Desencaixes paulistanos

Desencaixes paulistanos

Georgia Quintas, O Estado de S. Paulo

21 Novembro 2014 | 21h28

O trabalho 10 Anos, Amanhã do fotógrafo paulista Felipe Russo se alinha ao pensamento de um dos maiores filósofos do modernismo, Marshall Berman. Entre suas reflexões, Berman expõe: “Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promove aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor - mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo que temos, tudo que sabemos, tudo que somos”. 

Russo pesquisa sistematicamente seu olhar e sua relação com a cidade. Essa exploração fotográfica ocorre cartograficamente no centro de São Paulo, célula histórica no mapa da metrópole que hoje talvez não se destaque mais pela opulência e pelo modernismo do passado, apagados pela degradação. Para o fotógrafo, a subjetividade e a espera, o tempo alongado em idas e vindas a esses lugares são fundamentais em seu processo. 

Nesse ensaio, Russo cruza questões sobre o que restou do território de modernidade, com seus amplos e luminosos espaços, idealizados para receberem a função entrelaçada à forma. Essa identidade arquitetônica se revela como legado tanto do passado quanto do presente que nos representa. 

Em alguns momentos, os espaços construídos, arquitetados, cevados para uma função, ocupação, território de vida, ação e acontecimentos, se desmancham. Lugares que se tornam frágeis com o tempo, como as pessoas que os preenchem. Transita-se pelo presente do que será passado, por um tempo que parece não precisar acomodar-se no futuro. E Russo não tem pressa de que esse centro se esgote em suas imagens. Ao contrário, revela em calmaria paisagens contidas no interior do vazio, da ausência. Sobretudo, no silêncio da representação que se esconde. 

Perguntei a ele sobre a perda de função dos espaços: “A funcionalidade é uma questão fundamental da arquitetura. Temos que ser também agentes ativos desse processo, buscar soluções inventivas para dar novos sentidos a esses espaços. Por outro lado, me fascina esse momento onde o espaço se encontra destituído de função ou em um ‘desencaixe’ - no qual sua forma e uso parecem não construir sentido. Muitas vezes, penso nesses espaços como pessoas. Todos passamos por momentos de desencaixe, alguns nunca se sentem completos ou têm a sensação clara de pertencimento. Nesses espaços existem uma energia de pausa onde tudo que já foi parece ter deixado marcas e uma energia latente que espera por um novo sentido. Me vejo neles também”.

A convicção poética de Russo o faz descobrir - com a paciência dos arqueólogos - edifícios, galerias e salas comerciais plenos de enunciados de espacialidade tencionados pela energia de um tempo e seu frescor datado. Ao mesmo tempo, ele captura imagens abarrotadas da perspectiva de compreender o pertencimento e a funcionalidade que unem os lugares aos seres humanos (e vice-versa). 

A influência que Felipe Russo tem em sua formação - de importantes fotógrafos como Robert Adams, Michael Schmidt, Eugène Atget e Walker Evans - sublinha a linguagem direta, de sutilezas aparentes. Ao documentar, inclusive a subjetividade, ele exercita em sua fotografia a vibração (de ar sereno) de quem enxerga o impulso velado do espaço contido no tempo. O que aparenta estar adormecido nas imagens de 10 Anos, Amanhã é fartura da vida esquecida nos vãos para aqueles que os acham, assim como o fotógrafo. Porque há sempre quem procure novos cantos de manifesto.

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Georgia Quintas é antropóloga, pesquisadora e crítica de fotografia. Autora, entre outros livros, de Inquietações Fotográficas: narrativas poéticas e crítica visual (Olhavê/Tempo D'Imagem)

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