De costas para o campo

Entrevista com

Gabriel Uchida

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2014 | 16h00

Jornalista de formação, autodidata em fotografia, se diz libertário e afirma que morre de sono assistindo a futebol pela TV - até nos jogos da Copa. Nascido em Valinhos, interior de SP, Gabriel Uchida, de 27 anos, fotografa apenas desde 2008 e mesmo assim já teve seu trabalho publicado em quase 30 países. É um fotógrafo underground, dos bastidores, do futebol de várzea, que prefere dar as costas ao campo e às estrelas dos gols para ficar de frente para o povo, representado na figura do torcedor. Já fotografou para uma revista inglesa os mais “durões” do futebol, escolhidos segundo critérios rígidos: líderes de torcidas organizadas, sempre muito tatuados e com uma ficha criminal extensa, necessariamente. Suas escolhas políticas, contra o futebol-negócio e os clubes de aluguel, ficam explícitas em suas fotos. Nada de Neymar, David Luiz ou Fred; elas mostram o povo, os bastidores, a lama e não a grama verde. Ele já buscou o futebol em Cuba, na periferia de Adis-Abeba, a capital da Etiópia, e na várzea paulistana, onde realizou um ensaio com o Autônomos FC, time formado por “punks, ex-punks, anarquistas e autogestionários em geral”. Atualmente, Gabriel trabalha em uma produtora de TV e faz parte do Ponte, um site de jornalismo sobre segurança pública e direitos humanos. Ainda assim, dedica mais da metade de seu dia à fotografia. 

Por que o futebol está tão presente em suas fotos?

Comecei a fotografar em 2008 e inventei um projeto grande já em 2009, o Foto Torcida, em que só fotografo torcedores de futebol. As fotos desse projeto já foram publicadas em diversos lugares e continuo alimentando o site até hoje. Apesar de não entender quase nada de futebol, gosto muito do tema. E mostrando os torcedores vou a lugares que até agora foram muito pouco explorados. Nesses últimos dias, durante a Copa, tenho trabalhado muito, mas não assisti a nenhum jogo inteiro. Gosto mais dos bastidores, dos lugares alternativos. Faço um ensaio, disparo uns 10 ou 15 e-mails para pessoas em diversos lugares do mundo e alguém acaba comprando as fotos. Não sei, acho que por ser do Brasil e por fazer foto de futebol, principalmente agora, acaba saindo muito. Mas eu faço mesmo porque gosto do tema. 

E como você retrata o futebol?

Gosto de uma coisa mais suja, underground, e minhas fotos, no geral, têm uma carga política muito forte. Todas as minhas opiniões estão refletidas em meu trabalho. Tento mostrar o lado B das histórias. Vou para o lado do torcedor, viro as costas para o campo, desisto dos gols e deixo de lado essa história do futebol mercadoria para mostrar a história de pessoas comuns. Fico sempre na arquibancada e não no gramado, como ficaria um fotógrafo da área. Mostro o povo do meio deles, para entender essas histórias a fundo. Tento exercer o jornalismo gonzo, me misturando às ações que pretendo narrar. Gosto de mergulhar mesmo no tema para contá-lo. Se eu puder, fico dois meses em um tema só para saírem dez fotos boas. Uso muito o preto e branco, apesar de fazer ensaios coloridos às vezes, e vou atrás do que não é mostrado no futebol. Quando fui fotografar o Autônomos FC, por exemplo, que é um time paulistano de várzea, esperei uma noite de muita chuva para chegar no dia seguinte a um campo cheio de lama. Queria mostrar esse futebol de raiz que eles jogam, de essência, esse futebol quase punk.

Qual foi o lugar mais diferente onde você buscou o futebol?

Acho que foi na periferia da capital da Etiópia. Eu nem sabia que Adis-Abeba tinha periferia, o país inteiro já é muito pobre, a Etiópia já foi o país mais pobre do mundo. Tinha um sujeito que treinava um time de meninos nessa região e fui fotografá-los. Conheci esse treinador em um campo gigantesco que tem na cidade, o mais histórico do país, onde pousou o primeiro avião e onde havia corridas de cavalo. Lá ocorrem mais ou menos 50 jogos ao mesmo tempo. E aí você vê de tudo, tem gente jogando de chapéu, gente torcendo, assistindo, e até jogadores com um pé de tênis de cada modelo. E uma vez fui filmar, pela produtora onde trabalho, em uma tribo na Namíbia. Eles eram totalmente isolados do mundo, eram quase 15 horas de carro para chegar da tribo a uma cidade grande. Não tinha luz, telefone, internet, nada, e eu levei uma bola de futebol. Eles são muito primitivos, não têm nem a cultura escrita, imagine só. Me perguntaram “onde fica o Brasil, a quantos dias caminhando daqui?”. Só comem carne e milho. E de repente estava eu lá, no meio deles, jogando futebol. 

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