angariar o respeito da comunidade científica e, ao mesmo tempo, alcançar popularidade mundial.

A unanimidade começou a se formar com a série de 13 capítulos Vida na Terra, transmitida pela primeira vez em 1979. Épico, o programa mostrava quase todo tipo de animal em seu habitat. A emissora estima que a série – depois desdobrada em outras oito – tenha sido assistida por 500 milhões de pessoas até hoje. A sólida fundamentação científica não passou despercebida pela comunidade acadêmica e, em 1983, ele foi nomeado membro da Royal Society, a mais antiga sociedade científica do mundo, por “levar os animais e plantas da Terra às casas de milhões de pessoas, ensinando-as sobre a diversidade dos seres vivos”. Attenbourough, a essa altura já parado nas ruas pelas pessoas, se tornava também um herói da classe – multidões interessadas pela vida dos animais, por bactérias, pela ciência? Nunca se havia visto isso.

Em Vida na Terra, Attenborough protagonizou momentos que lhe garantiriam o status de lenda. No encontro com gorilas em Ruanda, por exemplo, quando a mãe de um bebê gorila que ele segurava no colo interagiu espontaneamente com ele. A mãe gorila pôs a mão no topo de sua cabeça e a girou, para que ele a olhasse nos olhos. Bruscamente, ela levou o dedo enorme (“do tamanho de uma banana”, ele lembra) à boca de Attenborough – que entendeu de imediato e abriu a boca. Sabia que era um tratamento amigável entre gorilas – e, para um naturalista, um privilégio provar, literalmente, um hábito da espécie. “Foi extraordinário. Um encontro que pareceu durar para sempre. Felicidade, realmente.”

Em seis décadas, Attenborough trepou em árvores atrás de novas espécies de borboletas, escalou picos nevados, nadou ao lado de baleias azuis. Quando questionado sobre um momento favorito, não escondeu o fraco pelas aves. E lembrou logo do pássaro-lira australiano, na Indonésia. “Um mímico sem paralelo. Imita outros animais, insetos, todos os sons da floresta”, disse. “É um negócio sexual, porque a fêmea vai acasalar com o macho que faz a melhor e mais variada mímica. Fascinante assistir.” Cenas raras para a ciência e bonitas para o público, que conquistaram também a realeza: em 1985 recebeu o título de “sir”, cavaleiro da rainha Elizabeth II.

Formado em Ciências Naturais na Universidade de Cambridge, Attenborough é funcionário da BBC desde 1952 (quando foi convidado a “testar um negócio novo chamado televisão”). Dois anos depois, começou a apresentar o Zoo Quest, primeiro programa de história natural produzido pela emissora. Desde então, ele acumulou em seu currículo mais de uma centena de documentários. O último, lançado no mês passado, trata do drama ambiental da Grande Barreira de Recifes da Austrália (no Brasil, os programas do naturalista podem ser vistos no canal BBC Earth).

Sempre foi entretenimento – mas também sempre foi ciência. Tanto que, como mostrou um levantamento de 2010 do The Sunday Telegraph, ninguém jamais recebeu tantos títulos acadêmicos na história do Reino Unido: Attenborough é membro honorário de 32 universidades britânicas. “E ele só fica cada vez melhor. Realmente soberbo, mágico”, tuitou o biólogo britânico Richard Dawkins, em 2013.

Uma carreira tão profícua e influente só não alterou o comportamento modesto de Attenborough. Avesso ao culto à personalidade, ele usa muito a narrativa em off e evita exposição excessiva. O foco é a natureza. “Não estou interessado em ser uma celebridade. As verdadeiras estrelas são eles: os animais”, disse. Se aparece, é por alguma razão específica, como dizer qual é a temperatura ou como é a qualidade do ar. Além da pouca disposição de se expor, ele mostra outra característica rara no meio televisivo: não faz comerciais. “É vital que haja a figura de um narrador em quem as pessoas acreditam. Por isso, nunca faço.” Aos 90 anos, segue valorizando a credibilidade. E não tem planos de aposentadoria. “Ainda há tanto mais para ver.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.