Desenhos surreais

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O gênio de Roland Topor: uma nova retrospectiva celebra as quatro décadas de carreira do eclético artista francês

The Economist

22 Abril 2017 | 16h00

Roland Topor foi um artista que não cabia em categorias estanques: sua obra é melhor definida pela especificidade de seu humor e pela heterogeneidade de suas criações. No decurso de quatro décadas, suas multifacetadas ilustrações apareceram em livros, jornais e cartazes; de sua fornalha criativa saíram animações e sequências de filmes, bem como um programa de TV infantil. Uma nova retrospectiva, em cartaz na Biblioteca Nacional da França (BNF), em Paris, examina como ele inoculou a cultura francesa e celebra seu “imaginário sem freios”.

Topor estudou na Escola de Belas Artes de Paris, mas rejeitou a figura clássica do “pintor em seu ateliê”. Embaralhando e transgredindo meios, circunstâncias, ambiências, não se considerava fixo e não vinculava o valor da obra a seu contexto. Em entrevista concedida em 1993, ele dá suas respostas enquanto beberica um drinque e tira baforadas de um charuto. Dizia ver a si mesmo como um déconneur — alguém que fala bobagens, coisas sem pé nem cabeça —, mais do que como humorista.

Publicou seus primeiros desenhos em 1958, na Bizarre, uma revista de tendência dadá e surrealista. Sua produção inicial — esboços rudimentares em preto e branco — com frequência retratava um homem comum, de terno e chapéu coco, em alusão aos arquétipos presentes em Charlie Chaplin e na obra de René Magritte. Normalmente desacompanhadas de texto, as imagens continham em si mesmas sua própria narrativa. “Estava surgindo uma nova escola de desenho, baseada sobretudo em imagens sem legenda”, diz Alexandre Devaux, curador da exposição. Tendo como expoentes os ilustradores da revista New Yorker Saul Steinberg e William Steig, era uma abordagem em que “a imagem assume aspecto marcadamente literário, apropriando-se do texto e dissolvendo-o em seu interior”. A obra de Topor revelava sem ser explícita, deixando espaço para a interpretação de cada um.

Entre 1961 e 1966, Topor integrou o núcleo de um novo grupo de ilustradores e jornalistas franceses, que se constituiu na redação da revista satírica Hara-Kiri (muitos deles criariam, alguns anos depois, o Charlie Hebdo). Seus desenhos eram obscenos, apelando ao gosto “populaire”, executados com um estilo gráfico em que sobressaía o humor negro subversivo. Nessa altura, Topor complementava sua renda com trabalhos ocasionais para a revista Elle — entre os quais se destacam as ilustrações que fez para um texto de Roald Dahl. De 1971 a 1995, ilustrou artigos de Jean-Paul Sartre (A França e uma Questão de Racismo), Michel Foucault (A Guilhotina Está Viva) e Marshall McLuhan (Transformando Todo Mundo em Ninguém), entre outros, publicados nas páginas de opinião do New York Times. Embora fossem textos opinativos e informativos, as imagens de Topor não se ancoravam em acontecimentos históricos ou perspectivas políticas. Interessava-lhe antes chamar atenção para a insensatez humana. A ilustração do artigo de Marshall McLuhan, por exemplo, retratava um homem cortando um cordão umbilical que unia seu abdômen a um globo terrestre; na do texto de Sartre via-se um sujeito de boina, sentado sobre as costas de outro homem, levando na mão uma forca feita com duas baguetes. Topor conservava sua individualidade artística mesmo quando colocado ao lado de colossos intelectuais ou escritores importantes (suas ilustrações adornaram obras de Patricia Highsmith, Marcel Aymé e Boris Vian, entre outros). Permanecia em sintonia com o universo desses autores, mas não permitia que obscurecessem suas próprias visões.

De fato, ao longo de sua carreira polimórfica, Topor conservou seu estilo irônico e provocador. Na reinterpretação que fez de Alice no País das Maravilhas, por encomenda do banco Veuve Morin-Pons, ele enfatiza as referências a dinheiro e risco presentes no livro de Lewis Carroll. Num desenho de 1986, que ilustra a história de Cinderela para uma edição de Os Contos de Charles Perrault, retrata uma mulher nua que tem uma sandália em frente à genitália, o calçado claramente fazendo as vezes de orifício feminino. “Topor gosta de revelar os significados inconscientes dos mitos e das fábulas”, observa Devaux. “É um tema recorrente na obra dele: o interesse por aquilo que tendemos a ocultar”. Com frequência, beirava o sacrilégio, despertando “atração e repulsão com a mesma imagem”, acrescenta o curador. “É uma coisa que ele faz muito: juntar eros e tânatos.”

Acima de tudo, Topor se devotava às “possibilidades do papel”. Deleitava-se com a liberdade de uma folha em branco, em que podia, em igual medida, escrever e desenhar. Acreditava que as duas práticas são mais intercambiáveis do que as pessoas pensam, algo que se evidencia seus desenhos, mas também em sua carreira como um todo. Quando não estava desenhando, Topor escrevia. Um de seus livros de ficção, o romance Le Locataire Chimérique (O Inquilino), de 1964 — sobre um homem que perde o senso de realidade — foi adaptado para o cinema por Roman Polanski.

Poucos tiveram tanto sucesso com tantas formas artísticas. Apesar de Topor ter morrido em 1997, é difícil não pensar que ele teria sido grande amigo de Terry Gilliam, compartilhando com o comediante inglês o humor destrambelhadamente indecente e as visões que põem o mundo de ponta-cabeça. Suas ilustrações podiam ser tão violentas quanto elípticas ou cáusticas; Topor testava os limites do bom gosto. É o que mantém seu interesse até hoje: o fato de que sua obra permanece irreverente e indecorosa, um barômetro indicando o que mudou e o que continua igual.

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