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Deixem onde está

Professor de medicina diz que USP nada ganhará transferindo a gestão do Hospital Universitário para a Secretaria de Saúde

Paulo A. Lotufo, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2014 | 16h00

O Hospital Universitário da USP (HU) é um órgão de integração das Faculdades de Medicina, Enfermagem, Farmácia, Odontologia, Saúde Pública e Psicologia. Seu orçamento é o da universidade, que cobre toda a folha de pagamento e parcela do custeio em conjunto com o Sistema Único de Saúde. No HU há concentração dos cursos de graduação e de residência básica nas áreas gerais. Na pesquisa, se distingue na investigação epidemiológica. A formação de recursos humanos e a criação de conhecimento se dá no atendimento de moradores da região do Butantã e dos próprios docentes e funcionários da universidade. Importante ressaltar que, quando da distribuição do porcentual do ICMS à universidade, o custo do HU foi contabilizado, representando sempre em torno de 6% do orçamento da universidade. 

Com a crise fiscal da USP, a reitoria propôs ao Conselho Universitário transferir a gestão do HU para a Secretaria de Saúde pelo custo elevado. Tal como ocorrido em toda a universidade, o dispêndio referente ao HU aumentou nos últimos anos em decorrência dos planos de carreira aprovados pelo Conselho Universitário. Esses planos, ao valorizar a qualificação profissional (especialização, mestrado, doutorado), permitiram que grande parte dos funcionários do HU com essas premissas fosse justamente promovida dentro das regras meritórias estabelecidas. Após os planos, a folha salarial atingiu R$ 240 milhões em 2013, para R$ 133 milhões em 2010.

Na proposta da reitoria, a folha de pagamento continuará a ser honrada pela USP, e à Secretaria de Saúde caberá o custeio, no valor de R$ 37 milhões anuais. Cabe uma primeira pergunta: qual será a lógica em economizar a menor parcela do orçamento em troca de entregar importante ativo acadêmico ao sabor de interesses estranhos? O segundo questionamento se faz agora ao contribuinte: será correto transferir recursos da saúde para a universidade? A terceira questão é dirigida à própria secretaria: não há premências maiores para utilização de recursos dessa monta? Que venham as respostas a essas perguntas no seu devido tempo; cabe agora explicitar a complexidade do ensino médico para que o contribuinte entenda o que é feito com seu dinheiro. 

Acreditem ou não, a defesa do HU na USP é para que o currículo seja de acordo com as “reais necessidades de saúde da população” e não por corporativismo. Para tanto é necessário voltar aos primórdios do Hospital das Clínicas, em 1944. O modelo HC foi copiado em todo o País como exemplo de hospital-escola e permitiu sua expansão em novos institutos especializados. Essa história de sucesso provocou o paradoxo já conhecido em outros países, de que hospitais especializados não são o melhor lugar para o estudante de medicina porque atraem e priorizam o atendimento a pacientes com doenças raras e complexas. Um perfil de doenças que será o oposto do que o aluno encontrará em sua prática profissional. 

Para romper essa dificuldade, surgiu em 1968 na Medicina a proposta do HU como hospital comunitário, geral e integrado com cursos da saúde. Assim, desde 1981 o HU é de fato uma sala de aula da Medicina e das demais escolas da saúde. Se ainda persistem aulas magistrais em grande parte dos cursos da USP, na Medicina, ao contrário, o aluno aprende em pequenos grupos e à beira do leito e em consultórios. Se em outros hospitais-escola o aluno de graduação é secundário em relação ao médico-residente, no HU ocorre o inverso: o centro do aprendizado é o graduando, com estágios exclusivos na sala de parto, no ambulatório e na terapia intensiva. Esse comportamento se materializa no fato de que a maioria dos paraninfos da Medicina são médicos do HU. 

Não somente para a Medicina o HU representou uma revolução no ensino. A Enfermagem utilizou o HU nessas décadas para consagrar processo de trabalho que se difundiu em todos os hospitais de qualidade no País. A Farmácia inovou na dispensação de medicamentos, exemplos inovadores ocorreram na Odontologia, Nutrição e Psicologia. O sucesso do HU foi seguido pela Escola Paulista de Medicina, Unicamp, Unesp e pela USP Ribeirão Preto, que assumiram hospitais com as características do HU-USP. Por isso, o HU exige respeito!

Quem subscreve este texto não se nega a declarar seus conflitos de interesse com o HU, onde trabalhou como médico, depois como docente e foi superintendente (2003-10). A defesa do HU é feita tanto com a razão cartesiana de pesquisador especializado em métodos quantitativos, que já mostrou que a USP nada ganhará transferindo seu hospital para a Secretaria da Saúde, como também com a emoção de cidadão que, desde a militância maoista na juventude (ao lado de líder sindical ainda em atividade na USP) até o momento atual de pesquisador que colaborou em projetos inovadores de epidemiologia genética com o atual reitor - de quem foi eleitor e apoiador de primeira hora -, não concorda que uma história tão rica de ensinamento na área da saúde e da educação seja reduzida a mero balanço contábil. 

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Paulo A. Lotufo é professor titular da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica

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