Juvenal Pereira/Estadão
Juvenal Pereira/Estadão

Desconstruindo o mito de que poesia não vende

Sucessos recentes de Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Gregório Duvivier e Adriana Calcanhotto desmentem estigma do gênero

Marcos Siscar*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

04 Março 2017 | 16h00

Há uma ideia já antiga, realista e ao mesmo tempo estratégica, de que “poesia não vende”. Ainda não está muito claro se isso seria uma vantagem ou uma desvantagem para a poesia. Mas o fato é que os livros de poesia costumam ser recusados por livreiros e, consequentemente, olhados com polida antipatia quando os originais são apresentados às grandes editoras. 

Alega-se desinteresse do público. Segundo uma discussão curiosa, provinda dos jornais, não se sabe se seriam 300 ou 3.000 leitores de literatura contemporânea, hoje, no Brasil. O cálculo, como se imagina, é tão incerto quanto impraticável, uma vez que leitores não compram necessariamente os livros de poesia que leem (há bibliotecas e um número muito grande de edições de autor) e nem leem poesia apenas em livros autorais (há os didáticos, os periódicos, as revistas, as antologias). Leitores de poesia costumam, inclusive, reler seus autores preferidos, prática mais rara em outros gêneros. Por fim, a proliferação de blogs e diversos outros modos virtuais de compartilhamento de textos só veio selar a dificuldade de calcular a relação com esse tipo de texto, cuja tendência ao fragmentário e ao descontínuo vem sendo ressignificada pelas novas tecnologias. 

A ideia do desinteresse em relação à poesia refere-se, portanto, em primeiro plano, não exatamente à leitura, mas à venda de livros (2% do mercado de livros de ficção, segundo estatística de 2012). Mas ainda aí há complicações. Em 2013, a tese da marginalidade mercadológica tornou-se algo insólita, para não dizer cínica, com o best-seller de Paulo Leminski, Toda Poesia, publicado pela Companhia das Letras, que chegou aos 100 mil exemplares vendidos em pouco mais de um ano. Poética, de Ana Cristina Cesar, também não fez feio. Seguiu-se a ela, na mesma editora, outra compilação (de Waly Salomão), no setor de “clássicos” contemporâneos ainda não “resgatados”. A poesia portanto é resgatável, também comercialmente.

Outras editoras, inclusive pequenas, vêm mostrando um interesse já consolidado pela poesia, publicando-a “discretamente”, não raro de modo artesanal. A situação, bem diferente do aberto descaso de que sofria o gênero há décadas atrás, merece portanto atenção do ponto de vista crítico e editorial. 

O caso da Companhia das Letras tem sua especificidade. Ao lado dos poetas ligados ao pop dos anos 1970, a casa vem publicando também sucessos modernistas já bem estabelecidos, como Vinicius de Moraes. A compra dos direitos de publicação de Drummond, em 2012, foi um acontecimento importante na agenda comercial do livro. Embora sua vocação principal continue sendo a prosa de ficção internacional, o lançamento, em 2017, das Poesias Reunidas de Oswald de Andrade e a previsão de lançamento da poesia completa de Hilda Hilst parecem confirmar um novo momento da editora. A clara tentativa de atribuir glamour comercial à poesia, apoiada no aparato da publicidade, tem se mostrado capaz de mobilizar espaços especializados da mídia e a atenção dos festivais.

Com exceções pontuais, como uma coleção de poesia traduzida, nota-se que a editora sempre publicou poesia esparsamente. Com relação à poesia brasileira, a consolidação do catálogo é ainda mais recente e a escolha de autores, relativamente arbitrária. Se a publicação de poesia pode ser vista como uma concessão que se faz a determinados círculos intelectuais, como um verniz de civilidade dentro da lógica de mercado, gerando “sucesso de estima”, não se pode menosprezar a tendência da incorporação ao catálogo de nomes do showbiz, de tudo aquilo que circula bem nas redes e nas colunas sociais. De Gregório Dudivier ou Arnaldo Antunes a Fernanda Torres, isso é perceptível não apenas no caso da poesia. Mas a antologia de poesia brasileira contemporânea organizada por Adriana Calcanhoto, que acaba de sair, é um bom exemplo dessa estratégia que visa associar o livro à ideia de produto.

Não acredito que se possa contestar, como formulação de princípio, o trabalho de dar publicidade a um bom livro. Dar publicidade é o que a crítica literária quer fazer, o que a escola quer fazer, o que queremos fazer na esfera pessoal quando recomendamos um livro. Há um risco real, entretanto, em transformar em critério editorial traços associados à lógica do marketing, ou seja, aquilo que se adequa mais facilmente à previsibilidade do mercado de livros: o gosto do público (entenda-se, do gosto “médio”) ou, pior ainda, o desejo de compra (que opera apenas na esfera da sedução de produto). 

Não há receita para saber o que é boa literatura. Nem as políticas editoriais são tão lineares. Mas há um problema quando a ideia do livro limita-se à opção entre gerar o produto novo e reciclar o produto fora de catálogo. Outras variantes precisariam ser consideradas, como as questões de crítica e de história literárias, os debates em curso sobre os problemas contemporâneos, a natureza da discussão sobre a poesia (não apenas nas resenhas de livros), a situação editorial do conjunto dos livros importantes da poesia brasileira, a relação da edição com o ensino (não apenas com o vestibular), a presença da poesia estrangeira contemporânea na vida literária brasileira, o tipo de leitor que queremos para a literatura. Enfim, a impressão é que a dimensão da situação pública da poesia costuma ser minimizada pelos editores.

*Marcos Siscar é poeta, tradutor e autor de 'Manual de Flutuação para Amadores' (Ed. 7Letras)

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