De um escravo humilde sepultura

Georgia Quintas, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2014 | 16h00

O fotógrafo pernambucano Beto Figueiroa me mostra um arquivo com suas fotografias, um pouco do tanto que ele tem produzido ao longo de quase 15 anos. Pergunto sobre estas que aqui estão, e diz que fazem parte de seu ensaio Banzo. Figueiroa batizou tais imagens com o peso e a potencialidade imaginativa que o termo enuncia. Estar de banzo, viver e senti-lo possui uma relação de contexto. Da ausência vivida pelo que está longe de nós, irmanada na presença da saudade, da sensação de perdermos o chão seja por um lugar ou por uma pessoa. Palavra impregnada da escravidão, o banzo, a saudade extrema, matava os escravos ainda nas embarcações.

O sentido da palavra vagueia por outras sensações, como a dor da melancolia, da tristeza que embota a alma e tira todas as certezas do caminho. As imagens de Banzo discursam por entre o que a palavra sugere. No entanto, a força imagética salta para uma visualidade que percorre a abstração, solo de desvios, de contextos apreendidos pelo acaso tanto quanto de sonhos interrompidos, lampejos da vista. Foi assim que surgiu Banzo, pela sensibilidade em ver coisas possíveis para sentimentos da vida, que a fotografia faz (às vezes) de cenário. 

Escutar as vozes do ensaio e perceber as motivações sensíveis desse fotógrafo, amplia o próprio título. Tudo começa com Figueiroa avistando um terreno com elementos estranhos durante uma demanda de trabalho. “Entre as cidades de Surubim e Salgadinho avistei uma pontinha de certa construção entre o mato. Um senhor que estava longe percebeu minha curiosidade. Perguntou se eu queria entrar, perguntei o que era. Ele disse ser um cemitério ancestral, no qual estavam enterradas pessoas que moraram na localidade havia muito tempo. Tinha uma cerca e, por fora, outra. Eram túmulos muito antigos, e para cada um, um jasmim plantado com uma dimensão grande. Não havia cruzes. Achei bonito e melancólico.” Era um cemitério escravo.

É preciso apreender o percurso processual do fotógrafo por suas particularidades de quem concebe a imagem como parte de questionamento poético profundo lançado pela vida. Assim como também notar as escolhas de linguagem que constituem eixos narrativos da pesquisa autoral. É nesse ponto que o fotógrafo expande sua reflexão a partir do que ele percebe como intuição. Foi o cemitério oculto que impulsionou Beto Figueiroa a olhar para o passado tanto quanto para o presente, pelo que diz que restou das memórias, a material e a inconsciente, pela morte e pela vida. São imagens aparentadas do mistério, da força da natureza, da subjetividade e abstração, as quais delineiam a fruição em encontrar elementos que fazem sentido ao contorno conceitual desse trabalho.

E então, entre as respostas que Figueiroa me dá sobre seu processo de pesquisa, emerge a ideia subjetiva de ausência, e surge Mãe Ná, sua avô. Responsável por sua criação e formação (ao lado de seus pais), essa senhora ficou cega aos 70 anos, e viveu até os 106. Nunca viu o neto com os olhos. Dessa vivência afetiva, bem como da ausência de visão, narra o fotógrafo que se surpreendia cerrando ainda mais os olhos em meio ao escuro, em vez de procurar enxergar o que restara da luz. A mãe de Figueiroa velou a avô em casa, e espalhou álbuns de fotografias nos quais ela aparecia em vida. 

Relatos como esses explicitam a rede sensível na qual se estruturam motivações, lembranças, narrativas precoces, que só algum tempo depois se encaixam noutras interrupções da vida. “Hoje penso que foi com a avó que aprendi mais sobre fotografia, olhar e contar histórias.” Banzo traz para a superfície um estado de alma, de quando ausência, longe de ser apagamento, se faz reencontro.

GEORGIA QUINTAS É ANTROPÓLOGA, PESQUISADORA E CRÍTICA DE FOTOGRAFIA. AUTORA, ENTRE OUTROS LIVROS, DE INQUIETAÇÕES FOTOGRÁFICAS: NARRATIVAS POÉTICAS E CRÍTICA VISUAL (OLHAVÊ/TEMPO D’IMAGEM)

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Beto Figueroa Banzo

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