De torpedo em torpedo

Assim caminha a humanidade: na ponta de seus fundamentais polegares

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2009 | 03h09

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Marcondes Alves é um carioca simpático de 19 anos, canto dos olhos caídos e um jeito de falar vagaroso e afável. Está em dúvida se presta vestibular para ciência da computação ou gastronomia e acabou de ler seu primeiro livro fora das obrigações escolares, um romance sobre reencarnação. Mora no Flamengo, não tem namorada nem bicicleta e esqueceu quando foi à praia pela última vez, se no carnaval ou no réveillon. Com um pouco de maldade, pode-se dizer que Marcondes tem um bronzeado cor de computador, entre o bege e o cinza. Mas ele não se importa com isso. Marcondes é dono dos polegares mais rápidos do Brasil.

Na última quarta-feira, ele faturou o primeiro lugar num concurso de digitação de mensagens no celular, os chamados torpedos ou SMS, organizado pela fabricante coreana LG em uma casa de shows em São Paulo. Foi um festival de 160 dedões bailando freneticamente sobre um teclado diminuto para escrever frases sem sentido com até 80 caracteres no menor tempo possível. Marcondes deu cabo da sentença "meu gato ta verde e o cachorro ta parado e o bar esta lotado e o caderno esta cheio" em 24 segundos e 3 centésimos. Levou para casa o prêmio de R$ 10 mil, mais passagem aérea e hospedagem para disputar a finalíssima mundial nos Estados Unidos, em novembro, quando estarão em jogo US$ 100 mil. "Entre os três primeiros eu fico", ele diz, com a convicção de um espécime superior da nova fase evolutiva da humanidade - a geração dedão, formada por Homo sapiens que falam pelos polegares.

E como falam. Estima-se que todos os meses 1 bilhão de torpedos trafeguem pelo éter da telefonia celular brasileira. Isso dá uma média de oito mensagens por aparelho. Uma ninharia perto dos Estados Unidos (388 SMS por celular/mês), da Venezuela (182), de Portugal (132), ou da Argentina (108), segundo dados da consultoria Teleco. Metade dos 160 milhões de brasileiros donos de celulares jamais mandou um torpedo, e as operadoras querem essa multidão. Na Vivo, por exemplo, quem compra um pacote de 20 torpedos por R$ 2,99 concorre a R$ 40 mil por dia e uma casa de R$ 100 mil por semana. A Claro inventou o torpedo a cobrar, para quem tem, digamos, restrições orçamentárias. Em seis meses, a empresa registrou o envio de 3 milhões de mensagens nessa modalidade.

O custo é fundamental para entender o fenômeno do SMS, principalmente entre seus maiores entusiastas: adolescentes (releve o pleonasmo, por gentileza) que não trabalham e usam celulares pré-pagos pelos pais. "Um torpedo custa R$ 0,30 para qualquer lugar do Brasil, não tem interurbano. O minuto local falado sai por R$ 1. Então só uso torpedo, uns três cartões de R$ 20 reais por mês", contava a estudante Evelyn de Oliveira, de 16 anos, durante o show de uma tal banda Cine que animou o concurso dos dedões ligeiros na quarta-feira. Apesar da gritaria incompreensível do cantor no palco, a consultora ambiental Flávia Broering quase cochilava, apoiada em uma mesa no fundo do salão. Estava lá para acompanhar as duas filhas e cinco amigos fãs dos integrantes do Cine, que ditam moda com seus cabelos penteados para frente e suas calças agarradinhas nas canelas. Entre uma pergunta e outra berrada ao pé do ouvido, Flávia contou que cada filha, de 15 e 16 anos, consome R$ 120 por mês em SMS.

No camarote destinado aos competidores, a mineira Ana Caixeta, de 20 anos, estudante de publicidade, treinava a digitação rápida enquanto aguardava a vez de se apresentar. Seu melhor tempo: 25 segundos. "Um pouco ruim para quem já destruiu três teclados de celular de tanto enviar torpedo", dizia, bem-humorada. "Mando uns 40 por dia, pros amigos, pro irmão, pros pais, uso pra tudo." Seu rival Rodrigo Cericatto, de 22, paranaense e futuro cientista da computação, ia mais longe. "Gosto tanto de SMS que estou tentando aprender código Morse. Mando 30 por dia, a maioria para minha namorada, que mora em outra cidade." Fazendo uma conta de cabeça rápida, ele completou: "Se estamos juntos há 3 anos e 11 dias isso quer dizer que já enviei pelo menos 30 mil torpedos pra ela".

