Desarmando o extremismo

Desarmando o extremismo

Brasileiros que pedem intervenção dos EUA prestam desserviço a si mesmos, avalia historiador

Kenneth Serbin, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h00

Os indivíduos, presumivelmente brasileiros, que estão fazendo uma petição ao presidente americano Barack Obama para se opor à “expansão comunista” da presidente Dilma Rousseff prestaram um desserviço a si mesmos e, potencialmente, ao Brasil. Em 28 de outubro, apenas dois dias depois que a presidente brasileira se reelegeu, os requerentes postaram sua petição num website da Casa Branca programado para ser usado por cidadãos americanos. Em 6 de novembro, aproximadamente 140 mil pessoas haviam assinado a petição. Somente suas iniciais aparecem, por isso é difícil determinar quem realmente apoia a iniciativa e se indivíduos poderiam ter assinado várias vezes. 

A qualidade do inglês é risível, com dez erros num documento de meras 154 palavras. O(s) autor(es) aparentemente nem se deram ao trabalho de revisar a petição ou buscar a ajuda de um tradutor. A petição também não explica o significado dos termos “bolivariano” e “Foro de São Paulo”, que não são familiares à maioria dos americanos. As alegações de “comunismo” são absurdas. Americanos instruídos não levarão a sério um documento tão pobremente concebido. No entanto, sua própria existência pode ter consequências imprevistas e indesejáveis.

O tom e o conteúdo da petição fazem eco aos apelos pelo impeachment da presidente Dilma proferidos no pequeno protesto contra ela realizado na Avenida Paulista em 1º de novembro. Alguns manifestantes chegaram a propor a volta de um regime militar. 

Essas iniciativas anti-Dilma não consideram minimamente o doloroso passado brasileiro durante a ditadura militar (1964-1985) instaurada com apoio decisivo do governo americano, que, até Jimmy Carter assumir a presidência, em 1977, basicamente ignorou as violações generalizadas dos direitos humanos e civis pelos generais. A expansão territorial americana e outras formas de intervencionismo flagelaram a América Latina desde meados do século 19. Um pedido para o presidente Obama intervir em assuntos internos do Brasil é ilógico e viola normas básicas de soberania. Apesar de a ditadura militar ter trazido crescimento econômico para o Brasil, ela embruteceu o processo político para toda uma geração e agravou a desigualdade social.

Quando o deputado eleito Eduardo Bolsonaro declarou que seu pai Jair, também deputado, teria “fuzilado” a presidente Dilma se tivesse entrado na disputa presidencial, ele conjurou as listas de mortos de torturadores da era militar com os nomes de combatentes da resistência eliminados sem processo judicial, sem misericórdia e, em alguns casos, somente depois de seus algozes terem satisfeito seus prazeres sádicos. 

Essas palavras seguramente ofenderam a presidente Dilma, que esteve detida num centro de tortura onde tais abusos eram cometidos. Ofenderam também o cargo da Presidência brasileira e a nação brasileira.

Bolsonaro e os manifestantes anti-Dilma estão criando um clima que os americanos conhecem perfeitamente: ódio ao presidente e o resultante incentivo a seu assassinato. Esperemos que esse não se torne um momento em que os brasileiros olharão com pesar para uma guinada terrível em sua história política. O Brasil é uma democracia em que as pessoas têm o direito de protestar e requerer tudo que quiserem. Mas uma democracia justa e efetiva requer uma cidadania informada e tolerante. A petição e o protesto na Paulista têm o mesmo tipo de ódio e o pensamento irracional que Hitler usou para sufocar a democracia na Alemanha e, por fim, cometer genocídio contra os judeus e outros grupos.

A eleição de 2014 foi a mais disputada e uma das mais polarizadas da história brasileira. Como os Estados Unidos, o Brasil parece estar a caminho de uma polarização duradoura. Em comparação com eleições passadas, a campanha de 2014 não se concentrou bem em temas - outra tendência em que o Brasil está espelhando os EUA.

Em vez de cerrar fileiras com a presidente, o PSDB parecia continuar em campanha. O cenário ficou mais turbulento ainda quando um deputado do PSDB fez um questionamento sem precedentes dos resultados eleitorais. A petição a Obama aludiu a essa dúvida.

Tanto PT como PSDB precisam tirar algumas lições importantes da eleição e da estridência pós-eleitoral contra Dilma e, enquanto competem e atuam em seus respectivos papéis de governo e oposição, se empenharem em evitar o extremismo.

Com a reeleição de Dilma, o PT assegurou a mais longa permanência no poder de uma entidade política desde o primeiro governo Vargas (1930-1945). O PT se tornou a “situação”, uma grande ironia histórica, porque nos anos 1980 e 1990 ele atuou como uma oposição vocal e vitimada. O PT terá de aceitar a oposição do PSDB como parte normal do processo político.

De sua parte, o PSDB terá que manobrar com habilidade para desarmar o tipo de radicalismo expressado pelos Bolsonaros da mesma forma que o Partido Republicano dos EUA conquistou uma vitória esmagadora em 4 de novembro sem permitir que o Tea Party assumisse o controle do partido.

A política brasileira entrou numa nova era em que a internet e o smartphone começaram a ter papel cada vez mais relevante. Diferentemente de canais noticiosos e partidos políticos, a internet não tem filtros. As pessoas podem dizer o que bem quiserem. Não há editores, checadores ou revisão. Enquanto Hitler fustigava os alemães com discursos para as massas reunidas em grandes estádios, hoje as mentiras e imprecisões podem moldar o debate político em milissegundos, permitindo que extremistas tenham um ponto de apoio legítimo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Kenneth Serbin é historiador e professor na Universidade de San Diego. Acompanha a política brasileira desde 1986 e observou de perto as campanhas presidenciais do País em 1989, 1994 e 2002

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