Desiguais entre iguais

Desiguais entre iguais

Santa Rosa do Purus, Acre, é o município mais desigual do Brasil; Já Bonito de Minas, MG, logrou reverter o abismo social de rendas

Juliana Diógenes e Lucas de Abreu Maia, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 16h00

 

Fica no centro do Acre, na fronteira com o Peru, a cidade mais desigual do Brasil. Segundo cálculos do Estadão Dados com base no Censo de 2010, Santa Rosa do Purus, a 300 km de Rio Branco, é também onde a desigualdade mais cresceu na década passada. Lá, os mais ricos ficavam, em 2010, com 60% do que era produzido no município. São 55 vezes mais que a fatia da riqueza local que ia para os mais pobres. Em 2000, a diferença entre o topo e a base da pirâmide era dez vezes menor – ricos ganhavam seis vezes mais que os pobres.

Na mesma década, o município de Bonito de Minas, na divisa com a Bahia e a 644 quilômetros de Belo Horizonte, viveu o oposto. Antes, os mais pobres quase não tinham participação na economia local. Dez anos depois, esse grupo passou a abocanhar 7% da renda da cidade. Hoje, os mais abastados são 6 vezes mais ricos que os pobres. Em 2000, eram mais de 400 vezes mais. 

Entre 2000 e 2010, a desigualdade de renda no Brasil caiu 25%, tendência que se seguiu nos últimos três anos, porém numa velocidade menor, como mostrou a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios depois da retificação de sexta-feira. Mas, enquanto a economia de Bonito refletiu o que aconteceu no cenário nacional nesse período, Santa Rosa do Purus caminhou na contramão. 

O que a realidade de dois universos com dinâmicas econômicas opostas têm em comum: 70% da população mora na zona rural e basicamente vive de agricultura de subsistência. Além disso, o dinheiro que circula tem origem sobretudo nos programas do governo federal. Mas, enquanto os 10 mil habitantes de Bonito conseguiram reverter a renda dos benefícios em negócios locais, os 6 mil de Santa Rosa ainda dão os primeiros passos na criação de uma economia autossuficiente.

Não há estrada de acesso a Santa Rosa. Só se vai de lá até Rio Branco em um bimotor que comporta até 18 pessoas, e apenas às terças, quintas e sábados. O município importa quase tudo de Sena Madureira, cidade próxima de 40 mil habitantes, e o trajeto de barco entre elas toma duas semanas. Nada é produzido localmente.

Na panela de Branca Penedo Jaminawa, havia bananas-da-terra – e só. Era feriado, dia da Amazônia, e, sem merenda escolar para os 12 filhos, cabia a ela dar-lhes o almoço. Branca desconhece a própria idade. Ela, o marido e os filhos vivem com R$ 400 do Bolsa Família. Quando moravam na aldeia indígena, a comida era a caça, a pesca e a mandioca que a tribo jaminawa plantava em conjunto. Na cidade, Branca e a família foram morar nos fundos da casa de um irmão de Marcelo. Sobre uma palafita, ergueram uma plataforma retangular de madeira com cerca de 30 m². Seis pilastras seguram o teto de palha. Os 14 membros da família dormem em redes.

A 800 metros dali, Antônio Roque tirava um cochilo no hotel que construiu há 14 anos. Sua mulher estava no balcão da padaria da família. Hoje com 77 anos, seu Roque foi o primeiro prefeito da cidade quando Santa Rosa emancipou-se em 1992. Já foi seringueiro e regatão, barqueiro que vende mercadoria para os ribeirinhos. Desde que deixou a prefeitura, é o principal comerciante de Santa Rosa. “Eu não tenho nada a ver com essa história de desigualdade, não”, diz ele, quando questionado sobre os índices sociais alarmantes do município. “Se o povo não quer trabalhar, o problema é deles.”

Em 2000, abriu a primeira padaria. Hoje, arrecada cerca de R$ 8 mil mensais, que sustentam ele e a mulher. Seu Roque tem sete filhos. Cinco deles foram estudar nas universidades particulares de Sena Madureira ou Rio Branco, mas voltaram para Santa Rosa. É proprietário de um dos oito carros particulares que circulam pelas ruas de terra.

Dos moradores de Santa Rosa, 82% estão no Bolsa Família. A cidade começou a crescer em 2000, quando recebeu uma estação do Exército. À medida que aumentavam os repasses federais do Fundo de Participação dos Municípios – única fonte de arrecadação da prefeitura –, crescia também a burocracia. A administração local importou das maiores cidades do Acre funcionários para preencher as vagas nas secretarias municipais. À medida que aumentava esse contingente, subia a renda da parcela mais rica da população. “Enquanto isso, muito indígena e ex-seringueiro veio da zona rural para a cidade”, explica João Narciso, da área de recursos humanos da Secretaria Municipal de Gestão Pública. “E essas pessoas não têm renda nenhuma.”

Medir o desenvolvimento social por meio de emprego e renda, porém, revela um quadro incompleto de municípios em que a economia é em grande parte desmonetarizada, afirma o filósofo Antônio Alves. É o caso de Santa Rosa, na qual o dinheiro quase não troca de mãos. “Será que populações indígenas e ribeirinhas são mais pobres que alguém que recebe um salário mínimo na cidade?”, pergunta. “Eles não passam fome porque caçam, pescam e plantam. Ficam menos doentes, não vivem em aglomerados urbanos.” Criador do conceito de “florestania”, em referência à cidadania (morador da cidade), Alves é crítico de usar índices como o IDH para essas populações. 

