Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Crítico literário Luiz Costa Lima compara Kafka e Beckett

Escritores checo e irlandês têm a melancolia como característica principal analisada na obra

Sérgio Medeiros*, Colaboração para o Estado

14 Outubro 2017 | 16h00

Aos 80 anos de idade, Luiz Costa Lima, um dos mais importantes críticos literários do País, leva avante sua reflexão sobre a verossimilhança artística no recém-publicado Melancolia: Literatura, um alentado volume em que analisa as obras de dois grandes modernistas europeus, o checo Franz Kafka (1883-1944) e o irlandês Samuel Beckett (1906-1989), que tematizaram em sua ficção a falta de “saída” para a vida humana no século 20. Beckett já foi muitas vezes comparado a Kafka, mas Luiz Costa Lima se propõe a mostrar a “dramática distância” entre suas obras e suas vidas, ainda que ambos, como reconhece, tenham enfatizado a experiência melancólica em seus escritos. Segundo ele, é certo que os dois autores falaram de um mundo desarmônico, contudo, a ficção do romancista e dramaturgo irlandês, escrita depois da 2.ª Guerra Mundial, já não permite a fruição do texto pelo leitor, pois teria recusado a representação. Em outras palavras, ao contrário de Kafka, que escreveu durante o entreguerras, Beckett optou por rasurar a mímesis. 

A suposta “incoerência” da obra beckettiana não é avaliada, porém, como qualidade literária, já que o crítico, como declara explicitamente, esperava encontrar nela pelo menos um grau mínimo de verossimilhança, a qual ele julga imprescindível num texto literário, mesmo experimental. Essa seria a maior falha da ficção de Beckett, quando comparada com a de Kafka. “Sei que tudo isso pode soar chocante”, admite Luiz Costa Lima, que parece apreciar acima de tudo uma viva polêmica, e esclarece: “Reconheço minha conclusão ter contra si o tom dominante da melhor crítica. Precisamos então acompanhar o material selecionado com extremo cuidado”. E faz isso com rigor, resumindo enredos e discutindo parte da fortuna crítica do autor (inclusive a brasileira, pois cita Fábio de Souza Andrade e Ana Helena Souza) para mostrar que o texto de Beckett propositalmente “agride o leitor”. Não muda de opinião até o final. Ao analisar sua trilogia dos anos 1950, composta pelos romances Molloy, Malone Morre e O Inominável, mostra-se implacável: “Já notamos que o extremo êxito de Beckett se deveu ao Godot [peça Esperando Godot]. Embora também saibamos que sua trilogia fora incensada pela boa crítica, é difícil conceber que ela adquirisse o prestígio já reservado aos nomes de Joyce, Faulkner, Musil ou, desde um pouco antes, a Kafka”. 

A leitura crítica da obra de Beckett é precedida pela leitura da obra de Kafka, autor que se destaca por sua constante indecisão, a qual mereceu o qualificativo de atroz (pediu a Max Brod que queimasse seus escritos). “Tanto tem sido escrito sobre o que Brod recusou-se a destruir que voltar a fazê-lo, espontânea e isoladamente, parece uma bizarria arbitrária”, reconhece Luiz Costa Lima, porém não se dá por vencido: “Procuro investir o que digo de toda clareza: não pretendo que a força de significância do escritor checo esteja esgotada. Deve-se saber que há sempre um conflito surdo, e não só no caso de Kafka, entre a obra ficcional e sua interpretação crítica”. A saída (termo caro a Kafka, cujos personagens estão sempre buscando uma porta) foi “abordar uma parcela relativamente menor da obra kafkiana, seus relatos de animais, que pouco têm merecido uma abordagem sistemática de seus estudiosos”. Ao privilegiar o enfoque de animais no modernismo, Luiz Costa Lima acabou dando uma importante contribuição à poética animal, uma área de estudo florescente no Brasil. A esse respeito bastaria citar a importante antologia Pensar/Escrever o Animal: Ensaios de Zoopoética e Biopolítica, organizada por Maria Esther Maciel, que é também autora do livro Literatura e Animalidade, no qual Kafka e sua novela (ou conto longo) A Metamorfose, em que o protagonista se transforma num monstruoso inseto sem nome, são referências cruciais. O crítico não faz nenhuma menção à zoocrítica brasileira, embora compartilhe sua bibliografia e o tema dos animais “angustiados”. 

A análise da experiência da melancolia nas obras de Kafka e Beckett é precedida, no novo livro de Luiz Costa Lima, por uma longa discussão que parte da épica guerreira de Homero e se detém na tragédia ateniense. O teórico da literatura se revela então um consciencioso professor de literatura que, para dar realce à concepção tradicional de melancolia, não se furta a resumir minuciosamente o enredo de peças muito conhecidas, como, por exemplo, Édipo Rei, de Sófocles, para só depois comentar o que disseram a seu respeito os grandes estudiosos, sobretudo europeus. Isso parece inchar o livro e tornar seu andamento lento, mas o autor explica seu método prolixo: “Em nome do descanso do leitor, seria talvez preferível dar aqui por encerrada tais considerações. Mas, certo ou errado, não procuro servir ao descanso. Venho então a um ponto mais relevante que o antes acentuado.” E assim sua escrita prossegue com vagar sábio, sem se preocupar em ser mais fluente e sintética.

*Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo e ensaísta. Publicou, entre outros livros, 'A Idolatria Poética ou a Febre de Imagens' (Poesia) e 'As Emas do General Stroessner e Outras Peças' (Teatro), ambos pela editora Iluminuras 

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