MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

De Fidel a Fidelix

Candidato do PRTB fez o que áulicos do ditador cubano lá e cá não têm mais coragem: repetir o discurso com que Castro humilhou e baniu gays

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2014 | 16h00

Em vez de execrar Levy Fidelix, em vez de tentar excretá-lo das eleições, muitos esquerdistas rabugentos, recém-convertidos às boas relações diplomáticas (mas não sexuais) com a causa politicamente correta do casamento gay, deveriam erguer para ele uma estátua no centro de Havana. No monumento em bronze, de proporções avantajadas, o desbocado político brasileiro poderia montar um cavalo árabe anabolizado (o cavalo, não ele), peito estufado (ele, não o cavalo), apontando uma espada curva para o alto, bigodinho eriçado hacia el sur, medalhas na lapela e ar de destemor revolucionário.

Sim, Levy deveria ser cultuado como herói na praça pública da revolución. Ao vituperar contra a homoafetividade masculina carnal, prestou uma homenagem extemporânea à velha linha política da ditadura cubana. Proclamando que “aparelho excretor não reproduz” e dizendo querer distância dessa gente (os gays), na linha eles-lá-e-eu-aqui, fez o que muitos dos áulicos de Fidel Castro não têm mais coragem: reproduzir no presente o discurso segregacionista com que, no passado, o ditador cubano humilhou e baniu seus compatriotas gays. 

Naqueles bons (maus) tempos, Fidel movia uma perseguição apaixonadamente perversa contra los maricones. Acusava-os de “contrarrevolucionários”. Sexo materialista dialético era apenas o heterossexual, de preferência na posição camarada papai-camarada mamãe. Quanto aos homossexuais masculinos, esses eram enviados a campos de trabalhos forçados ou eram liminarmente trancafiados na cadeia. Assim, ficavam isolados. Eles lá, bem longe, e Fidel bem pertinho. 

Por tudo isso, o militante do PRTB, homem bastante chegado a um aerotrem, deveria ser festejado em vez de hostilizado. O que ele diz atualmente, Fidel já disse e já praticou do modo contumaz no passado. Mas não, os áulicos do regime cubano preferem ralhar com ele e silenciar sobre si mesmos. É realmente muito contraditório. Nos anos duros da perseguição - sem ironias vocabulares, por favor - nenhum deles tentou desacoplar Fidel Castro do poder. Ao contrário. Todos eram só palmas para o “comandante”. Fora isso, acomodavam-se no armário da revolução, cheirando a tabaco e mofo.

É bem verdade que o pobre candidato à Presidência do Brasil, com seu retinto moustache novinho em folha, pronunciou barbaridades preconceituosas repugnantes. Suas tolas palavras, contudo, soam como um cântico angelical de tolerância e civilidade se comparadas ao que os machos de Sierra Maestra proferiram e perpetraram. A esquerda castrista tem direito - e até dever - de protestar contra Fidelix, mas, para ser coerente, deveria protestar retroativamente contra Fidel. Deveria, de quebra, fazer a autocrítica (essa palavra tão adorada) de seu passado. Tanto em Cuba como no Brasil.

Nos anos 1980, a causa gay já tinha sido integrada à agenda política das nações civilizadas. Menos em Cuba. Menos na maior parte da esquerda brasileira. O ativista americano dos direitos dos homossexuais Harvey Milk, assassinado em São Francisco em 1978, tinha sido o grande precursor. Pouco depois, a aids, então chamada de “peste gay”, carregaria o tema com mais urgência e mais dramaticidade. No Brasil, entretanto, ninguém era mais reacionário em matéria de costumes do que os comunistas. Talvez a TFP ficasse empatada, mas os comunistas eram imbatíveis.

O militante que ousasse, digamos, explorar novas possibilidades para o seu “aparelho excretor” - na designação não do machismo-leninismo, mas do fidelixismo - seria sumariamente expulso do aparelho (não o excretor, o outro) por “desvios burgueses contrarrevolucionários”. O amor lésbico era punido com assédios morais sucessivos que poderiam muito bem (ou mal) levar uma mulher atraente, saudável, corajosa e culta à depressão, à quebra moral ou ao suicídio. As organizações stalinistas impediam suas militantes (mesmo as mais lindas, cabelos enrolados e longos, olhos vivos, riso maior que a luta de classes) de namorarem trotskistas (mesmo os mais inofensivos). O presidente da entidade estudantil que começasse com aquela conversa mole de fazer teatro, sabe como é, com aqueles exercícios de laboratório e aquela coisa de rolar no palco sem camisa, bem, ele seria acusado violentamente de “desbundado”. Seria degredado para todo o sempre. Sodomita pequeno-burguês dos infernos.