Se o isolamento geográfico de Santa Rosa limita o estabelecimento de uma economia local e torna a cidade dependente de repasses federais, em Bonito de Minas os moradores souberam se beneficiar do asfaltamento da principal estrada para fortalecer os negócios e gerar empregos.

Em 1994, quando abriu um dos primeiros comércios de Bonito, o Comercial Lucas D&D, a maior dor de cabeça de Domingos Pereira era com o deslocamento dos fornecedores. Considerado município fim, aonde só vai quem tem negócios, o acesso ao lugar tornava-se difícil diante de uma estrada de areia onde apenas caminhões e caminhonetes se arriscavam. 

No final de 2009, com o asfaltamento da LMG-604 até Januária, município mãe a 46 km, a situação mudou. De 2 fornecedores, o comércio passou a ter mais de 50, e o número de mercadinhos na cidade triplicou graças ao asfaltamento da estrada. Domingos decolou: ampliou a vendinha até virar supermercado, abriu o primeiro empreendimento de material de construção e está concluindo a montagem da primeira loja de móveis. 

Na última década, muitos jovens da zona rural migraram para o núcleo urbano em busca de emprego. Há dois anos, Samuel Sousa, 21, trocou a comunidade do Salobo pelo centro de Bonito após ser contratado como auxiliar de serviços gerais no supermercado de Domingos. Lá, trabalha com carteira assinada e recebe um salário mínimo. Gastou todo o primeiro pagamento para comprar uma moto com auxílio de um dinheiro guardado. 

 

Em toda Bonito, estão espalhadas 35 comunidades na zona rural. O aumento da renda nesses vilarejos movimentou o comércio do centro da cidade. Mas não só. Há pelo menos 15 anos, os três maiores mercados compraram cada qual um ônibus no qual, até hoje, são transportados os moradores de 20 povoados para o centro para as compras do mês. Entre os dias 28 e 15, um vilarejo no raio de até 60 quilômetros é beneficiado diariamente. 

Na comunidade do Catulé, a cerca de 15 km do centro da cidade, mora a dona de casa Judite da Silva, de 56 anos. Ela faz parte dos 70% da população de Bonito favorecida pelo Bolsa Família. Com o dinheiro, Judite compra cadernos e lápis para os cinco filhos estudarem e garante o almoço e a janta das crianças. 

São 7 horas da manhã de uma sexta-feira fresca de setembro, numa casa de farinha de mandioca do Catulé. Judite lidera um grupo de 25 pessoas, que se dividem em cinco etapas: rapar a mandioca com uma faca, cortar os excessos de casca da planta, moer numa máquina artesanal, prensar até transformar em pó e, por fim, secar a farinha. 

Encurvados, 15 moradores da região estão sentados em círculo, ao redor de quase 2 metros de mandioca empilhada, em um processo tradicional para garantir a comida do inverno. A farinha resultante da prática exaustiva de produção conjunta não é para vender, mas para estocar.

Para Roney Sindeaux, professor de administração na Universidade Estadual de Montes Claros, “os programas de transferência de renda tiveram impacto fundamental tanto para ampliar o poder de compra dos mais pobres quanto para fomentar a dinâmica econômica do município”. Esse processo, explica Sindeaux, levou à ampliação de empreendimentos e à consequente geração de empregos formais. 

O aumento de renda desses novos trabalhadores impactou a massa salarial do município, o que ajuda a explicar a redução da desigualdade ali. “Como há uma distância de municípios maiores, o volume de recursos de Bonito tende a ficar na economia local, favorecendo o surgimento de novos empreendimentos. Ainda que pequenos, é o que fixa a renda no local”. 

Segundo o pesquisador, nesse mesmo período, houve ainda um crescimento “considerável” no número de cargos na administração pública – principalmente a prefeitura –, que representou cerca de 80% dos empregos formais no município. O vínculo com a repartição municipal garante maior estabilidade e faixas salariais mais elevadas, que variam entre 1,5 e 5 salários mínimos, explica Sindeaux. 

“Mesmo os ricos de Bonito não possuem renda tão superior assim. A melhoria dos mais pobres proporcionou maior proximidade com a população mais rica porque esses dois grupos não têm níveis de renda tão distantes”.

Com 18 anos de emancipação, Bonito de Minas aos poucos vem substituindo casas de barro por estrutura cimentada. Mesmo na casa bonitense mais pobre não faltam televisão, geladeira e fogão. Há sempre um quintal com galinhas e plantações de alimentos básicos.

Por estar na divisa entre duas regiões, Bonito é uma mistura de vegetações, estilos de vida e sotaques. Devido às semelhanças com o sertão baiano, muitos moradores não se sentem parte de Minas, nem sequer da região Sudeste. Fora dali, por vezes, são vistos como apêndice do Nordeste. Se fosse possível definir a maior frustração do atual prefeito, José Reis (PPS), aliado do senador e ex-governador Aécio Neves (PSDB), seria precisamente esta: “Não somos vistos como Sudeste”.

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