Mas SMS também não é feito só de conversa mole. E cada vez mais os adultos sem as dificuldades pecuniárias dos jovens estão tomando gosto pela coisa. Basta lembrar que Barack Obama anunciou a escolha de seu vice, Joe Biden, aos eleitores por SMS. E o jogador holandês Sneijder acaba de trocar o Real Madrid pela Internazionale de Milão graças aos insistentes torpedos do técnico do time italiano, José Mourinho.

Há três razões básicas para o alastramento dessa febre, segundo o diretor de produtos e serviços da Vivo, Alexandre Fernandes. Primeira: torpedo é prático e objetivo, não tem a enrolação dos bons-dias, como-vais e por-favores da conversa viva voz, o que pode ser útil em assuntos de trabalho. Segunda: não existe torpedo perdido, ele sempre chega; e, sabendo disso, quem recebeu sente-se quase obrigado a responder. Terceiro: por torpedo se diz o que estamos deixando de dizer com a boca. "Quem liga para a namorada hoje em dia para falar "oi, amor, estou com saudades"? Por SMS acontece", acredita Fernandes. "Não podemos criticar. Os jovens hoje têm uma noção diferente de relacionamento, eles constroem grupos sociais de uma maneira à qual os mais velhos não estão acostumados", explica a diretora de serviços de valor agregado da Claro, Fiamma Zarife. O campeão Marcondes Alves diz ter mais de 450 contatos em seu MSN - "a maioria nunca vi pessoalmente".

Curioso que no centro de tudo esteja o polegar, essa maravilha anatômica movida por um intrincado conjunto de três ossos, oito músculos, três nervos e duas articulações. Surgido nos primatas há cerca de 1 milhão de anos, o polegar propiciou um salto evolutivo incrível, resultando no próprio Homo sapiens a partir do Homo habilis. Sem o respeitável dedão, não teríamos aprendido a segurar pedras, construir ferramentas, apanhar frutas com os dedos em forma de pinça, enfim, manipular qualquer objeto com uma precisão inigualável no reino animal. E talvez ainda estivéssemos usando as mãos para andar.

ALTOS E BAIXOS

O polegar favoreceu o bipedismo, só isso. E desde então experimentou altos e baixos no desenvolvimento da civilização. Alguns altos: a destreza para matar piolhos ou pedir carona, e a revolução técnica de Bach ao inaugurar o uso dos polegares nas composições para órgão. Alguns baixos: o dedão dos imperadores romanos voltado para baixo (ou para o lado, há controvérsias) pedindo que o gladiador desse logo um jeito em seu oponente, e a inolvidável canção Dedinhos da apresentadora Eliana: "Polegares, polegares, onde estão, onde estão...?"

No seguro obrigatório de veículos, o DPVAT, a indenização paga a quem perde o polegar em acidente de trânsito é a maior entre os cinco dedos da mão: R$ 2.430, para, por exemplo, os R$ 1.215 pela mutilação de um anular, aquele que antigamente costumava ter a nobre função de levar a aliança de noivado ou casamento. Os torpedeiros podem estar pondo em risco esse bem precioso.

Nos Estados Unidos, ortopedistas já usam o termo TTT, teen texting tendonitis, para diagnosticar os crescentes casos de tendinite em adolescentes que enviam torpedos demais. "É uma temeridade, porque os polegares representam mais de 60% da função das mãos", comenta a médica fisiatra Lin Tchia Yeng, coordenadora do grupo de dor do Instituto e Ortopedia do Hospital das Clínicas da USP. Nos casos de TTT, a inflamação e a dor nas mãos normalmente vêm acompanhadas de lesões nas costas e no pescoço, frutos da posição preferida dos digitadores de celular: braços recolhidos rentes às laterais do tronco e cabeça baixa para enxergar de perto a telinha situada na altura do peito.

"Nessa posição você bloqueia a expansão dos pulmões, afetando a respiração", explica Alysson Muotri, professor da escola de medicina da Universidade da Califórnia, em San Diego. "Isso priva o cérebro de oxigênio e pode acabar comprometendo a capacidade de memória e aprendizado." E sem falar no lado social de olhar para baixo e não para frente, para a realidade, os problemas que precisam ser enfrentados, Muotri continua. Ironia das ironias: estaria o fundamental polegar, num caminho evolutivo inverso, nos levando ao emburrecimento? Obviamente é cedo para responder. Mas quem sabe, se o aquecimento global permitir, em alguns milhões de anos teremos evoluído para uma nova espécie, o incrível Homo curvatus - híbrido de ser humano e avestruz que não ergue a cabeça e fala pelos polegares que é uma beleza.

TERÇA, 22 DE SETEMBRO

Mil e uma utilidades

O Ministério da Educação começou a informar, via torpedos,

o número de inscrição e o local da realização da prova aos estudantes que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano. Mais de 10 milhões de SMSs serão enviados até 4 de outubro.

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