Allyn Baum/The New York Times
Allyn Baum/The New York Times

Denúncias contra Harvey Weinstein por abuso sexual escancaram hipocrisia de Hollywood

Testes do sofá fazem parte da indústria cinematográfica norte-americana desde os tempos em que filmes eram censurados por código moralista

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2017 | 16h00

Todo mundo tinha uma história sobre Harvey Weinstein para contar. Histórias no mínimo embaraçosas, envolvendo humilhação, intimidação, agressão verbal, e outras escabrosas, envolvendo assédio sexual. Mas ninguém tinha coragem de contá-las. Ou por falta de provas concretas ou por medo de ter a carreira arruinada no show business. Weinstein não era um agressor e um tarado qualquer, mas o mais poderoso e esperto produtor independente de Hollywood. Sua lista negra equivalia a um atestado de óbito profissional. 

Os filmes que produziu sob a chancela da Miramax e da Weinstein Co., desde a década de 1980, receberam mais de 300 indicações ao Oscar, conquistaram um punhado de estatuetas e a Palma de Ouro em Cannes. Weinstein, além de poder, tinha um tremendo prestígio artístico, ademais mantido com toda sorte de artimanhas possível (ameaças, subornos, jabás, mordomias – até campanhas de difamação dos concorrentes pela mídia), muitos milhões de dólares e uma equipe de superadvogados para mafioso nenhum pôr defeito.

Seu reinado – ou sultanato – aparentemente ruiu há pouco mais de uma semana quando quem tinha uma história indecorosa a seu respeito tomou coragem e decidiu abrir o bico. Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Asia Argento, Ashley Judd, Rosanna Arquette, Lena Headley e Kate Winslet abriram o grande desfile de vítimas e testemunhas das cafajestadas do “imperador Miramaxus”, sem prazo para terminar. Puxada a cortina, o Mágico de Oz de Hollywood, denunciado ao mesmo tempo por repórteres investigativos do New York Times e da revista The New Yorker, deliquesceu como o outro.

Em poucos dias, Weinstein perdeu o comando de sua produtora, sua vaga na Academia de Hollywood e deverá ter confiscada a Légion d’Honneur que lhe deu o governo francês. Uma debacle que chegou com pelo menos 13 anos de atraso. 

Em 2004, a jovem modelo italiana Ambra Battilana, duas vezes encurralada pelo produtor num hotel de luxo de Manhattan, queixou-se à polícia, gravou o segundo assédio, mas a denúncia foi sustada pelo promotor público Cyrus Vance Jr., notório protetor de celebridades encrencadas com a lei em Nova York. Agora, com sua estrela bem menos reluzente e a pressão de grupos feministas nas redes sociais, não deu para segurar. 

Ainda que desde a ascensão de Trump o ambiente parecesse propício como nunca ao bullying e à violência sexual, o oposto ocorreu. Bill Cosby não despencou sozinho. Rogers Ailes e Bill O’Reilly, os dois mais graduados paxás da Fox News, receberam o bilhete azul. Há dias, sobrou para Roy Price, o mandachuva dos estúdios da Amazon, entregue na bandeja por uma produtora executiva.

Foi uma catarse coletiva, um épico Lava-Jato hollywoodiano. Woody Allen, que por motivos óbvios, deveria se manter à margem da discussão, fez uma avaliação polêmica. Depois de qualificar Weinstein como “uma pessoa triste e doente”, manifestou receio de que a purgação em curso possa redundar numa caça às bruxas. Ocorre que os caçados de hoje não são meros desafetos ideológicos do establishment como os atingidos pela razia macarthista de seis décadas atrás, mas uma casta de tiranos sexistas que usaram seu poder para impor uma espécie de droit de seigneur às atrizes – e a atores – sob seu mando, comprometer subalternos e hostilizar jornalistas. 

Enquanto a reputação de Weinstein ia para o brejo, lembrei-me não só das perseguições macarthistas e seus mais eminentes corifeus, adeptos do bullying e do “teste do sofá”, instituição tão antiga quanto a indústria de filmes e tão universal quanto a claquete (na Alemanha nazista, era Goebbels quem comandava a extorsão sexual) mas também do Código Hays de censura. 

Imposto no início dos anos 1930 para subordinar a produção cinematográfica a padrões morais determinados por um grupo de instituições religiosas liderado pelo advogado presbiteriano William H. Hays, o Código instaurou nas telas o império da hipocrisia. Assuntos tabus: sexo, drogas, adultério, suicídio, homossexualidade, miscigenação. Barriga de gravidez, nem pensar. Casal na mesma cama, só com uma das pernas do marido do lado de fora. Interjeições blasfematórias, só em pensamento. O arrocho vigorou durante praticamente três décadas, até cair de podre. 

Apesar de planejado a partir de escândalos sexuais implicando celebridades de Hollywood, como o estupro seguido de morte da starlet Virginia Rappe pelo cômico Roscoe “Fatty” Arbuckle (Chico Boia), em 1921, o Hays em nada contribuiu para moralizar os costumes fora da tela e muito menos conter o priapismo dos depravados da colônia cinematográfica. Testes do sofá não diminuíram. Nem orgias em mansões e cafofos dos magnatas ou curras e rompantes exibicionistas em salas privadas e cantos de estúdio. Louis B. Mayer, o onipotente tartufo dos estúdios da MGM, foi quem encaminhou pessoalmente a recém-contratada estrela infantil Shirley Temple, 12 anos, à sala do produtor Arthur Freed, 46, que lhe mostrou algo que ela nunca havia visto, um pênis. O dele próprio. 

Quando era uma starlet à cata de uma chance na Fox, Marilyn Monroe, 21, submetia-se periodicamente aos caprichos falocratas do chefão Joseph Schenck, 71. Joan Collins passou, na mesma Fox, pelos sofás de Buddy Adler e Spyros Skouras. “É uma desgraça antiga e sistêmica”, desabafou Jane Fonda, arrependida de não ter alertado há anos. Um flagelo que ninguém arrisca dizer que, com a desmoralização de Weinstein, jamais se repetirá. 

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