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Dias Vermelhos

Mal se falou dos 50 anos da Revolução Cultural chinesa. E pode se repetir? Uma nova onda já começou faz tempo, e o emblema é um tênis da Nike

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2016 | 13h19

No início da semana, o Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista Chinês, não comemorou o cinquentenário da Revolução Cultural, deflagrada por Mao Tsé-tung em 16 de maio de 1966. Lembrou a data, mas só para alertar que a Revolução Cultural “foi um erro que não pode se repetir”. Amparado numa notificação do Partido de 35 anos atrás, depositou na lixeira da história a razia da Guarda Vermelha e a teoria da revolução contínua sob a ditadura do proletariado. Mao levou a culpa, pela furada teórica e pelo incentivo à baderna. Não houve “nem revolução nem progresso social”, reiterou o PC, só oportunismo político e guerra fratricida.

Oportunismo do Grande Timoneiro, em primeiro lugar. Ele comandara a grande marcha revolucionária que despachou Chiang Kai-shek para Formosa, em 1949, mas seu Grande Salto Adiante, pomposo nome dado à reforma econômica radical por ele implantada a toque de caixa entre 1958 e 1961, matou de fome milhões de chineses, alvoroçando a ala moderada do Partido. Antes que pudesse sucumbir à sede de poder de seus adversários, tirou outro curinga da manga: um movimento de educação do campesinato.

Ensinar a rude plebe agrária a ler, escrever e pensar nos moldes socialistas não desanuviou sua retaguarda. E assim foi que Mao apelou para sua ultima ratio: uma campanha político-ideológica visando revitalizar a revolução e restabelecer seus laços com a juventude e o homem da rua e do campo. Uma sacudida no ramerrão burocrático, uma injeção de ânimo e juventude no regime internamente pressionado por forças reacionárias que precisavam ser expurgadas numa ação coletiva cujo objetivo final era reformar a vida de todos os chineses, libertá-los de tentações passadistas e consumistas. Uma revolução dentro da revolução e galvanizada por gente que mal havia nascido quando o camarada Mao derrotou o Kuomintang e sagrou, na Praça Celestial de Pequim, a República Popular da China.

Também na China os estudantes sempre estiveram na vanguarda das lutas políticas. Os primeiros líderes comunistas chineses surgiram no meio estudantil, penhor e flecha de outro célebre movimento de maio (de 1919), contra a “estrutura podre da cultura tradicional” e a velharia que traíra o país curvando-se aos estrangeiros. Incentivada por Mao e dominada por um espírito dogmático de assustar bolchevique, a moçada aprontou. Rebelaram-se contra os pais e professores, perseguiram e humilharam intelectuais, demitidos aos milhares de seus empregos quando não confinados em campos de trabalhos forçados, no melhor estilo stalinista.

No afã de destruir a cultura burguesa e apagar todos os vestígios do milenar passado imperial, investiram contra o patrimônio artístico e arquitetônico do país, com rompantes vandálicos dignos do Estado Islâmico. Relíquias da Galeria do Culto aos Ancestrais, na Cidade Proibida, foram destruídas para abrir espaço para esculturas “revolucionárias” em terracota.

Foi uma devastação na vida de milhões de chineses. A barbárie durou dez anos e não se sabe com exatidão quantos atos de tortura, execuções e suicídios seus fogosos templários promoveram. Muitos se arrependeram dos delitos cometidos e pediram desculpas em publicações eletrônicas ou meio clandestinas. Há pelo menos oito anos que He Shu, historiador do movimento, ele próprio ex-Guarda Vermelha, edita uma newsletter em inglês com renovado repertório de revelações e mea-culpas.

Os casos de bullying e humilhação de professores e diretores de escola e universidades foram os mais brandos. Espancamentos de idosos, vários fatais, tornaram-se rotineiros. Até atos de canibalismo ocorreram na região de Guangxi. Um advogado de Pequim revelou ter recomendado a execução da própria mãe em praça pública, por ela ter rasurado um cartaz de propaganda do Partido. Outra mãe foi exemplada por seu filho ter quebrado sem querer uma porcelana com a efígie do líder supremo.

Há dois anos, a hoje sexagenária Song Binbin, filha de um ex-dirigente do PCC, abalou a blogosfera ao desculpar-se por sua participação no assassinato do vice-diretor da escola onde estudava, em agosto de 1966. Revelou ter apenas assistido ao espancamento, mas lamentou não ter interferido em favor da vítima. Teria atraído mais simpatia se, além da compunção, tivesse identificado os algozes do vice-diretor. “Quase todos os que se desculpam publicamente apresentam-se como vítimas inocentes das circunstâncias, como cúmplices passivos de algum ato criminoso, o que compromete o valor dos depoimentos”, avalia Bao Pu, editor de várias memórias daquele período, baseado em Hong Kong.

No Ocidente, a imagem que da Revolução se impôs fora dos círculos previamente antagônicos ganhou retoques algo românticos, pitorescos e mesmo frívolos, como a incorporação pela moda da túnica Mao e a transformação do Livrinho Vermelho (o vade-mécum revolucionário) em leitura de grã-fino. Godard, a seu modo, satirizou o pernosticismo dos maoistas parisienses em A Chinesa, mas eu precisaria rever A China Está Perto, de Marco Bellocchio, para verificar se o filme era um alerta alvissareiro ou um retrato do maoismo como uma doença juvenil do comunismo.

Como e por que tudo aquilo aconteceu? Era inevitável? Por que a maioria da população nela se envolveu? Essas perguntas continuam sem respostas conclusivas. Por que o mentor do desastre – que, aliás, só chegou ao fim com a morte dele, em 1976 – não teve o mesmo destino de Stalin? Essa é mais fácil de responder. Os soviéticos puderam descartar Stalin porque ainda tinham Lenin para cultuar, e aos chineses só restava a figura de Mao.

Se pode acontecer de novo? Apesar das paranoias, não de todo infundadas, de artistas e intelectuais perseguidos pela censura e vez por outra presos, uma segunda e definitiva revolução cultural já ocorreu faz tempo na China. Se tivesse algum emblema, não seria uma estrela vermelha ou uma foice e um martelo, mas um smartphone ou um tablet ou um tênis da Nike.

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