A moral sexual imposta pela maior parte das organizações de esquerda no Brasil era careta, obscurantista, abjeta. Uma espécie de Santa Inquisição devotada ao ateísmo heterossexual. O adultério se admitia por um viés masculinista. Já a pederastia, vade retro. Nas portas de fábrica, sob vigilância do ativismo católico, qualquer coisa que acontecesse do estômago para baixo era secundário, podia ser deixado para depois. O ser humano começava na cabeça e acabava antes de o intestino começar. A pélvis não existia para os (maus) leitores do Capital. Conservadora até não mais poder, a esquerda demorou muito, mas muito mesmo, para começar a considerar que o aborto, quem sabe, poderia ser um tópico do debate político. Agora, se alguém inventasse de querer falar, vejamos, de orgasmo feminino na reunião sindical, só podia ser messalina ou proxeneta. Se falasse de casamento gay, então, enquadrar-lhe-iam de pronto o aparelho excretor. Desbundado de uma figa. Desaparelhoexcretorado! 

Foi então que o desbunde foi se alastrando como uma epidemia de pequeno-burguesite até que começou a virar um êxodo político de proporções chinesas. O pessoal mais interessante começou a vazar, pular fora, pedir exclusão, desbundar geral. As organizações de esquerda começavam a ficar vazias de homens, de mulheres e, bem, de outros seres humanos também. Desses outros, principalmente. Foi então que o revisionismo sexual começou, embora tardiamente. Teve de começar, ou as bases desbundariam todas e os machos insossos do comitê central ficariam sozinhos contando suas piadas machistas para ninguém mais rir. Assim, mais por oportunismo (legítimo) do que por princípios (duvidosos), stalinistas ortodoxos começaram a suportar o companheiro adepto do amor entre iguais e a companheira lésbica. Aproveitando o embalo, passaram a considerar aceitável a juventude que gostava de rock e a luta dos companheiros maconheiros. O percurso foi estranho, tortuoso, mas foi melhor assim. Pelo menos, a moral sexual na esquerda mudou um pouco. 

Só um pouco. O discurso de esquerda admitiu a causa, mas não assimilou sua humanidade. Note bem, você mesmo. É com um sotaque testosterônico que muitos “quadros” marxistas falam hoje em defesa do casamento gay. A moral sexual até que é outra, é diferente, mas o modo com que tentam impô-la é bem parecido àquele de antigamente. A prosódia continua masculina, do mesmo jeito, hétero, excessivamente yang.

Uma vez, perguntaram ao ditador João Figueiredo o que ele faria com aqueles que eram contra a abertura política. “Eu prendo e arrebento”, ele respondeu, como se a democracia pudesse ser produzida pelas ferramentas repressivas da tirania. O discurso macho que agora se volta contra o infeliz que ousou dizer que “aparelho excretor não reproduz” parece querer impor o casamento gay na base da macheza. Não combina muito. Mas, de novo, melhor assim. A mudança, ainda que pequena, é para melhor.

Dizem que o ódio exagerado contra os homossexuais esconde (e mal) um desejo homossexual intenso. Do mesmo modo, esse rancor furibundo contra o Fidelix talvez seja o contrapeso de uma consciência de culpa que vem se arrastando há décadas. Fidel Castro já se desculpou. Melhor assim, uma vez mais. No Brasil, porém, as organizações de esquerda, não todas, mas muitas delas, ainda devem desculpas públicas a toda a sociedade pela opressão de homens e mulheres íntegros que lutaram dentro de suas fileiras.

Tudo bem que obriguem o candidato do PRTB a se retratar. Ele deve mesmo se corrigir. Mas não é só ele quem deve desculpas. No passado nem tão distante, organizações de esquerda enxovalhavam a honra daqueles a quem chamavam de desbundados (ou, no idioma fidelixista, os desaparelhoexcretorados). Não vão se retratar. Lembremos que, em 2010, o próprio Fidel chamou para si a responsabilidade pela homofobia oficial em Cuba. Numa entrevista concedida a Carmen Lira Saade, no jornal mexicano La Jornada, de 31 de agosto de 2010, página 29, ele lamentou a perseguição aos gays e assumiu de uma vez por todas: “Se alguém foi o responsável, sou eu”.

Seria mais humano se, hoje, setores da esquerda brasileira seguissem o exemplo do Fidel arrependido. Seria mais justo. Mais leve. E muito, muito mais revolucionário.

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Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA-USP e da ESPM, e autor, entre outros, de A Imprensa e o Dever da Liberdade (Contexto)

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