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'Dicionário do Diabo' oferece humor ácido em verbetes

Originalmente uma coluna jornalística de Ambrose Bierce, livro ganha tradução e é lançado pela editora Carambaia no Brasil

Ronaldo Bressane*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

25 Março 2017 | 16h00

"O diabo pode citar a Escritura para seus propósitos”, disse Antônio, em O Mercador de Veneza, ao responder a Shylok, que citava o Velho Testamento para justificar a cobrança de juros. “Mais sabe o diabo por ser velho que por ser diabo”, reza o velho ditado. Para quem gosta de impressionar com citações em um texto, em um post esperto na rede social ou em um sussurro ao pé do ouvido de alguém na festinha, melhor ainda do que Shakespeare é usar uma certeira aspa do velho Cujo, que sabe que não há nada de novo sob o sol – a humanidade seguirá errando e ciosa de seus erros. Não é preciso, todavia, nenhum pacto com o Cramulhão para captar-lhe a sabedoria: basta folhear as páginas coligidas por um de seus mais sagazes discípulos, o norte-americano Ambrose Bierce, autor do sulfúrico Dicionário do Diabo (Carambaia, 304 págs).

Embora este livro seja todo impresso em páginas negras, ele ilumina como um sol. Seu lugar na estante de toda pessoa esclarecida terá a companhia da Bíblia do Caos, de Millôr Fernandes (devoto de Bierce), do Pai dos Burros, de Humberto Werneck (ótimo antídoto a clichês), e da obra de Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Mencken, Borges, Bernard Shaw e Woody Allen. O ingênuo se assustará com a negatividade de cada verbete: não é livro indicado a quem se afoita com frases de Clarice Lispector (que na verdade são de Caio Fernando Abreu) para decorar o mural no Facebook. Pessoas que vieram da fábrica sem a virtude futebolística maior de Ronaldinho Gaúcho – olhar para um lado e chutar a bola para o outro –, ou seja, o uso da ironia, por favor, passem longe desta antibíblia e busquem um livro de auto-ajuda na megastore mais próxima. 

O vitriólico volume (a tinta desta belíssima edição recende mesmo a enxofre) requer contexto, humor negro, sarcasmo, ama o paradoxo e exercita o tempo todo a máxima de Millôr: para livre-pensar, basta pensar. Originalmente uma coluna jornalística chamada “dicionário do cínico”, o livro ganhou chifres quando Bierce, já aos 70 anos, resolveu coligir todos os verbetes porque se cansou de vê-los creditados a Arnaldo Jabor ou a Clarice Falcão (fica a dica, Verissimo). Bierce sabia que todo cínico é “um canalha cuja visão defeituosa vê as coisas como elas são, não como devem ser”. No mundo da pós-verdade, onde qualquer bufão que mente usando a rede social ou o papo furado de jurista vira presidente da República, o Dicionário do Diabo deveria ser distribuído às escolas como contraveneno para populistas, fanáticos e qualquer pretenso detentor de verdades estabelecidas. De A a Z, nada escapa da tinta negra de Bierce, assustadoramente atual, como se nota no verbete Política. “Luta de interesses disfarçada de disputa de princípios. A condução dos negócios públicos para obter vantagens pessoais. O político é uma enguia no lodo fundamental sobre o qual se ergue a superestrutura da sociedade organizada. Quando serpenteia, ele confunde a agitação do seu rabo com o tremor do edifício. Comparado com o estadista, sofre a desvantagem de estar vivo.”

Nascido em 1842, reconhecido por seu talento também como contista e poeta, o endiabrado jornalista contrariou todo o tipo de interesse com sua pena sulfúrica. Ao descobrir que um magnata das ferrovias estava por receber um “empréstimo” da União de US$ 130 milhões, Bierce ouviu uma proposta indecorosa para não revelar a notícia. Deu seu preço ao magnata: US$ 130 milhões. O jornal em que Bierce trabalhava era de propriedade de outro milionário, William Randolph Hearst, a inspiração do Cidadão Kane de Orson Welles – Bierce também não gostava da mão pesada do chefe sobre as publicações e passou a criticá-lo abertamente, o que ocasionou sua demissão. Apesar de venenoso ao extremo, Bierce, ao contrário de muito colunista malicioso de hoje, era afável, corajoso e solidário: ganhou medalhas de bravura pelos pesados ferimentos recebidos durante a Guerra da Secessão. No auge da carreira, já com mais de 70, resolveu seguir Pancho Villa para cobrir a Revolução Mexicana. Seu corpo nunca mais foi encontrado – presume-se ter morrido em 1913.

Moralista que combatia o moralismo, ateu que lutava contra o fundamentalismo, vaidoso que criticava a soberba e filósofo que detestava filosofice, Bierce é um negativista extremo que não poupa ninguém – nem a si mesmo. Assim definiu o amor: “Insanidade temporária curada pelo casamento ou pela remoção do paciente das influências sob as quais ele contraiu a doença. Essa doença, como a cárie e muitas outras, só se encontra entre raças civilizadas que vivem em condições artificiais; nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples gozam da imunidade contra seus ataques. Às vezes é fatal, mas com maior frequência para o médico do que para o paciente”, anotou Bierce, que se divorciou aos 52 anos, após encontrar cartas suspeitas entre os objetos da esposa.

*Ronaldo Bressane é jornalista e escritor, autor de 'Céu de Lúcifer' (Azougue) e 'Mnemomáquina' (Demônio Negro)

Dicionário do Diabo

Autor: Ambrose Bierce

Tradução: Rogério W. Galindo

Editora: Carambaia

304 páginas

R$ 99,90

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Literatura

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